| PRIMEIRA LEITURA |
| Foi um erro e tanto insistir na instalação da CPI do Mensalão, uma vez que o tema inevitavelmente seria debatido na CPI dos Correios, que tem uma competência média infinitamente superior à outra, a despeito de destaques importantes nesta segunda comissão. Seria urgente um esforço para unificá-las. Se possível, trazendo junto a dos Bingos. Mais um pouco, e isso ainda passa a ser um tiro no pé do próprio Congresso e de quem quer realmente investigar e punir culpados. O excesso vai acabar confundindo a opinião pública, e se fica sem foco. É bom o Congresso se dar conta de que ele é quem mais apanha nisso tudo. Roberto Jefferson presta seu grande serviço ao denunciar esse monstruoso esquema, mas também tem seus interesses. Basta ver o denodo com que ora ataca ora defende o presidente Lula. Sabe-se lá qual é a sua pauta. O fato é que Lula não o agride jamais. Tem medo dele, suponho. Enquanto isso, finge que nada acontece e vai para a galera. Pior: aos olhos de todo mundo, faz comício eleitoral com dinheiro público, como vem fazendo desde que resolveu cair nos braços do povo. Até esta quinta, tinha feito nada menos do que 12 intervenções populares em duas semanas. A estratégia da oposição de blindar Lula tem lá as suas virtudes desde que se pense no que fazer num segundo tempo. Ou, então, é só risco. Explico: parece inevitável que as CPIs cheguem ao fim com uma dezena, talvez um pouco mais, de cassações e/ou renúncias. O Poder purga seus pecados ao cortar na carne, mas sabe que sua imagem sai do episódio ainda mais abalada do que antes. Devem saber todos que a opinião média sobre "políticos" não é lá grande coisa. Não sei como anda neste momento a blindagem de Lula. Talvez um pouco mais abalada do que antes. Mas será sempre importante ter um medidor à mão. Agora que, definitivamente, ele resolveu afrontar o que chama "elites — entenda-se aí todo o sistema político —, é preciso se contar com a razoável possibilidade de que, a despeito da óbvia prevaricação, se chegue à conclusão de que, como quer Jefferson, "o presidente operário não tem nada com isso". Embora tenha sido o primeiro a pôr para circular a fantasiosa versão de Marcos Valério e Delúbio Soares. Tudo aquilo de que o Congresso não precisa é ficar se martirizando em três CPIs, reiterando autoflagelos já praticados, enquanto o chefe do Executivo sai por aí abraçando a galera, como se estivesse descolado do jogo político e jamais tivesse tido qualquer ascendência sobre o seu próprio partido. Se vocês olharem bem, a situação beira o ridículo. Afinal de contas, que diferença de objeto têm as CPIs dos Correios e do Mensalão? Aliás, supor que possa ter havido um "mensalão" sem um esquema de corrupção e tráfico de influência envolvendo empresas estatais e empresas privadas é ignorar a natureza do que está sendo investigado. São tantas as frentes e os focos de investigação, que a população tende a reduzir tudo a uma avaliação depreciativa dos políticos, de todos os políticos, que só estariam interessados em roubar. Enquanto Lula sai por aí fazendo o discurso do não-político. Caso se mantenha preservado mesmo, a despeito dos fatos, há ainda uma boa chance de que arrote moralidade e bata no peito dizendo que colaborou para desmantelar um esquema de corrupção do país. Os petistas são especialistas em fraudar a história. Assim, é bom a oposição ir pensando numa alternativa para uma CPI que acabe levando à punição de parlamentares e de alguns dirigentes do PT, como se o dinheiro, o combustível de todo o esquema, não fosse, afinal de contas, gerenciado pelo Executivo. Já escrevi e reitero. Que ninguém corra o risco de considerar Lula um mero cadáver político adiado. Ele tem força para procriar. E aí vamos conhecer, de fato, o inferno. O que nos salva é haver uma imprensa vigilante que, como se vê, não cai mais no conto do demiurgo que quer nos salvar. E que se mostra disposta a não deixar Lula esbulhar a institucionalidade em nome de suas pretensas utopias, absolvido de antemão pelo seu passado. Se Lula foi retirante, pobre etc e tal, não era para aprimorar, no poder, os esquemas de corrupção da elite que ele dizia combater. Afinal, a fantasia não era a de que ele faria justamente o contrário? Ainda sobre imprensa: a Veja desta semana, com uma espécie de representação que lhe é delegada por seus milhões de leitores (um exemplar é sempre lido por mais de uma pessoa), é a prova de que há instituições fortes no país. Os delírios totalitários naufragaram. Falta agora afundar o pesadelo salvacionista. E ninguém pode acusar a revista de não ter tentado preservar Lula de si mesmo. Lula é que fez questão de acreditar que, de fato, era um Lula. Deu nisso. PS: Encerro com uma observação algo descolada do texto acima, mas pertinente. A deputada Juíza Denise Frossard fez algo que um juiz não deve fazer, um parlamentar tampouco. Prejulgou ao afirmar que PT, PSDB e PFL estavam dedicados a uma grande pizza. Boa parte das informações que circulam na imprensa tem, afinal, origem nos documentos colhidos na CPI e derivam da vontade de quem escolheu outro prato. Parece-me que ela não está entendendo direito a lógica dos acontecimentos e resolveu tirar uma casquinha do baixo prestígio dos políticos, fingindo-se uma "não política". |
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