sábado, abril 16, 2005
Zuenir Ventura: A falta que faz o PT
Ah, se o PT ainda fosse oposição! Ah, se ainda se fizesse oposição como antigamente! Com toda a certeza, as coisas não estariam no pé em que estão e o país se encontraria em outra situação. Imagina se o governo conseguiria manter por tanto tempo sem solução a novela de um ministro bombardeado por denúncias, acusado de usar verbas públicas em sua campanha e de dar sete fazendas inexistentes como garantia de empréstimo obtido no Banco da Amazônia para financiamento de um abatedouro de frangos do qual foi sócio, o Frangonorte. Com um detalhe: o ministro assumiu prometendo um rigoroso choque de moralidade na Previdência.
É bem verdade que, como alegou o chefe da Casa Civil, ainda não há condenação “e, no Brasil, até que se prove o contrário, todos são inocentes”. Mas não é menos verdade também que, de acordo com o princípio da mulher de César, ao homem público não basta ser honesto, tem que parecer. Ele depende de sua imagem. Tem que ser “um livro aberto”, para usar a expressão do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, e deve ser “o principal interessado no esclarecimento das dúvidas”.
Não teria sido mais correto e menos desgastante apurar as acusações antes de nomeá-lo? Ainda mais que, segundo o senador Pedro Simon, cuja seriedade não se discute, “o governo não pode dizer que foi surpreendido. Sabia das denúncias antes da nomeação”.
Que falta faz o PT! Imagina aqueles outrora militantes da pureza ética diante desse desconforto moral, que ainda por cima não é o único. O que eles achariam, por exemplo, dos expedientes que estão sendo usados para manter no cargo um presidente do Banco Central sob investigação do Ministério Público e da Receita Federal, acusado de crime eleitoral, sonegação fiscal, evasão de divisas, patrimônio indevido e transferências irregulares de recursos para o exterior?
O que não fariam os velhos companheiros petistas ao descobrirem que uma medida provisória fora criada só para conferir ao acusado o status de ministro e assim protegê-lo, reservando-lhe foro privilegiado, idêntico ao de presidente da República? Como reagiriam ao espetáculo de ver o responsável pelo Banco Central na iminência de sofrer o constrangimento de depor em seis comissões do Congresso Nacional, uma das quais com o sugestivo nome de Segurança Pública e Lavagem de Dinheiro? E o que diriam diante da busca de uma solução política para que ele deixe a presidência do BC e se candidate ao governo de Goiás?
Se isso fosse pouco, ainda resta a campanha pela reeleição, mas aí, como se sabe, vale qualquer coisa, até aliança com Quércia e Garotinho. Saudades do velho PT.
O Globo
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