terça-feira, agosto 16, 2005

DORA KRAMER Estratégia à moda severina

O ESTADO DE S PAULO
Presidente da Câmara faz de si uma ameaça para inibir o debate sobre impeachment

O deputado Severino Cavalcanti teve uma idéia. Não se sabe se sozinho ou estimulado pelas recentes e freqüentes conversas com o presidente Luiz Inácio da Silva, saiu-se ontem com aquela de se dizer preparado "para tudo", inclusive assumir a Presidência da República em caso de impedimento do presidente e do vice José Alencar.

Seria uma obviedade constitucional não fosse, antes, uma tentativa tosca de se aliar à estratégia de inibir possíveis propostas de impeachment, evidenciada também pelos movimentos palacianos de desenhar um horizonte de convulsão social e descalabro institucional na hipótese de as investigações em curso apontarem para a necessidade do recurso extremo.

O presidente da Câmara pode ser bronco, mas não é bobo. Deve se dar a ele o direito de não se achar - no que tange ao cargo - um produto de episódio anômalo. Mas não se deve também lhe subtrair atributos sensoriais suficientes para perceber que é esta a convicção geral.

Quando, ao invés de responder com evasivas às perguntas sobre a hipótese do impedimento, aceita o debate e ainda se apresenta pronto para o que der e vier, é evidente a sua intenção de lembrar aos políticos, mas principalmente aos cidadãos insatisfeitos, que no lugar de Lula podem ter Severino Cavalcanti na Presidência da República, e isso não configura alvíssaras.

Temos, então, o seguinte quadro: de um lado, o Palácio do Planalto alimenta receios institucionais, superestimando sua base de sustentação social e produzindo suposições difusas, como no caso do jantar de Lula até altas horas da madrugada com Hugo Chávez; de outro, o presidente da Câmara materializa a ameaça implícita dando gás à tese do ruim com ele pior sem ele, valendo-se, para isso, da própria desqualificação aos olhos da opinião pública.

Desse modo ambos conseguem, no máximo, adicionar força à já bastante firme certeza a respeito da incapacidade de o governo se defender com altivez, senso de Estado e transparência. Mais grave: aumentam a suspeição de que o próprio presidente não vê condições de defesa para si.

O histórico da crise deu mostras suficientes da inutilidade de determinados expedientes. Os artificialismos e artimanhas só contribuíram para piorar a situação. Uma após a outra, as ações de "inteligência" foram todas se revelando atos de insanidade de ineficiência comprovada.

Passou da hora de o governo deixar de lado a "querência" e adotar o lema da "poderência". Nem sempre querer é poder, não adianta querer que as coisas sejam de um modo se não se pode fazê-las funcionar da maneira mais eficiente.

No caso em cartaz, a eficácia está diretamente ligada à convicção da inocência e à objetividade na apresentação de suas provas à sociedade. Se o governo for capaz de lidar de forma madura e convincente com a questão, não há proposta de impeachment que fique em pé.

Deus por todos

Não bastasse a permissividade ética, petistas (ressalvadas as exceções de conhecimento público) começam a revelar também acentuada tendência à frouxidão de caráter.

Na hora da bonança, foram coniventes com os métodos e reverentes aos modos políticos de José Dirceu, cuja mitologia do grande articulador ajudaram a sustentar, com apoio de boa parte da imprensa.

Agora, quando sobrevém a tempestade, é a Dirceu sozinho a quem se atribuem todos os males do partido, senão nesses 25 anos de existência, pelo menos desde que o PT resolveu se transformar numa eficiente máquina de negócios eleitorais.

Ora, então, quer dizer que José Dirceu convocou Delúbio Soares e Silvio Pereira, entregou a eles a execução do serviço e assumiu, por esses anos todos, a função de mestre-de-obras de uma construção solitária?

Não é crível, nem se sustenta nos fatos, que para cima ou para baixo Dirceu tenha feito tudo, montando o esquema agora em desmonte, à revelia do símbolo maior do partido, Luiz Inácio da Silva, de seus parlamentares, dirigentes e até militantes mais engajados.

Entre outros motivos porque todos eles - e aqui se incluem os de esquerda - se valeram da grande remontagem da imagem do partido propiciada pela marquetagem milionária - e por isso mesmo bastante visível - de Duda Mendonça.

Com ela, o PT tornou-se palatável ao seu eleitorado não tradicional, fez uma bancada de 93 deputados e é inaceitável supor que desconhecesse o pressuposto do abandono de princípios no meio do caminho.

Em boa hora o PT desembarcou da defesa intransigente, e não raro agressiva, do indefensável. Mas também proporciona ao País um mau momento de teatralidade quando externa sua desilusão não por intermédio da responsabilização coletiva, mas pela via da transferência de responsabilidade a quem fez o que fez sob os auspícios e, nos casos mais leves, leniência, de um coletivo para o qual estava tudo muito bom, tudo muito bem até a "traição" do "parceiro" Roberto Jefferson.


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