| DORA KRAMER |
| O Estado de S. Paulo |
| 17/6/2005 |
José Dirceu sai tarde demais, com a majestade perdida e a reputação ferida José Dirceu deixa a chefia da Casa Civil com ano e meio de atraso e volta à Câmara dos Deputados desprovido da majestade de segundo homem mais poderoso da República, ferido na reputação de grande articulador político e devendo ao país explicações a respeito de denúncias de corrupção envolvendo a cúpula do PT a ele íntima e diretamente ligada. Nem por isso abandonou o ânimo do confronto. Anunciou seu pedido de demissão num tom bem abaixo da estridente arrogância habitual, mas acentuou a pronúncia de militante ao prometer "dar combate" aos adversários do PT e do governo Lula. Se na volta à Câmara permanecerá como referência política e dono da prerrogativa de comandar a tropa petista, isso vai depender do rumo dos escândalos em curso e das consequências das arestas que criou com petistas, aliados e oposicionistas ao longo do seu reinado. José Dirceu definitivamente não fez amigos nesse período. Não se preocupou também em preservar o diálogo com a oposição e àqueles partidos com os quais imaginou formar maioria sólida para Lula no Congresso, sempre reservou um tratamento de capataz. Portanto, a versão que os governistas procuravam dar ontem ao significado de sua volta à Câmara - a do grande pólo catalisador da defesa do governo e da reorganização da base no Parlamento - é um tanto cor-de-rosa frente aos fatos nada risonhos e muito menos francos. O José Dirceu que assume o mandato na próxima semana não é nem sombra do José Dirceu empossado ao lado de Luiz Inácio da Silva, em 2003, para comandar do nascer do sol à queda da chuva na República. Natural que seus companheiros queiram imprimir grandiosidade ao gesto de saída, como se fosse um ato magnânimo de um comandante que por livre e espontânea vontade resolveu se mudar para outro campo de batalha. A realidade, todos podem ver, é bem outra: José Dirceu saiu porque não tinha mais condições políticas de ficar. Perdeu a chance de sair por cima em fevereiro de 2004. O escândalo Waldomiro Diniz tirou-lhe prestígio e poder. Na ocasião, o presidente da República e o que à época denominava-se "núcleo duro" do governo optaram pela permanência de Dirceu avaliando que seu afastamento representaria o enfraquecimento político de todos. De lá para cá, o ministro fez várias e desafortunadas tentativas de fazer crer à opinião pública que recuperara a posição perdida definitivamente quando seu braço-direito foi exposto em ato de corrupção explícita, pedindo propina a um banqueiro de jogo. Confundindo grandeza com fraqueza, José Dirceu deixou passar a chance de se afastar do cargo enquanto era dono absoluto da iniciativa. Cometeu grave erro de cálculo ao desconsiderar a evidência de que não estava no comando de um partido - onde tudo é permitido e suportado em nome da causa comum -, mas no controle de um posto-chave numa nação de demandas diversificadas, percepção aguçada pelo alto grau de expectativa e baixíssima disposição de tolerar provocações e exibições de autoritarismo. Em pouco tempo, José Dirceu passou a liderar a lista dos ministros mal percebidos nas pesquisas de opinião. Contribuiu muito o gosto do ministro por sinais exteriores de poder desprovidos de sentido prático. Por exemplo, não parece ter ocorrido a ele que o acúmulo de atribuições sem a correspondente apresentação de resultados em grande quantidade resultaria em impressão de ineficácia. Já combalido pelo caso Waldomiro, Dirceu permaneceu no comando de dezenas de grupos de trabalho governamentais, assumiu a gerência de todos os programas administrativos e a soma disso resultou zero. Começou mostrando-se poderoso e terminou demonstrando-se ineficiente, só pela ilusão de que a existência de uma instância com poderes sobre-humanos levaria automaticamente tudo a funcionar ao seu redor, de acordo com seus desejos e conveniências. Dito assim, parece fruto de delírio. Mas o autoritarismo o que é senão produto de mentes turvas pela onipotência? Se não for tudo parte de uma cena para dar a José Dirceu a possibilidade da saída honrosa, sinais dessa onipotência repetiram-se ontem nos discursos segundo os quais o deputado seria a partir de agora o grande condutor da recuperação do governo e da salvação do projeto de reeleição. Talvez conviesse, em nome da prudência e da prevenção de frustrações futuras, que as expectativas baixassem um pouco. Por enquanto, o deputado José Dirceu é um ex-ministro apontado por um presidente de partido aliado e interlocutor freqüente, como artífice da montagem de uma maioria parlamentar na base da compra e venda de deputados .
O presidente Luiz Inácio da Silva comanda pessoalmente as consultas para executar a reforma no Ministério. Ontem sondou o presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre a possibilidade de ampliar a participação do PMDB. De olho na opinião pública, o senador ficou de pensar. Antes avisou que terá problemas com a ala oposicionista. |
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