quinta-feira, agosto 11, 2005

AUGUSTO NUNES :Ministro defende turma do pântano

JB

Na letra de Vai Passar, criada em 1983 pelo gênio de Chico Buarque, houve um tempo em que "dormia a nossa pátria-mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações". Uma "página infeliz da nossa história", que haveria de passar. A redemocratização iminente ressuscitaria a liberdade assassinada. Seria restaurado no Brasil o direito de ser feliz. E o povo festejaria a mudança com celebrações incomparáveis.

A profecia começou a ser cumprida com o fim do regime militar, sepultado sem honras no mausoléu das más lembranças. O país caiu na festa. E perdeu de vez o medo de ser feliz em 2003, vinte anos depois de ter ouvido pela primeira vez os versos de Vai Passar. Ao assumir a Presidência da República, o ex-operário Lula da Silva desencadeou um carnaval temporão que mobilizou milhões de brasileiros enlouquecidos de alegria. Seria uma alegria fugaz, avisara Chico Buarque.

Nunca o Brasil foi tão feliz quanto em janeiro de 2003. Nunca esteve tão amargurado quanto neste inverno de 2005. A mãe gentil ressonava no berço esplêndido quando foi despertada, em junho, pelo berreiro do deputado Roberto Jefferson. Passou do sono tranqüilo ao pesadelo que já dura dois meses.

Os passageiros da esperança foram despejados na estação do medo. Descobriram que as tenebrosas transações jamais cessaram. Descobriram que viajavam havia dois anos e meio num trem controlado por assaltantes. Os maquinistas com jeito de mocinho eram rematados bandidos. E os trilhos desembocavam no pântano dos corruptos.

Confrontados com a extensão do lamaçal, os brasileiros estão compreensivelmente inquietos. Os inocentes se preocupam com o destino do Brasil. Os culpados se preocupam com o próprio destino. A tribo dos felizes só abrange os desinformados fundamentais, os loucos, as crianças, os cínicos. E o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.

Faz sentido. Com a explosão da crise, o ministro refugiou-se no camarim para que entrasse em cena o talentoso advogado criminalista Márcio Thomaz Bastos. Era o homem certo para a complicada missão: montar a linha de defesa dos criminosos ligados ao Planalto, alguns instalados nas cercanias do gabinete presidencial. Nascido há 70 anos na cidade paulista de Cruzeiro, o advogado é muito melhor que o pai da pátria.

O ministro é mais um entre os tantos medíocres do primeiro escalão. Não inaugurou nenhum dos presídios prometidos há quase três anos. Nem sequer esboçou uma política de segurança pública capaz de reduzir a insônia dos moradores das grandes cidades. Pouco fez para neutralizar o crime organizado. Não deteve o avanço do narcotráfico. Celebra espetaculosas operações da Polícia Federal que terminam em nada. É um ministro bisonho, mas um craque dos tribunais.

Como advogado de defesa ou assistente da acusação, brilhou em mais de 700 processos. Fez bonito em em todas as causas, boas ou más. Ajudou a condenar os assassinos do seringalista Chico Mendes. E absolveu os jovens que atearam fogo aos andrajos do índio pataxó numa rua de Brasília. Livrou da cadeia o sindicalista Lula. E também o suspeito do afogamento de um calouro no trote da Faculdade de Medicina da USP.

Foi Márcio o autor da idéia de reduzir a "crimes eleitorais" as roubalheiras institucionalizadas pelo bando dos delúbios, valérios, silvinhos e dirceus. Qualquer estagiário sabe que a coisa foi muito mais feia, e que a fantasia de Márcio se destina a diminuir o tamanho do castigo (se houver algum). Mas ele gostou da tese que, apesar de insustentável, ganhou o endosso de Lula e do PT. "Infelizmente, o uso do caixa 2 em campanhas eleitorais é rotineiro", repete.

Não é rotineiro um ministro da Justiça mentir para livrar da pena merecida os bandidos de estimação.

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