domingo, agosto 14, 2005

AUGUSTO NUNES :A esperança em frangalhos

JB


Fotos AFP e ABr
O espantoso testemunho de Duda desmontou a imagem de Lula que o publicitário construiu na campanha vitoriosa

Como um escultor que implode a obra-prima, Duda Mendonça destruiu o Lula que inventou. O publicitário demorou 10 meses até concluir o monumento que celebrava a ética, a decência, a nova política; a Mudança. Para reduzi-lo a escombros, bastaram 10 horas.

Nestes dois anos e meio, Duda fez retoques que mantiveram intacta a criatura. Sabia que faltava a Lula o alicerce das idéias sólidas. Não tardou a descobrir que o monumento fora erguido em chão movediço e traiçoeiro. Nos domínios do PT crescia o pântano dos corruptos, atulhado de delinqüentes da ''base aliada''. Ao perceber que o lamaçal ameaçava alcançá-lo, resolveu contar o que sabia. E compareceu espontaneamente à CPI dos Correios.

O espantoso depoimento produziu aterradores retratos do pântano. Um deles exibe a abertura de contas em paraísos fiscais. Outro mostra a movimentação de cifras milionárias por Marcos Valério e cardeais do PT. As revelações encerraram o primeiro dos dois atos da tragédia.

A cena de abertura, dominada pelo bandido-herói Roberto Jefferson, ocorreu em 5 de junho. Até o dramático 11 de agosto, foram 67 dias marcados por revelações estarrecedoras e pelo desconcertante comportamento do ator principal, que só entraria no palco nesta sexta-feira.

Enquanto a lama se aproximava do coração do poder, Lula se entretinha com a leitura de outros roteiros. Na tragédia brasileira, deputados vendiam votos ao governo. O artista viajava. O carequinha de Minas irrompia na ribalta. O astro ambulante colecionava improvisos pelo país.

O desenrolar do drama informava que a quadrilha assaltara o aparelho do Estado para roubar o dinheiro do povo. Lula inaugurava estradas já inauguradas. Emergiam da lama bandalheiras no Banco do Brasil, na Casa da Moeda, no BMG, no Banco Rural. Lula combatia ''as elites''.

Só na sexta-feira o protagonista apareceu no teatro da crise, escalado para abrir o segundo ato com um solilóquio. Um desempenho bisonho. O elogio do próprio governo ocupou metade do tempo. E então jurou que só agora enxergou o buraco. Só agora soube da roubalheira incomparável. Só agora sentiu o mau cheiro do PT. Só agora acordou.

Os pronunciamentos anteriores foram monitorados por Duda Mendonça. Na sexta-feira, o inventor da imensa fantasia era mais que o grande ausente: era mais um adversário a combater. Havia outros. Previsto para as 9 da manhã, o discurso foi adiado até que Lula lesse a reportagem da revista Época em que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, relatava acordos obscuros avalizados por Lula e José Alencar. O monólogo nada esclareceu.

É penoso admitir que Lula - autoproclamado o mais ético dos governantes - banca o desinformado profissional para afastar-se da crise. O mais despreparado dos presidentes sabia muito. Por omissão, reduziu a frangalhos a esperança que venceu o medo.

Decepcionado com o pronunciamento de Lula, o Cabôco não agüenta mais esperar esclarecimentos e respostas que o presidente insiste em sonegar. (Acha que, se o orador estivesse plugado a um detector de mentiras enquanto falava, a curva assustaria qualquer cardiologista.) E pergunta: por que Lula não convoca, já, uma entrevista coletiva de verdade, concedendo aos jornalistas o indispensável direito à réplica?

Laranjas bombardeiam a glória fugaz

O deputado Roberto Jefferson teve muito mais que os dez minutos de fama estipulados por Andy Warhol. Começou o filme como chefe da quadrilha dos Correios. Roubou o roteiro e decidiu trocar de papel: o grande vilão virou salvador da terra sem lei. Durante semanas, encarnou com sucesso o xerife disposto a botar ordem no saloon. Ocupou largos espaços no noticiário. No Programa do Jô (à esq.), até cantou o bolero Nervos de aço.

A festa acabou na Faculdade de Direito da USP, a velha academia no Largo de São Francisco. O erro de Jefferson foi topar um duelo entre iguais: a platéia de estudantes foi tão surpreendente e atrevida quanto o astro convidado. Ele gostou do coro inicial: ''Fora Lula!''. Espantou-se com o seguinte, endereçado ao próprio Jefferson: ''Picareta! Picareta!'' Um bombardeio de laranjas encerrou o duelo. E empurrou o vencido para o desvio que leva ao nada.

Mineiro sabido ganha o troféu

O deputado Ibrahim Abi-Ackel (PP-MG), relator da CPI do Mensalão, usa termos tão eruditos que até os tucanos doutores têm de folhear, discretamente, o dicionário. Ganhou a taça com uma frase pronunciada já na primeira sessão da CPI:

''Acho essa questão despicienda''.

''Despicienda, dispensável'', traduziu em seguida o mineiro campeão.

O guerreiro aposentado

Afastado da presidência do PT e do salário mensal calculado em R$ 9.000, José Genoino pode dispensar-se da prometida busca de serviços remunerados. No dia 2 de agosto, o ex-deputado requereu à presidência da Câmara o benefício da aposentadoria parlamentar. Foi atendido em 72 horas pelo sempre generoso Severino Cavalcanti.

Na edição de 5 de agosto, o Diário Oficial da União formalizou o repouso do guerreiro. Aos 59 anos, Genoino receberá mensalmente R$ 8.148, correspondentes a 52% dos vencimentos de um deputado (R$ 12.847), acrescidos de 4/35 do salário. São quase R$ 9.000. Como aposentados podem ser candidatos, vai sobrar-lhe tempo para planejar a próxima campanha.

O sossego dos delinqüentes

O que esperam os guardiães da lei para provar aos homens decentes que ainda há juízes no Brasil? Por que permanecem em liberdade figurões da República flagrados no monturo dos corruptos? Até crianças do pré-primário sabem, por exemplo, que Marcos Valério comprou por R$ 2,6 milhões Henrique Pizzolatto, vice-presidente do Banco do Brasil, e Manoel Severino dos Santos, presidente da Casa da Moeda (orçado em 2,7 milhões).

Pizzolatto se aposentou, Santos descansa no recesso do lar. Em ambos os casos, não há motivos para aguardar as conclusões das CPIs. Merecem cadeia. Depois de devolverem a fortuna roubada.

Gente que faz

Até chegar ao posto de primeiro-filho, Fábio Luiz Lula da Silva (foto) foi mais um entre tantos jovens assolados por incertezas financeiras. Formado em Biologia, atravessou 2002 sem emprego fixo. Sobreviveu como monitor do Jardim Zoológico de São Paulo, depois à custa de aulas particulares de inglês e informática.

Hoje com 28 anos, sócio de três empresas, Lulinha é o feliz proprietário de ações que somam R$ 625 mil. Mais que o patrimônio do pai (R$ 422 mil declarados). Para tanto, bastou-lhe percorrer a trilha desmatada por Daniel Dantas, craque em fazer amigos e influenciar pessoas.

A rota aberta por Dantas levou o primeiro-filho ao encontro da Telemar. Associado a dois filhos de Jacó Bittar, ex-prefeito de Campinas, Lulinha era dono da agência de publicidade G-4. Em outubro de 2004, a fusão com a Espaço Digital pariu a holding BR-4. Passados dois meses, um contrato com a Telemar elevou o capital BR-4 a R$ 2,7 milhões. Era só o começo.

A Gamecorp nasceu do casamento com a bondosa Telemar, que entregou aos jovens empreendedores R$ 2,5 milhões. Outras empresas, quase todas ligadas de alguma forma ao governo, gostariam de entrar no clube.

Lula acha tudo normal. Lulinha é gente que faz.

FH não tem nada com isso

Nem o senador Aloizio Mercadante poderá afirmar que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está por trás da idéia de aumentar o salário mínimo para R$ 380. Na quarta-feira, enquanto o Senado aprovava a emenda apresentada por Antonio Carlos Magalhães, FH aplaudia um espetáculo muito melhor. Acompanhado pela mulher, Ruth, e pela nora Evangelina Seiler, o ex-presidente era o único político na platéia deslumbrada com os bailarinos do Grupo Corpo, o melhor do mundo em dança contemporânea. O programa marcou a estréia de Onkotô (Onde é que estou, em Minas). Por acaso ou bom gosto, FH estava no lugar certo.

Só os bancos podem pecar

Informado do assalto no Ceará, o comando do Banco Central recorreu de imediato à Polícia Federal. Com notável agilidade, um timaço de sherloques saiu à caça dos ladrões que, sem violência nem sangueira, haviam tungado R$ 150 milhões da sucursal de Fortaleza. Em poucas horas, os detetives estavam prestes a capturar o bando e a bolada.

O comportamento do BC e da PF oscila conforme o alvo. Bandidos comuns merecem uma reação rápida e eficaz. Os crimes cometidos pelo Banco Rural são tratados com mais tolerância. Diretores da instituição, cúmplices do grande roubo, têm fraudado impunemente documentos solicitados pelas CPIs.

Só terão problemas se assaltarem o Banco Central.


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