sexta-feira, abril 15, 2005

Luiz Garcia:Obrigado, papai!



O beijo de Cavalcanti filho no cocuruto de Cavalcanti pai, na primeira página do GLOBO de terça-feira, poderia parecer, a quem estava chegando naquela hora, um símbolo comovente. Para edificação da família brasileira nestes tempos de gerações em duro conflito, o carinho mostraria filho grato e pai comovido com o êxito do sangue de seu sangue.

Mas sempre sobra um cínico para usar a imagem do cocuruto osculado como prova de sobrevivência de um problema secular. Afinal, naquele preciso momento o fluido vital do clã começava a correr na Superintendência Federal da Agricultura em Pernambuco. A nomeação, ao que se sabe, fez parte de um armistício: o atendimento da exigência paterna pavimentaria a aproximação entre o presidente da Câmara e o governo federal. Seria o preço pago pelo Planalto por sua espetacular incompetência no esforço para ungir o candidato derrotado por Severino.

Fora o beijo respeitoso, tudo o mais no episódio — a começar pelo fato de que nada foi perguntado aos agricultores pernambucanos — é rotina: assim se preenche a maioria dos cargos de confiança no Brasil. A lei das probabilidades admite a existência de nepotes competentes e honestos, embora a lógica afirme que devem ser raros: quem tem méritos costuma ter também o orgulho de subir na vida por conta própria. É coisa de quem sabe que o currículo conquistado por conta própria vale bem mais que o pedigree .

Deveria ser óbvio: se o apadrinhado tem potencial para chegar à posição que pretende por puro merecimento, por que papai precisaria transformar a nomeação em teste de prestígio pessoal?

O presidente da Câmara insiste que no seu quintal não ocorre nepotismo, porque seus filhos (e o resto da parentada que abrigou em seu gabinete) têm nível educacional para ocupar seus cargos atuais.

Pelo visto, Severino não percebe (ou não lhe interessa perceber) que o nepotismo não é apenas a proteção do incompetente. Pode ser a escolha, por razões indignas de menção, entre dois postulantes de mesmo potencial.

Aparentemente, nem tudo está perdido. Na primeira campanha séria de desarmamento virtual contra o secular pistolão, esta semana a Comissão de Justiça da Câmara aprovou emendas à Constituição proibindo a contratação nos três poderes, e incluindo da União aos municípios, de parentes até o segundo grau. Parece o bastante, mas é pouco. Ainda não se descobriu (embora esteja sendo procurada) forma de inibir o troca-troca — eu nomeio o seu, você nomeia o meu, sistema vagamente obsceno — e a oficialização da moralidade vai demorar: depende de uma comissão especial, que se manifestará depois de 40 sessões.

O professor Pangloss diria que é tempo suficiente e necessário para o estabelecimento de normas éticas inabaláveis. Mas vocês conhecem o Pangloss.
Jornal O Globo

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