terça-feira, maio 10, 2005

DORA KRAMER:Assobiar ou chupar cana

Não fosse a realização da Cúpula da América do Sul e dos Países Árabes, em Brasília, hoje a Câmara dos Deputados teria duas votações importantes a fazer na Comissão de Constituição e Justiça.

Mas, como o chefe do Poder Executivo, Luiz Inácio da Silva, com o beneplácito do Legislativo e do Judiciário, considera muito difícil fazer duas coisas ao mesmo tempo – recepcionar autoridades estrangeiras e organizar o trânsito de Brasília –, ficam adiadas as discussões sobre o referendo à proibição do comércio de armas e a emenda relativa à forma das alianças eleitorais para 2006.

Transferem-se também os demais prazos, para emendas de projetos e medidas provisórias, e suspendem-se os trabalhos no Executivo, Judiciário e no Congresso, cujo fechamento nunca é uma boa idéia, seja ela originada em que motivo for.

Nada justifica a decisão, muito menos a anômala alegação de que os chefes de Estado e representantes dos países árabes e sul-americanos precisam se deslocar pela cidade, por questões de segurança isso implica a interdição do trânsito e, portanto, para evitar transtornos aos moradores (funcionários públicos, bem entendido) decreta-se ponto facultativo.

Tipo da providência desnecessária, de caráter provinciano, autodesqualificante, improvisada e sobretudo reveladora da insegurança da autoridade.

A decisão sobre o feriado foi tomada ontem, quando se viu que as interdições de vias causaram imensos congestionamentos em vários pontos da cidade. Aí registra-se o improviso, pois tratava-se de um dado previsível se houvesse um mínimo de planejamento.

À improvisação, somou-se a insegurança, pois, com receio de atrair para si a ira dos moradores de Brasília e de o caos na cidade se transformar numa péssima peça de contrapropaganda, o Governo preferiu suspender os trabalhos institucionais a fim de, pelo menos, reduzir a insatisfação.

E ainda muita gente houve na cidade que viu perfeito sentido na decretação do ponto facultativo como fator de conforto urbano.

Ora, em situações excepcionais, uma das tarefas do poder público é justamente organizar o espaço coletivo de forma a que a excepcionalidade provoque o mínimo de transtorno possível.

Se um Governo não consegue garantir o funcionamento das instituições do país porque não é capaz de organizar o trânsito de uma cidade, francamente, não está apto a recepcionar encontros internacionais ou qualquer evento que envolva esquemas especiais de segurança com a presença de hóspedes importantes, sejam eles alvos do terrorismo ou estrelas do rock.

Não será outro o sinal transmitido pela bisonha decisão de fechar o Congresso e as repartições federais porque o Governo não consegue compatibilizar o traslado de comitivas governamentais pela cidade com as idas e as vindas dos funcionários públicos, dos ministros, dos deputados, dos senadores, dos desembargadores e dos procuradores pelas vias expressas de Brasília.

Se a lógica pega, em 2007 as autoridades locais deverão também suspender os trabalhos no Rio de Janeiro durante as duas semanas de realização dos Jogos Pan-Americanos, a fim de afastar os problemas no lugar de resolvê-los.

Cheque em branco

Se não é precipitação, é ingenuidade o que move o Palácio do Planalto a orientar o PT a mudar sua posição em relação às normas de alianças eleitorais para 2006, só para agradar ao PMDB.

Depois de o presidente do PT, José Genoino, defender veementemente a manutenção de regra que obriga os partidos a reproduzir nos estados as coligações feitas no plano nacional, dizendo que o fim dela seria “o pior dos mundos para o sistema eleitoral que é uma bagunça e vive uma anarquia legalizada”, o partido agora vai lutar exatamente em favor do “pior dos mundos”.

Tudo porque o PMDB, interessado nesse “mundo” bem pior, convenceu o presidente e seus auxiliares políticos de que ou o PT mudava de posição ou os pemedebistas não poderiam apoiar a reeleição do presidente Lula.

Falta um bom amigo – ou um assessor mais atento – que explique ao presidente da República: nada neste, ou naquele piorado mundo, fará o PMDB apoiar a reeleição se Lula estiver mal nas pesquisas.

Da mesma forma, se ele estiver excepcionalmente bem, não haverá candidatura própria que possa impedir os pemedebistas (não só eles, diga-se) de se declararem em estado de total defesa de um segundo mandato.

Cheque em branco o presidente Lula já declarou que daria ao PTB. Não convém entusiasmar-se e dar outro ao PMDB.

Jarbas senador

A versão é do Palácio do Planalto. Um dos mais combativos soldados da ala oposicionista do PMDB, o governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, já estaria totalmente convertido.

Não com a promessa de ocupar a vaga de vice na chapa de Lula, mas com um acordo regional pelo qual não faria objeções – sequer apresentaria candidato – à candidatura petista ao Governo do estado, em troca da vaga em disputa para o Senado com o apoio do PT.

O GLOBO

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