sexta-feira, março 20, 2015

José Paulo Kupfer A batalha do ‘grau de investimento’

o globo

Depois das manifestações contra o governo, ficou ainda mais complicado cumprir a meta fiscal prometida e garantir o aval das classificadoras de risco

É inevitável, pelo menos para os que acompanham há mais tempo as atribulações da economia brasileira, a associação das atuais visitas de analistas das grandes agências globais de classificação de riscos a autoridades econômicas com as passagens de missões do FMI pelos mesmos gabinetes, em tempos nem tão longínquos assim. A economia internacional mudou muito, nessa década e meia que separa os dois momentos, e a economia brasileira mudou ainda mais. Mas, como se vê pelo minueto agora dançado em Brasília, as desconfianças dos estrangeiros e os esforços nativos para agradar-lhes estão de volta.
Há, é claro, diferenças entre umas e outras — e estas não se restringem aos sóbrios terninhos e a pasta preta da chilena Ana Maria Jul, ou aos vestidos estampados de motivos florais berrantes da italiana Teresa Ter-Minassian, que chefiaram célebres missões do FMI, destinadas a arrancar das autoridades brasileiras severos e nunca cumpridos ajustes fiscais, em contraste com a invisibilidade das equipes das classificadoras de risco. A maior dessas diferenças reside no fato de que o Brasil, antes devedor contumaz, ostenta hoje posição de credor internacional.
No fundo, porém, as questões colocadas nas mesas de negociação são praticamente as mesmas. Se antes o que se discutia era um programa de ajuste que permitisse ao FMI sancionar empréstimos ao Brasil, hoje o que está em debate é se as metas do ajuste proposto pelo governo brasileiro serão efetivamente cumpridas, a ponto de permitir que as classificadoras de risco avalizem a segurança dos investimentos destinados à economia brasileira.
É fácil entender por que o aval das classificadoras de risco ganhou lugar de destaque na estratégia oficial de recuperação da confiança na eficácia da política econômica. Num mundo em que mercados operam com base em expectativas, antecipando fatos suscetíveis de confirmação posterior, a batalha do reequilíbrio da economia brasileira passa pela manutenção da classificação de “grau de investimento” para a nota dos títulos da dívida pública. Sem esse aval, muitos pressupõem dificuldades ainda maiores do que as já previstas para captar recursos no mercado internacional e fechar as contas externas.
Parte dos excessos altistas nas cotações do dólar, é verdade, corresponde à precificação de um fato — a perda do “grau de investimento” — que, sem dúvida, pode ocorrer, mas ainda não passa de hipótese, assim como não passa de hipótese a sucessão de consequências negativas previstas, caso a perda do “grau de investimento” se confirme. Os exageros atualmente observados nas taxas de câmbio nada mais são do que reflexo desse tipo de suposição.
Para evitar a perda do “grau de investimento”, o governo tem de convencer as classificadoras de que o ajuste fiscal prometido será cumprido e, com isso, a relação dívida pública/PIB permaneceria pelo menos estabilizada. Essa já não era uma tarefa das mais fáceis antes mesmo das manifestações de domingo contra o governo da presidente Dilma Rousseff. Projeções atualizadas indicam a obtenção, em 2015, de superávit fiscal primário de 0,7% do PIB a 0,9% do PIB ante uma meta de 1,2% do PIB (que, na verdade, corresponde a 1,8% do PIB, em vista do déficit de 0,6% do PIB, em 2014).
Depois da enorme onda de protesto que se espalhou pelo país, com epicentro em São Paulo, a coisa ficou ainda mais complicada. O tipo de ajuste fiscal possível, que combina corte de benefícios sociais e aumento de carga tributária, exige não só uma afinação que Executivo e Legislativo estão muito longe de oferecer, mas também um governo com índices de popularidade que a presidente Dilma, com seus historicamente baixos 13% de aprovação, não pode, no momento, nem sonhar em dispor.
José Paulo Kupfer é jornalista
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Causas e defeitos Nelson Motta

O Globo

De que adianta que eles não roubem, se dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?

Deu até pena ver o ministro Miguel Rossetto, abatido e amarfanhado, na coletiva pós-manifestações, dizendo que as multidões que foram para as ruas não eram de eleitores de Dilma. Perguntar não ofende: os 62% que agora julgam o governo Dilma ruim ou péssimo são eleitores de Aécio? São 125 milhões de golpistas? Ou querem um “terceiro turno”?
Zé Dirceu diz que o lucro mensal de sua empresa, que faturou 29 milhões em oito anos, foi de míseros 65 mil reais, em média, e que 85% do faturamento foram gastos com o “pagamento de despesas operacionais e recolhimento de impostos”. Quanto o guerreiro doou ao PT? Quantos trabalhadores petistas, que lhe deram dinheiro para pagar a sua multa de 971 mil reais no mensalão, ele fez de otários?
Sibá Machado, líder do PT na Câmara, denuncia que a CIA está por trás de tudo de ruim que está acontecendo no país, que há um plano para desestabilizar a Venezuela, a Argentina e o Brasil. Mas quem tem Maduro, Cristina e Dilma (e Sibá) precisa de algum plano externo para arrasar seus países?
Um eventual impeachment só pioraria as coisas, dividindo ainda mais o Brasil, como Lula queria, quando achava que estava em vantagem. Não quero ver Dilma sangrando, quero que ela coma, se fortaleça e reaja, reconhecendo seus erros e chamando pessoas competentes e honestas, acima de partidos, para ajudá-la a sair da lama e do caos. O problema não é só a corrupção, como provam os estragos do economista marxista Arno Augustin, ícone dilmista da incompetência máxima. De que adianta não roubar, se eles dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?
Quantas vezes o Brasil o viu num palanque gritando “é nóis contra eles”? Quem estimulou mais do que ele o clima de confronto e intolerância? Quem dividiu o país entre povo e elites? Quem jurou que o mensalão nunca existiu? Quem era o beneficiário final do esquemão da Petrobras? Quem inventou Dilma?
Triplicar a já colossal verba do fundo partidário é uma bofetada em cada um que contribui com seu trabalho para sustentar partidos e políticos capazes de propor uma coisa dessas, numa hora dessas. Até quando?
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quinta-feira, março 19, 2015

"Dilma pode terceirizar o governo. Não a Lava-Jato", por Carlos Alberto Sardenberg

Rota 2014 - Blog do José Tomaz: "Dilma pode terceirizar o governo. Não a Lava-Jato", por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Quando o ministro do Trabalho considera boa a notícia do fechamento de 2,4 mil empregos com carteira, não precisa dizer mais nada. Mas ele ainda disse que a crise não é extrema como se fala por aí.


Não é extrema porque o país não vai acabar, claro, mas, para o governo e para a presidente Dilma, é uma situação quase sem saída.


As 2,4 mil vagas foram fechadas em fevereiro, número assim qualificado:


— O resultado é bem pior do que esperavam os analistas;


— É muito pior do que fevereiro do ano passado, quando foram criados 260 mil postos;

— Em todo o ano passado, foram criados quase 400 mil empregos com carteira;


— Nos 12 meses encerrados em fevereiro último, foram fechadas 47 mil vagas;


— A região com o maior fechamento de vagas em fevereiro foi o Nordeste, com perda de 27,5 mil.


O Datafolha divulgado ontem informa que cresceu expressivamente o medo de perder o emprego. Diz ainda que apenas 16% dos eleitores nordestinos aprovam o governo Dilma.


Juntando as coisas: a geração de emprego era a única coisa positiva que resistia até o ano passado. Cada vez mais fraca, mas ainda positiva. O Nordeste foi onde a presidente obteve seu melhor resultado na eleição de outubro. Ou seja, o governo e a presidente estão perdendo seus maiores trunfos.


Como uma notícia dessa pode ser boa? Só tem um jeito: o ministro devia estar esperando coisa pior.


Ou acha, como parece achar todo o governo, a julgar pelas primeiras reações pós-manifestações, que dá para virar o jogo no grito, quer dizer, na comunicação.


Mesmo nesse departamento, contudo, o governo começou mal. Anunciar com toda a pompa, incluindo Hino Nacional para uma plateia de autoridades convocadas, um velho e requentado pacote de medidas anticorrupção, no dia mesmo em que se revelava a conexão Petrobras-Vaccari, só serve para estimular mais panelaços.


E como ficamos?


No nosso regime, o presidente não cai assim tão fácil. A Constituição coloca restrições ao impeachment para preservar a estabilidade a longo prazo. Mas os governos caem — ministros, líderes parlamentares e porta-vozes podem ser substituídos para dar uma nova direção à gestão. Ainda que indecisa e contrariada, parece que a presidente vai por aí. Já há ministros caindo.


E para quem ela pode terceirizar o governo? O pessoal do PMDB, do lado político e administrativo, Joaquim Levy do lado da economia.


Não deve ser por acaso que as modificações no programa de ajuste estão sendo negocias por Levy com os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha.


A política econômica é, no essencial, correta. Na verdade, a única saída para o momento. 


Mas é um ajuste, um arrocho — ou seja, as coisas vão piorar antes de melhorar, com mais inflação e mais desemprego, os dois piores fantasmas a assombrar a vida das famílias. E das famílias das classes médias, incluindo a nova, eleitora preferencial de Dilma. De todo modo, ganhando-se tempo, a política econômica se acomoda.


Na política propriamente dita, parece claro que Michel Temer, Calheiros e Cunha, com o pessoal do velho PMDB, são muito mais competentes que a presidente e sua turma.


A variável que ameaça essa construção é menos a deterioração das condições econômicas, um processo lento, e mais a Lava-Jato. Na sua décima fase — a "Que país é este?" — atingiu pesadamente o PT e se aproximou mais do núcleo dirigente. E já está bem perto de políticos do PMDB, justamente os encarregados de refazer o governo.


Também não custa lembrar que, na mesma pesquisa Datafolha de ontem, apenas 9% dos entrevistados fizeram avaliação positiva dos deputados e senadores. E 50% os consideraram ruins e/ou péssimos.


No positivo, perderam para Dilma, que fez 13%. No negativo, ganharam dos 62% de ruim/péssimo da presidente. No agregado, um empate muito feio.


A DELAÇÃO QUE FALTA?


À medida que avançam as investigações, o valor das delações vai declinando. Claro, os promotores e o juiz Moro já sabem muito do que o pessoal pode contar.


Mas ainda faltam peças importantes, especialmente fatos concretos, como número de contas, extratos de transações, datas de reuniões e movimentações financeiras, identificação dos verdadeiros donos de contas no exterior.


E falta também, segundo fontes próximas ao processo, uma especial delação, a de Ricardo Pessoa, da UTC. E não é nem para falar do cartel das empreiteiras, mas de doações que teriam sido feitas para o tesoureiro da última campanha da presidente Dilma.


A presidente sempre pode trocar ministros e políticos, mas se aquela for mesmo a última delação, como a presidente poderá fazer com ela mesmo?





quarta-feira, março 18, 2015

Dilma olha para frente ao apoiar ajuste na economia - Jornal O Globo

Dilma olha para frente ao apoiar ajuste na economia - Jornal O Globo

Dilma olha para frente ao apoiar ajuste na economia

Ainda que não chegue a admitir que parte considerável do que o Brasil hoje enfrenta na esfera econômica se deva a políticas equivocadas adotadas por ela própria em seu primeiro mandato, a presidente Dilma passou a fazer um discurso em favor do ajuste fiscal e da correção de rumos em outras áreas, o que é importante para que tal mudança venha a obter êxito. O ajuste já está em curso, com cortes de gastos de custeio, aumento de tributos e até de medidas de caráter estrutural (no caso da previdência social), com efeito mais a médio e longo prazos.
A reconhecida competência e a credibilidade do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e de sua equipe não eram vistas pelos mercados como suficientes para assegurar a execução do ajuste, pois a presidente Dilma não parecia completamente convencida da necessidade dessa mudança. No entanto, agora a presidente vem a público defender com ênfase a política da sua nova equipe econômica, reconhecendo que o país não reagiu ao que anteriormente fora posto em prática. Numa autocrítica modesta, porém inédita, Dilma falou em erros de dosagem, esgotamento da capacidade das medidas anticíclicas, etc. Ao menos isso afasta o receio dos mercados de que haja um retrocesso no ajuste, pois a presidente agora até recorre aos argumentos que associam esse caminho à chance de uma reação mais rápida da economia.
Sem o engajamento pessoal da presidente nesse processo certamente seria mais difícil para o governo arregimentar o apoio político indispensável para que o ajuste prossiga, já que várias decisões tomadas precisam do endosso do Congresso Nacional. Como resposta às grandes manifestações de domingo último, a presidente se disse aberta ao diálogo. De fato, se, no seu primeiro mandato, estivesse com essa disposição, ouvindo mais as críticas, muitos dos equívocos poderiam ter sido evitados. A Petrobras talvez não chegasse a uma situação financeira tão constrangedora, o setor elétrico teria se preparado mais para enfrentar as consequências negativas da crise hídrica, a indústria como um todo estaria mais fortalecida para enfrentar a competição, e nem se adotaria uma política monetária mais restritiva para enfrentar a pressão inflacionária represada artificialmente pelo governo.
Ao justificar os equívocos cometidos, a presidente afirma que evitou a quebradeira de empresas e a eliminação de milhões de empregos, como aconteceu em outras economias afetadas pela crise internacional. Paciência. Talvez seja querer muito que a presidente venha a admitir que seu segundo mandato está corrigindo problemas herdados do primeiro. O mais importante é que Dilma passou a olhar para frente com uma visão distinta, apoiando o que precisa ser feito. Para o bem do país e não apenas do seu governo.


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A hora do cidadão comum - Roberto Damatta

A hora do cidadão comum - Cultura - Geral - Estadão Mobile

A hora do cidadão comum

Roberto Damatta - O Estado de S.Paulo

Passei a semana acompanhando a CPI da Petrobrás, lendo os jornais mais importantes do Brasil e seguindo pessoalmente as manifestações. Não fui ao Rio, mas fiquei numa Niterói ilhada por obras que, espero, venham a melhorar a minha vida: a vida de um homem comum que durante décadas tem trabalhado no Rio e em todo lugar. Sujeito que subiu em ônibus, tomou barca, lotação e foi do tempo do andar ao de bicicleta e a pé.

Dizer que há uma guerra entre ricos e pobres ou afirmar, como fazem os áulicos da presidenta Dilma, que "o contra" é mais motivador do que o "a favor", é ficar no mais imbecil dos sofismas.

Pois quem é a favor é contra e quem é contra é a favor. De alguém, de alguma causa ou coisa. No caso: o povo manifestou-se contra um governo paralisado por sua mendacidade, mas a favor da punição dos ladrões do mais pornográfico sistema de corrupção jamais montado no Brasil. Um sistema que vem do centro do poder e chega à periferia da sociedade. É claro que as pessoas estão contra o governo Dilma, mas estão a favor daquilo que move todo povo trivial e idiota: a honestidade, a dor de consciência, a vergonha de testemunhar o furto daquilo que faria o progresso e o bem-estar de um Brasil que eles não acham que é atraso ou babaquice amar.

Do mesmo modo, todo rico tem quem seja mais rico e todo pobre conhece alguém mais pobre. Trata-se de uma oposição segmentar como diziam os antigos sociólogos ou, como dizem os mais jovens, é um fractal. Como acontece com a oposição entre a casa e a rua na sociedade e, na política, entre direita e esquerda. Não é preciso pensar muito para descobrir que a casa tem uma rua (e vice-versa) e que cada direita tem a sua esquerda. Ou o velho Trotsky não foi assassinado? Quem o matou foi a direita ou a esquerda do stalinismo?

Quando eu fiz uma pesquisa num bairro periférico de São Paulo com pessoas que se definiam como "pobres", fiquei parvo ao descobrir que todos, rigorosamente todos, se diziam pobres. Assim como os chamados porta-vozes de Dilma que dizem querer um "diálogo" que termine por calar a nossa boca: a boca que foi calada por tanto tempo do cidadão comum. O tal povo que neste movimento histórico, sai das asas dos partidos. Seja porque eles são todos falidos, mentirosos, malandros - máquinas de enricar seus membros; seja porque ninguém atura mais os Lulas, as Dilmas, as Gleises, os Cardozos (com z), os Dirceus (o "Capitão do Time"), os seus mensaleiros jogadores, os Mantegas e as Rosemarys com suas pachorras e bebês.

O homem e a mulher comum cansaram de pagar a conta da bomba de hidrogênio que foi o roubo ordenado, calculado, com um óbvio viés político-ideológico-partidário na maior e mais querida empresa do País.

Ouvir o Sergio Gabrielli na CPI foi uma aula e um insulto. Ouvir novamente as reuniões do supremo ou dos outros tribunais não pode mais ser um outro ato de autoflagelação. Ou mais uma aula de douta malandragem. O povo cansou de testemunhar que o crime compensa quando o roubo é feito por agentes públicos graduados, eleitos para redimir e não sacanear o Brasil. Pois cada oitiva não termina numa lição de justiça, mas numa pedagogia de corrupção. Numa demonstração dos dotes necessários para bem roubar o Brasil: ter cara de pau, cinismo, frieza, ousadia, ausência absoluta de espírito público, de patriotismo e, acima de tudo, de gosto pela malandragem que não dá em nada!

O outro aprendizado tenebroso é o seguinte: para roubar nesta escala e com tanta legitimidade, é preciso ser governo. Quem rouba não é o partido, nem as empresas, nem o papel de deputado, governador, prefeito, senador ou presidente. Quem rouba é a urdidura partidária relacional que mete na cabeça uma utopia ou um ideal revolucionário, o qual vai tirar a sociedade de sua miséria de pessoas comuns que trabalham, casam e fazem filhos misturados, que comem arroz com feijão e adoram carne-seca, samba e cerveja. Aceita a ideologia e implementado o partido como governo, começa a ação de "cuidar" ou revolucionar a sociedade. E já que não se pode acabar com o marcado e a eleição, por que não comprá-los?

A nobreza das utopias - alimentar os famintos, vestir os nus, dar abrigo aos sem-teto - são as palavras mágicas dessa cosmologia política pervertida segundo a qual o governo, sabendo tudo e tudo possuindo, sabe mais e melhor do que a sociedade.

Mas eis que, depois de uma década no poder, nada disso ocorre, exceto a utopia de enricar sem fazer nada - apenas governando e politicando: vendo onde, quando e quanto se pode tirar sem dolo, culpa ou remorso, porque o dinheiro era do lucro e o lucro, como na Idade Média, é roubo e pecado. E quem rouba o ladrão tem mil anos de perdão...

Assustam, neste glorioso 15 de março, essas manifestações não encarnadas pelo falso vermelho, e marcadas pelo verde e amarelo. O verde esperança e o ouro sem mácula que pinta o coração de milhares de brasileiros. Esses cidadãos comuns. Essa gente miúda. Esse povinho sem ideologia ou utopia, mas com a moralidade, apesar de tudo, intacta!





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‘Ou as ruas nos engolem’ - Zuenir VenturaJornal O Globo

'Ou as ruas nos engolem' - Jornal O Globo

'Ou as ruas nos engolem'

Desta vez não se ouviu a alegação do Planalto e arredores de que as manifestações que reuniram no domingo cerca de dois milhões de pessoas em todo o país foram obra da "elite branca", da "mídia golpista" ou dos "ricos", talvez porque se saiba que estes não são tantos assim (a ridícula hipótese da ação da CIA, levantada pelo líder do PT na Câmara, Sibá Machado, não foi levada a sério por ninguém). Também não se questionou a precisão dos números, se foram exatos um milhão ou 250 mil manifestantes em São Paulo, 50 mil em Brasília ou 25 mil no Rio. Mais importante do que a quantidade, foi o bom comportamento da maioria dos participantes. Em suma, não se tentou tapar o sol com a peneira. Ao contrário de desqualificar o movimento, como se tentou fazer antes, preventivamente, nas redes sociais, o dia seguinte foi de elogios aos protestos, por parte de ministros e da própria presidente. Tanto que o efeito mais imediato da jornada de 15 de março foi de natureza vocabular: a rápida inclusão do termo "humildade" no discurso oficial, passando a ser usado até por Dilma, com quem combina tanto quanto uma sandália franciscana. A presidente não só saiu do seu retiro silencioso para conversar com os jornalistas, como se esforçou para demonstrar descontração e bom humor. Só uma vez usou aquele "minha querida", cujo tom em geral quer dizer o contrário e faz a repórter tremer.

Dilma pós-manifestações parecia em campanha. Prometeu diálogo, admitiu a possibilidade de "algum erro de dosagem" na economia e falou bem de atos que, afinal, foram de repúdio a ela, ao PT, ao escândalo da Petrobras, à crise econômica, ao aumento do custo de vida, às deficiências na saúde e na educação. Enfim, repúdio a seu governo como um todo. Não era com ela. A questão é que as ruas não querem mais discursos e lero-lero, como ficou demonstrado depois da passeata dos indignados, quando o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o secretário-geral da Presidência, Miguel Rossetto, tentaram apaziguar a massa com a apresentação de velhas e superadas propostas. Enquanto falavam, a resposta foi o panelaço em bairros de várias cidades. Quem percebeu o perigo do engodo foi o líder do governo na Câmara dos Deputados, o petista José Guimarães, que, com muita propriedade chamou a atenção de seus companheiros de partido e da Presidência, advertindo: "As ruas mostraram que querem mudança. Ou fazemos ou as ruas nos engolem".

Ele tem razão. As promessas deram certo para eleger Dilma, mas dificilmente serão suficientes para ela governar. A paciência da plateia está acabando, se é que já não acabou.



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terça-feira, março 17, 2015

Fernando Henrique diz que ‘não é crível’ que Lula e Dilma não soubessem de esquema na Petrobras

http://oglobo.globo.com/brasil/fernando-henrique-diz-que-nao-crivel-que-lula-dilma-nao-soubessem-de-esquema-na-petrobras-15620686





Na ativa. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso destacou a sua produção acadêmica após deixa a presidência - Leonardo Soares / Leonardo Soares
RIO - Em entrevista ao jornal Valor Econômico, publicada nesta terça-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou não acreditar que Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff estivessem alheios ao esquema de corrupção formado na Petrobras. “Em português claro: não é crível que o que aconteceu na Petrobras fosse desconhecido por quem estivesse no poder, seja Lula seja Dilma. Não digo que estejam involucrados no assunto, mas não é crível que estivessem alheios”, apontou ao jornal.
Quando perguntado sobre a delação do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, que disse ter começado a receber propina em 1997, o ex-presidente respondeu não temer a apuração do que foi dito. “Li todos os depoimentos do Barusco. Foi um ato individual dele. A institucionalização veio depois de 2004. Ele foi claro. Não existe isso, mas não tenho nenhum medo que se apure. Não tenho nada a ver com isso”, assegurou.
Para FH, o sentimento popular é de indignação em relação à corrupção "bem incrustada no Estado''. O ex-presidente também destacou que o governo precisa reconhecer que errou e que não pode fugir das responsabilidades:
“O governo pode vir a recuperar a iniciativa, mas não vai recuperar com ministro enrolando na televisão. A resposta da reforma política não é crível. A saída é ir mais fundo nas investigações e reconhecer: erramos. Quantas vezes não disse que errei por não ter ajustado o câmbio antes de 1998? Tinha mil razões para dizer porque não ajustei, mas não importa. Não se pode fugir da responsabilidade histórica.”
Outro assunto levantado durante a entrevista foram as manifestações de domingo, quando também houve panelaço. Na opinião de FH, os últimos protestos são diferentes dos realizados em 2013. “Em junho de 2013, você tinha uma multiplicidade de objetivos, um mal-estar generalizado. Agora esse mal-estar se transformou em indignação contra quem representa o poder, que é Dilma. Politizou mais”, disse o ex-presidente, que também analisou o protesto com panelas: “É uma coisa curiosa. Não é o governo que está surdo para a sociedade. É a sociedade que está surda para o governo. É grave isso”.
O ex-presidente também comentou a ausência de lideranças do PSDB em carros de som nas ruas: “Não estamos na posição de cavalgar em um movimento que é mais amplo que o partido. O movimento ainda não têm um caminho político claro, nem mesmo obscuro, é apenas uma explosão. A responsabilidade dos partidos é construir esse caminho agora, que passa por ser muito rígido e rigoroso na apuração dos fatos. Evitar qualquer tipo de pizza e marmelada e envolva quem quer que seja.”
Para ele, fugir das responsabilidades é o que tem feito o ex-presidente Lula. Fernando Henrique afirmou que seu sucessor sumiu após convocar o MST e a CUT para as ruas:
“O presidente Lula foi fazer uma declaração absolutamente imprópria, de pedir que os exércitos da CUT e do MST fossem para a rua. Depois ele se cala? Não se sente responsável se depois os ânimos se acirrarem? Ele sumiu e agora só Dilma que é culpada? Só se lê nos jornais que Lula reclamou da Dilma. Que é isso?”
FH também citou o que chamou de desatinos que o governo praticou em áreas como a da política de campeãs nacionais, retenção do preço da gasolina e da política energética. “São responsabilidades de Lula e Dilma e do partido deles que conduziu esse processo. Agora dizem que foi o Guido?”
Sobre se aceitaria um convite da presidente para conversar, o ex-presidente ressaltou que não recusaria, mas que teria que ser em público, pois "não é hora para conchavo'': “Nunca recusei chamado de ninguém para conversar. Nem da Dilma. Agora o momento não é de conchavo. Se a presidente achar que é momento de chamar, deve ser público. Não se pode conversar sem pauta. Não sei se ela tem força convocatória, porque não tem que chamar só a mim. Tem que ampliar. Agora temos que digerir, todos nós, esse processo todo e ver o que vai acontecer nas próximas semanas. Vamos ver se o governo vai pagar o preço de correr mais fundo esse processo de estabelecimento das responsabilidades.”

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/brasil/fernando-henrique-diz-que-nao-crivel-que-lula-dilma-nao-soubessem-de-esquema-na-petrobras-15620686#ixzz3Ugxt5Dgu
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O governo perdeu a bandeira Celso Ming


16 março 2015 |Estadão

No nível do simbólico, o interesse nacional parece, assim, mais defendido pelos manifestantes; a bandeira vermelha sugere ideais de outra natureza

Na atual safra de manifestações, o governo perdeu a bandeira brasileira empunhada nos grandes movimentos políticos, desde as Diretas Já. As cores verde e amarela foram arrebatadas pelas massas de oposição. A presidente Dilma e seu governo ficaram com o vermelho.
No nível do simbólico, o interesse nacional parece, assim, mais defendido pelos manifestantes. A bandeira vermelha sugere ideais de outra natureza. Essa redistribuição de cores pode ter consequência.
Em 2004, o presidente Lula deixou que implantassem a estrela vermelha do PT nos jardins do Palácio da Alvorada. Passou assim a impressão de que tentava apropriar-se, com selo próprio, de um dos edifícios símbolos da República.
Esta foi uma das maiores manifestações da História do Brasil e foi um ato de oposição. E, no entanto, a oposição partidária ficou de fora. Não mostrou identificação com os protestos, talvez porque tivesse entendido que não devesse endossar a tese do impeachment, proposta que acabou não prevalecendo. Os líderes políticos da oposição que compareceram aos atos de protesto ou não discursaram ou foram induzidos ao silêncio. Ou seja, não foi apenas o governo que foi atropelado pela mobilização. A oposição também foi. Ou toma o último vagão do comboio ou ficará definitivamente para trás. É o que tem de escolher agora.
Verde e amarelo, cores da oposição. Crédito da foto: Daniel Teixeira/Estadão
Verde e amarelo, cores da oposição. Crédito da foto: Daniel Teixeira/Estadão
A insistência com que gente do governo tem procurado desclassificar os protestos como coisa da burguesia ou dos derrotados nas eleições indica que o PT tem uma visão equivocada do que sejam as classes médias, as antigas e as recentemente incorporadas ao sistema social. Ainda entendem que a classe condutora da História seja o proletariado, que, no entanto, está em extinção. Em toda parte, o setor produtivo é dominado pelo setor de serviços que, no Brasil, corresponde a cerca de 70% do PIB. Dele fazem parte as atividades de educação, saúde, transportes, turismo, comunicação, finanças, comércio, operação de informática e a maioria das profissões liberais. Importantes segmentos dos funcionários das grandes indústrias, como o pessoal da administração e os trabalhadores qualificados, nada têm a ver com o proletariado tradicional. Dizer que os trabalhadores que atuam nessas áreas têm cabeça de proletário e agem como proletários e que o resto pensa e age como as elites é ignorar como passou a funcionar o mundo.
O governo Dilma se orgulha de ter adotado políticas que adensaram as classes médias brasileiras. Agora vêm esses porta-vozes oficiais com a argumentação de que os insatisfeitos que batem panelas e gritam slogans não passam de pequeno-burgueses massa de manobra das classes dirigentes.
Afirmar, como afirmou o desastrado ministro Miguel Rossetto, que os manifestantes de domingo foram os perdedores das últimas eleições é ignorar que a presidente Dilma não completou seu terceiro mês de governo e já ostenta recordes negativos de aprovação popular.
Como foi dito na Coluna de domingo, essas marchas de protesto ainda estão à procura de um discurso que as unifique e de objetivos carregados com mais consequência do que somente a de produzir desabafos coletivos. Mas também os grandes movimentos políticos começam assim, difusos e confusos. Depois tomam rumo, ou não tomam, para o bem e para o mal.
CONFIRA
BalancaMar2015
Esta foi a evolução da balança comercial brasileira nos últimos 6 meses.
Reversão
Já há sinais de reversão do forte déficit da balança comercial acumulado nos dois primeiros meses do ano (US$ 6,0 bilhões). Nas duas primeiras semanas de março, o déficit foi de apenas US$ 74 milhões e tende a reduzir-se nas próximas semanas. Apenas marginalmente essa redução do déficit tem a ver com a desvalorização do real, de mais de 20% apenas em 2015. Ela se deve mais à intensificação das exportações de produtos agrícolas, especialmente soja.

Arnaldo Jabor A arte de maldizer (*)

Estadão
Malditos sejais, ó mentirosos, negadores, defraudadores, vigaristas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas pútridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente, que vossas mentiras, patranhas, fraudes, lérias e marandubas se transformem em cobras peçonhentas que se enrosquem em vossos pescoços, que entrem por vossos rabos, rabiotes e fundilhos e lá depositem venenosos ovos que vos depauperem em diarreias torrenciais e devastadoras. Que vossas línguas se atrofiem em asquerosos sapos e bichos pustulentos que vos impedirão de beijar vossas amantes, barregãs e micheteiras que vos recebem nos lupanares de Brasília, nos prostíbulos mentais onde viveis, refocilando-se nas delícias da roubalheira.
Malditos sejais, ladrões, gatunos, ratoneiros, trabuqueiros dos dinheiros públicos, dos quais agadanhais, expropriais mais da metade de todos os orçamentos, deixando viadutos no ar, pontes no nada, esgotos a céu aberto e crianças mortas de fome, mortas de tudo.
Que a maldição de todas as pragas do Egito e do Deuteronômio vos impeça de comer os frutos de vossas fazendas escravistas, que não possais degustar o pão de vossos fornos, nem o milho de vossos campos, e que vossas amantes vos traiam e vos contaminem com escabrosas doenças e repugnantes furúnculos!
Malditos sejais, homúnculos dedicados a se infiltrar nas brechas, nas breubas do Estado para malversar, rapinar, larapiar desde pequenas gorjetas embolsadas, até essa doença nacional chamada petróleo, onde vos repastais no revezamento sinistro de negociarrões com empresas fantasmas em terrenos baldios, até a rapinagem dos mínimos picuás dos miseráveis.
Malditas sejam as caras de pau dos ladravazes, com seus ascorosos sorrisos, imunda honradez ostentada, gélido cinismo, baseado na crapulosa legislação que vos protege há quatro séculos, por compradiços juízes, repulsivos desembargadores, fariseus que vendilham sentenças por interesses políticos, ocultados por intrincados circunlóquios jurídicos, solenes lero-leros para compadrios e favores aos poderosos! Que vossas togas se virem em abutres famintos que vos devorem o fígado, acelerando vossas mortes que virão pela ridícula sisudez esclerosada com que justificais liminares e chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca do boi de nossas prisões!
Malditos sejais, burocratas, sicofantas, enfiados na máquina pública, emperrando-a e sugando migalhas do Estado com voracidade e gula! Tomara que sejais devorados pelos carunchos que rastejam nos processos empoeirados da burocracia que impede o País de andar! Que a poeira dos arquivos mortos vos sufoque e envenene como o trigo roxo dos ratos!
Malditas sejam também as "consciências virginais", as mentes "puras"; malditos os alienados e covardes, malditos os limpos, os não culpados, os indiferentes, que se acham superiores aos que sofrem e pecam; malditos intelectuais silenciosos que ficam agarrados em seus dogmas, que se "escandalizam" com os horrores, mas nada fazem, diante dos erros óbvios que clamam por condenações. Maldito aquele que culpou os "brancos de olhos azuis" pela crise econômica mundial. Malditos os que só pensam em dividir os brasileiros entre "nós" e "eles". Maldita seja a técnica de vitimização que funciona bem para ditadores que se dizem sempre 'defensores do povo' - suas vítimas. Malditos os que condenam o passado, se eles são o passado.
Malditos os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os loucos e os burros. Uns bebem e falam em revolução; outros alucinam e os terceiros zurram.
Maldita seja também a indiferença narcisista do déspota sindicalista que renegou a herança bendita que recebeu e que se esconde nas crises para voltar um dia como pai da pátria. Que gordos carrapatos infectem sua barba de estadista deslumbrado.
Malditos também os que desejam trazer de volta a irresponsabilidade fiscal, malditos anjos da cara suja, malditos os que inventaram as gorjetas de milhões, malditos espertos fugitivos da cassação, anatematizados e desgraçados sejam os que levam dólares na cueca e, mais que eles, os que levam dólares às Bahamas, malditos os que usam o "amor ao povo" para justificar suas ambições fracassadas, malditos bolchevistas que agora são arroz de festa de intelectuais mal informados; malditos sejam, pois neles há o desejo de fazer regredir o Brasil para o velho Atraso pustulento, em nome de suas ideologias infantis!
Se eles prevalecerem, voltará o dragão da Inflação, com sete cabeças e dez chifres e sete coroas em cada cabeça e a prostituta do Atraso virá montada nele, berrando todas as blasfêmias, vestida de vermelho, segurando uma taça cheia de abominações. E ela, a besta do Atraso, estará bêbada com o sangue dos pobres e em sua testa estará escrito: "Mãe de todas as meretrizes e Mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país".
Só nos resta isso: maldizer.
Portanto: que a peste negra vos devore a alma, políticos canalhas, que vossos cabelos com brilhantina vos cubram de uma gosma repulsiva, que vossas gravatas bregas vos enforquem, que os arcanjos vingadores vos exterminem para sempre!
(*) Não pude escrever o artigo da semana por doença (nada grave, inimigos meus), mas me lembrei de outro texto da época do "mensalão" e achei por bem republicá-lo, pois cabe perfeitamente nestes tempos de "petrolão".

Presidente sitiada - Rodrigo Constantino Jornal O Globo

Presidente sitiada - Jornal O Globo

Superou todas as expectativas: cerca de dois milhões de brasileiros foram às ruas em várias cidades do país para protestar contra o governo Dilma e o PT. São Paulo liderou, com metade deste montante. Em todo lugar, foi um ambiente de muita revolta e indignação, mas pacífico e familiar. Em Copacabana, levei minha filha e vi várias crianças e adolescentes. Os mascarados infiltrados não tiveram vez.

O contraste fica evidente: na sexta-feira 13, pelegos da CUT e "soldados" do "exército de Stédile" colocaram alguns gatos pingados nas ruas, a maioria em troca de mortadela e R$ 35. Havia ali até imigrantes que nem falam português. Foram apenas pelo dinheiro. Um "protesto" chapa-branca esquizofrênico, contra o governo, mas a favor de Dilma.

O PT perdeu o controle das ruas, não tem mais o monopólio da mobilização das massas. Fala em nome dos trabalhadores, mas os esfola com a inflação elevada e os impostos crescentes. Precisa pagar para reunir algumas pessoas em defesa da presidente, e faz isso em dia de semana, pois os "trabalhadores" ali presentes não trabalham: querem somente esmolas estatais.

Já no domingo os verdadeiros trabalhadores trocaram o dia de descanso pelo dever cívico de se manifestar contra um governo mentiroso, incompetente e corrupto. Sem organização partidária, foi um protesto totalmente espontâneo da parcela da população que não aguenta mais tanta roubalheira e cinismo. Essas pessoas querem um país melhor, desejam resgatar o direito de sonhar com o futuro, manter a esperança usurpada pelo governo.

A reação do PT e de seus militantes virtuais foi a pior possível, o que só joga mais lenha na fogueira. Primeiro, acusaram os manifestantes de "golpistas da elite", como se fosse algum golpe gritar "fora Dilma" nas ruas, e como se fosse apenas a elite por trás dessa manifestação. Mesmo o impeachment, que era parte da agenda de alguns manifestantes, é um instrumento constitucional que foi usado contra Collor pelos próprios petistas. E naquele tempo não era "golpismo".

Depois, quando viram o tamanho da coisa, resolveram repetir que só tinha eleitor do Aécio nas ruas, e que o governo Dilma é muito democrático e tolerante. Dilma escalou dois ministros para dar seu recado, mas o tiro saiu pela culatra. Cardozo, ministro da Justiça, insistiu na abertura ao diálogo do governo, o que todos sabem ser um mito. E ainda posou de grande defensor da democracia, um sujeito que já palestrou no Foro de São Paulo a favor de Cuba e Venezuela. É como Suzane von Richthofen enaltecendo o amor aos pais!

Para piorar a situação, Cardozo puxou da cartola a "reforma política", que o PT tem tratado como panaceia para o problema da corrupção. Repetiu a importância de se adotar o financiamento público de campanha, como se a culpa do petrolão fosse das empreiteiras apenas, e não dos corruptos do PT. Não cola. Essa não era a pauta das manifestações. A voz das ruas não pede reforma política; deseja mudança de governo!

Enquanto os ministros defendiam o governo Dilma, novo "panelaço" ecoou pelo país. O governo continua negando a realidade, tratando os brasileiros como uma cambada de idiotas. Dilma sequer teve a coragem de falar diretamente com a população. A presidente já não pode circular pelas ruas do Brasil, pois sabe que será alvo de vaias. Agora não consegue nem se dirigir aos telespectadores pela TV. É uma presidente acuada, sitiada. E ainda faltam 45 meses de segundo mandato!

O que vai ser daqui para frente ninguém sabe ao certo. A situação de Dilma parece insustentável. O escancarado estelionato eleitoral em curso retirou qualquer legitimidade da presidente. A tentativa de jogar a culpa sempre para ombros alheios e a incapacidade de admitir erros fizeram de Dilma uma governante fraca, pois uma estadista jamais agiria assim. O PMDB, da base aliada, está cada vez mais afastado e rebelde. A governabilidade não existe mais.

O PT definha, em pânico. Lula, o responsável por isso tudo, ainda vai conseguir destruir o partido que ajudou a criar. Os brasileiros que têm olhos para enxergar já sabem que o único projeto do lulopetismo é se agarrar ao poder para sempre. Inspiram-se nos chavistas. Nunca ligaram para os pobres. Gostam mesmo é da pobreza e da ignorância, pois garantem um mercado cativo para seu populismo.

O Brasil vive uma subversão de valores. Banalizaram e institucionalizaram a corrupção. A ética foi jogada no lixo. Lula achou que era possível comprar todos. Não é. Está chegando a hora do acerto de contas com quem se recusou a se vender por migalhas estatais...

Rodrigo Constantino é economista e presidente do Instituto Liberal




Cadeia de comando - José Casado

Cadeia de comando - Jornal O Globo

O Globo

Depois de amanhã, completam-se cinco anos da saída de Dilma Rousseff da presidência do Conselho de Administração da Petrobras. No governo e no Partido dos Trabalhadores, há advogados contando os minutos que faltam para essa data aniversária.

Motivo: entendem o fim do quinquênio como o prazo máximo definido na legislação doméstica sobre sociedades anônimas para eventual contestação judicial às decisões da atual presidente da República.

Dilma passou sete anos (2003 a 2010) no conselho administrativo. Saiu para se candidatar à Presidência da República, na sucessão de Lula.

Enquanto esteve por lá, possuía pleno acesso às informações e um poder realmente decisivo sobre os principais investimentos da empresa estatal.

Alguns dos negócios realizados nesse período encontram-se sob investigação, dentro e fora do país. É o caso da compra da refinaria de Pasadena (Texas), da construção de polos petroquímicos em Pernambuco e no Rio de Janeiro, da encomenda e aluguel de navios, plataformas marítimas e sondas de perfuração.

Na interpretação dos defensores da presidente, a quinta-feira 19 é uma data relevante: nesse dia prescreve o período de tempo concedido na legislação nacional para atribuição de responsabilidade à ex-conselheira.

Um ano depois, o inquérito sobre corrupção na estatal de petróleo desdobra-se em ações envolvendo mais de 80 pessoas e 415 empresas privadas — a maioria de papel, criada para lavar o dinheiro de subornos.

Reconhecida como vítima, a Petrobras oficialmente não está sob investigação. No entanto, cinco dos seus ex-dirigentes enfrentam acusações: os antigos diretores Paulo Roberto Costa (Abastecimento), Nestor Cerveró e Jorge Zelada (Internacional), Renato Duque (Serviços, que voltou a ser preso ontem) e o seu ex-gerente Pedro Barusco. Formaram metade da diretoria de José Sergio Gabrielli, que entre 2005 e 2012 presidiu a empresa.

Na semana passada Gabrielli tentou se esquivar da responsabilidade: "[Essas diretorias] Não têm atividades operacionais relacionadas com a presidência", ele disse na CPI da Câmara.

O homem que durante sete anos comandou a Petrobras, em algumas ocasiões exibindo a estrela do PT na lapela no paletó, optou por se recolher a um papel similar ao de mordomo, sem poder sobre os negócios da companhia que dirigia.

O argumento é pífio, porque irreal, como pode vir a ser demonstrado pelo avanço da investigação sobre a cadeia de comando nos negócios da Petrobras.

Sobram indícios sobre o processo de decisões tanto nas sindicâncias internas da estatal, estranhamente mantidas sob sigilo, quanto nos inquéritos públicos da Justiça Federal. Subordinados de Gabrielli já confirmaram à polícia a atuação em nome da Petrobras em acordos com fornecedores para aumento de custos contratuais nos empreendimentos da estatal.

Assim, o papel da diretoria de Gabrielli equivaleria ao de motor do "cartel" de fornecedores? Ou a "banda podre" da diretoria institucionalizou um modelo de negócios baseado em corrupção? Em qualquer hipótese, sua gestão teria sido, no mínimo, temerária.




terça-feira, março 10, 2015

Plano inclinado - Rubens Barboss O Globo

Plano inclinado - Jornal O Globo

Plano inclinado

A Política Nacional de Participação Social, recentemente criada, é uma das medidas mais ousadas adotadas pelo PT em todo o seu governo. A nova legislação tem como objetivo fortalecer a atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil, definida como "o cidadão, os coletivos, os movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações".

A medida legal determina que os ministérios, autarquias, empresas estatais e até agências reguladoras devem considerar as diretrizes da política de participação social na formulação, na execução, no monitoramento e na avaliação de programas e políticas públicas. Foram criados conselhos e comissões de políticas públicas, conferências nacionais, ouvidorias, mesas de diálogo, audiências e consulta públicas e ambiente virtual de participação social. Os conselhos de políticas públicas têm competência para "participar no processo decisório e na gestão de políticas públicas"; a conferência nacional "pode interferir na formulação e na avaliação" dessas políticas.

A Secretaria-Geral da Presidência presidirá um novo órgão da administração, a mesa de monitoramento das demandas sociais, responsável pela coordenação e encaminhamento de pautas dos movimentos sociais e pelo monitoramento de suas respostas. Essa competência parece chocar-se com a disposição constitucional que dá atribuição exclusiva aos ministros de Estado para coordenar os demais órgãos e entidades da administração pública federal em sua área de competência.

A Constituição prescreve que a soberania popular se exerce pelo voto, com igual valor para todos. O controle partidário dos movimentos sociais fará com que as plataformas políticas do partido sejam necessariamente examinadas por todos os ministérios e entes públicos, com profundas repercussões na vida diária das empresas e dos cidadãos.

O Legislativo, que, segundo a constituição, tem a atribuição de exercer o acompanhamento e a fiscalização dos atos do Executivo, terá de competir com os movimentos sociais, visto que, na realidade, estará sendo substituído por um poder paralelo com funções mais amplas.

Ninguém pode ser contra audiências e consultas públicas, como vem ocorrendo no âmbito do Congresso, com ampla participação da sociedade civil. A grande novidade é a possibilidade de interferência dos movimentos sociais na formulação e no processo decisório de políticas públicas.

O assembleísmo deverá tornar o país muito mais burocrático do que já é. Questionam-se as motivações do governo. O uso da expressão mesa de negociação, inexistente em português, mas corrente nos países bolivarianos, pode dar uma pista...

Não conheço país algum onde os movimentos sociais participam das decisões e interferem na formulação de políticas no executivo, a não ser países como a China, a Venezuela e outros em que o Executivo é submetido ao domínio do partido único, que diz atuar em nome da sociedade civil.

Esse é um dos temas mais relevantes da atualidade, pois tem tudo a ver com a democracia e a representação.

Rubens Barbosa é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp



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A agonia de um partido - Jose Casado O Globo

A agonia de um partido - Jornal O Globo

A agonia de um partido

Na quinta-feira 7 de abril de 2005, Lula foi a Roma assistir ao funeral do Papa João Paulo II. Levou na comitiva o deputado Severino Cavalcanti, católico praticante, expoente do Partido Progressista (PP) em Pernambuco. Estavam em conflito. Lula fantasiava com a "maior base parlamentar do Ocidente" em torno de seu projeto para reeleição, no ano seguinte. Na presidência da Câmara, Severino estabelecera um preço para apoiá-lo. Combinaram uma parceria durante o voo.

Seis semanas depois, floresciam aflições no outono de Brasília. Acuado por denúncias de corrupção nos Correios, o deputado Roberto Jefferson, líder do Partido Trabalhista Brasileiro, deflagrou uma crise com o governo e pôs no alvo o chefe da Casa Civil, José Dirceu. Na terça-feira 17 de maio, enquanto a oposição viabilizava uma CPI, Lula pediu a José Múcio (PTB-PE) que desse um recado a Jefferson: "Nós temos que ser parceiros".

No dia seguinte, Severino Cavalcanti foi à ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, e cobrou: "Quero o cargo que o presidente me ofereceu durante a viagem a Roma." Dilma desconversou: "Podemos ver outra diretoria". Ele insistiu, relatou a repórter Maria Lima: "O que o presidente me ofereceu foi aquela diretoria que fura poço e acha petróleo. É essa que eu quero."

O rústico Severino frustrou-se na arrogância. Lula escolhera negociar com o deputado paranaense José Janene, líder do Partido Progressista. No outono anterior, em maio de 2004, Janene encenara uma "rebelião" do PP, com meia dúzia de votações contra o governo. Lula chamou o parceiro. Presenteou-lhe com a nomeação de Paulo Roberto Costa para a Diretoria de Abastecimento da Petrobras. O PP alinhou-se e o compromisso foi resguardado por Dilma na Presidência até o outono de 2012.

Costa contou à polícia que assumiu sob uma regra: 3% de cada contrato da estatal divididos entre o PP (1%) e o PT (2%). O operador financeiro do PP, Alberto Youssef, confirmou.

Severino renunciou quatro meses depois do encontro com Dilma, flagrado na cobrança de um mensalinho da concessionária do restaurante da Câmara. A CPI dos Correios fez o mensalão emergir, engolfando alguns do PP de Janene, do PT de Lula e do PTB de Jefferson. Na Petrobras, porém, já estava tudo dominado.

Em 2006, ano da reeleição de Lula, Janene levou Costa a uma reunião na Braskem, cujo controle é partilhado pelo grupo Odebrecht (50,1%) e Petrobras (47%). A petroquímica desejava preços menores nas matérias-primas (nafta e propeno) que comprava da estatal monopolista. Acertaram-se e, segundo Costa e Youssef, sobrou para o PP um suborno anual de US$ 5 milhões. A Odebrecht nega tudo.

No ano da eleição de Dilma, jorravam propinas. Costa e Youssef faziam um periódico "batimento das contas" da campanha de 2010. Anotavam: "28,5 PP", significando R$ 28,5 milhões para os candidatos "progressistas".

O PP é caso exemplar da máquina político-empresarial que drenou a Petrobras. Está com 60% dos seus senadores e 45% dos deputados federais sob investigação, além de dois ex-ministros, um vice-governador e oito ex-parlamentares. Moribundo, respira no ritmo agonizante da "maior base parlamentar do Ocidente" — um legado de Lula que Dilma ainda sonha em preservar.



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segunda-feira, março 09, 2015

O xadrez do impeachment - Opinião - Geral - Estadão Mobile

O xadrez do impeachment - Opinião - Geral - Estadão Mobile
Denis Lerrer Rosenfield - O Estado de S.Paulo

O contexto político está cada vez pior no País, com reflexos que já atingem e atingirão ainda mais o cenário econômico e as medidas de austeridade fiscal. A recusa da MP da desoneração da folha salarial pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, é só uma de suas expressões. Outras certamente virão. A lista dos políticos envolvidos na Lava Jato, finalmente apresentada pelo procurador-geral da República ao Supremo, abre uma nova etapa de investigação e de acirramento dos ânimos.

Convém, preliminarmente, ressaltar alguns fatores imponderáveis, cuja presença ou não podem influenciar diretamente esse quadro. O primeiro deles diz respeito ao desdobramento das investigações da Lava Jato, que podem vir a implicar a presidente Dilma no desvio de recursos da Petrobrás. Não se trata, aqui, de se estabelecer uma questão de ordem criminal. Todas as informações disponíveis indicam ser ela uma pessoa honesta. O problema é outro e essencialmente político. Ela pode vir a ser investigada por responsabilidade nos desmandos da Petrobrás tanto por ação quanto por omissão. Da mesma maneira, podem os recursos desviados da Petrobrás ter sido usados para financiamento de sua campanha eleitoral, o que seria muito grave. O segundo fator imponderável são as manifestações de rua, como a prevista para dia 15, pedindo o impeachment da presidente e assumindo firme posição contra a corrupção instalada pelo PT no aparelho de Estado.

As consequências de um impeachment são, constitucionalmente, de dois tipos. Se o impeachment for individual, não atingindo sua chapa, o vice-presidente assume normalmente, completando seu mandato. Ao contrário do que vem sendo veiculado pelas redes sociais, não haveria nova eleição. Nova eleição só ocorre se houver vacância simultânea da presidente e do vice. A eleição seria direta se a vacância simultânea ocorrer nos dois primeiros anos do mandato e indireta se nos dois últimos anos.

Cenário 1: impeachment da presidente, responsabilizada individualmente. O início do processo, independentemente de chegar a seu término, já lançaria o País num processo de profunda instabilidade, pois a substituição de um presidente por impeachment é altamente traumático. O País ficaria em suspenso e medidas econômicas dificilmente seriam tomadas.

Algumas condições:

1) O PMDB seria o principal beneficiário, pois o vice-presidente, Michel Temer, assumiria. A governabilidade seria garantida sem nenhuma dificuldade, pois o vice goza de prestígio e é conhecido por suas posições moderadas e institucionais. Certamente o PMDB nada faria para segurar a presidente.

2) As oposições certamente terminariam aderindo a esse processo de impeachment, pois se não o fizessem ficariam em completa dissintonia com a sociedade.

3) O PT, por sua vez, seria contra o impeachment, que tornaria completamente inviável o seu projeto de poder.

4) Note-se que a nomeação de Aldemir Bendine para a presidência da Petrobrás pode ser vista como tendo o objetivo de blindar internamente a instituição de qualquer investigação séria, que poderia envolver a atual presidente, o seu antecessor e o PT.

Cenário 2: vacância simultânea. Neste caso haveria a vacância simultânea da presidente e do seu vice. Para isso seriam necessárias provas que envolvessem também o vice-presidente. A possibilidade de um cenário desse tipo residiria em ser provado que os recursos desviados da Petrobrás haviam sido utilizados no financiamento da campanha de 2014. Seria necessário, ainda, provar o envolvimento do vice-presidente no caixa da campanha, o que não é uma hipótese das mais prováveis.

Algumas condições:

1) Mesmo que fosse aberto um processo de impeachment que abarcasse tanto a presidente quanto o vice, seria muito difícil implementá-lo, dada a força do PMDB no Congresso Nacional. O mais provável seria o partido desvincular o vice da presidente, individualizando os processos, deixando a presidente à sua própria sorte.

2) Observe-se que seria de interesse do PT a vacância simultânea da presidente e do vice, com o partido, sob a liderança de Lula, partindo para uma eleição direta tendo o ex-presidente como candidato. Essa hipótese não desagradaria ao partido, que mesmo tendo o ônus do impeachment tentaria reabilitar-se eleitoralmente com Lula.

3) Eis a razão, como plano B, de Lula já ter-se lançado candidato a presidente. As urnas acabaram de ser contadas e já surgiu um candidato para 2018. Será mesmo para 2018? Acontece que não houve precipitação, mas um cálculo de que Dilma poderia não cumprir a totalidade de seu mandato.

4) Tal cenário de vacância simultânea seria o pior para o País, pois os movimentos sociais estão sendo desde já mobilizados e instrumentalizados. Lula está adotando uma posição provocativa a respeito, apoiando explicitamente o MST e os sem-teto.

5) Em recente declaração incendiária, Lula afirmou que Stédile poderia pôr seu "exército" na rua. Isso significaria invasões no campo e na cidade, assim como obstrução de vias nas grandes cidades, tudo com a complacência do governo. Dilma não teria muito o que fazer, pois já renunciou ao controle desses movimentos sociais, que respondem a Lula e às alas mais radicais do PT.

6) Observe-se a estratégia extremamente arriscada adotada por Lula, podendo levar o País a uma crise institucional. Como muito bem se manifestou o Clube Militar, há somente um Exército, o brasileiro, o de Caxias.

7) Entretanto, esse cenário tem uma condição suplementar, a de Lula não estar envolvido nos escândalos da Lava Jato. Note-se que a maioria dos desmandos na Petrobrás se deu sob sua gestão presidencial, envolvendo pessoas próximas a ele.

A percepção correta dessas condicionantes se torna fundamental para que possamos entender a situação atual, que está muito mais para fino jogo de xadrez do que para futebol.

*Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS. E-mail: denisrosenfield@terra.com.br 





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quarta-feira, março 04, 2015

PERCA TEMPO - O BLOG DO MURILO: COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

PERCA TEMPO - O BLOG DO MURILO: COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

"Se fosse parlamentarismo, o governo Dilma já teria caído"
Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sobre as crises no governo federal


INDONÉSIA AINDA ESPERA AS DESCULPAS DE DILMA

A Indonésia não indicará novo representante diplomático enquanto o governo Dilma não pedir desculpas pela grosseria de se recusar a receber credenciais do embaixador Toto Riyanto, em 20 de fevereiro. Nos dias seguintes à desfeita, Dilma mandou telefonar à embaixada indonésia para dizer que a cerimônia apenas foi "adiada". Mas era tarde: humilhado, Riyanto já havia retornado a Jacarta com a família.

VERGONHA

Riyanto foi convidado a apresentar credenciais e um carro do Itamaraty o pegou em casa. Ele já estava no Planalto quando foi desconvidado.

CAIU DE PATAMAR

A Indonésia será representado apenas por encarregado de negócios, enquanto reavalia a manutenção de uma embaixada em Brasília.

CESTA DO LIXO

Além de criar clima de desconfiança nos demais embaixadores, a descortesia jogou no lixo 60 anos de relações Brasil-Indonésia.

SAIU CARO

A grosseria de Dilma pode custar R$435 milhões à Embraer: o governo da Indonésia reavalia sua encomenda de oito aviões Super Tucano.

GABRIELLI DEVE PERDER SUA RICA BOQUINHA NA GALP

Sergio Gabrielli, um dos mais lastimáveis presidentes da história da Petrobras, será demitido do conselho de administração da estatal portuguesa Galp Energia, caso não peça para sair. Em razão de parcerias entre as empresas, ele ganhou assento no conselho da Galp, do qual deveria ter saído ao ser demitido da Petrobras, no início de 2012. Mas ficou agarrado à boquinha, constrangendo os portugueses.

DINHEIRO MOLE

Sérgio Gabrielli, como todo petista, adora uma boquinha, e o conselho da Galp lhe garante remuneração fixa, não revelada, 14 vezes ao ano.

LESA-PÁTRIA

Gabrielli era o presidente quando a Petrobras pagou US$ 1,3 bilhão na refinaria de Pasadena, avaliada um pouco antes por US$ 42,5 milhões.

CONSTRANGIMENTO

Impressionados com o assalto à Petrobras, os portugueses se sentem constrangidos com a presença de Sérgio Gabrielli no conselho da Galp.

MOSTRANDO BÍCEPS

Renan Calheiros mostrou que política é para profissionais. Boicotou o jantar de Dilma e devolveu a MP que reduzia a desoneração da fola. Fez Dilma perceber, antigo aliado, não pode ficar fora da interlocução com o PMDB, e ainda dividiu o noticiário sobre seu nome na Lava Jato.

CARA FECHADA

Caciques do PMDB debocharam do jantar oferecido por Dilma no Alvorada. A anfitriã mal disfarçava o desconforto com os visitantes e ainda estava aborrecida com a ausência do senador Renan Calheiros.

NOVA DERROTA

Pela cara do líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), o Planalto se prepara para mais uma derrota na Câmara, na votação da PEC da Bengala, prevista para esta quarta-feira.

AINDA TEM MAIS

Para políticos com rabo preso, que imaginavam o pesadelo no fim, a Operação Lava Jato foi prorrogada por mais seis meses. Suficientes para a abrir a caixa preta (e ainda mais pútrida) do setor elétrico.

AJUDA AO RELATOR

O presidente da CPI da Petrobras, deputado Hugo Motta, nega a intenção de enfraquecer o PT, ao criar quatro subrelatorias. Diz que, ao contrario: são ajuda ao trabalho do relator Luiz Sérgio (PT-RJ).

ATÉ O MINISTRO

O Planalto enviou os ministros Pepe Vargas (Relações Institucionais), Manoel Dias (Trabalho) e Carlos Gabas (Previdência) para pedir ao PP aprovação das MPs 664 e 665. Vargas nem se empenhou. Ficou dez minutos na reunião com a bancada e se mandou.

SEM RESTRIÇÕES

O embaixador espanhol Manuel de la Camara informou ontem que a escolha do futuro embaixador em Madri é atribuição exclusiva do Brasil, e que o governo da Espanha não pontuou quaisquer restrições.

COMBOIO MISTERIOSO

Misterioso comboio de seis caminhões-baú, do Exército, ontem, na rodovia MG-262, deixou inquietos habitantes da região de Caratinga. O Exército não explicou o que tal aparato transportava. Balas de festim?

PENSANDO BEM...

...Dilma e ministros que participaram da decisão de aumentar água, luz e combustível, têm algo em comum: quem paga essas contas para ele somos nós, contribuintes otários.


PODER SEM PUDOR

É DURO SER SECRETÁRIO...

O atual ministro José Múcio, do Tribunal de Contas da União, foi secretário do governador de Pernambuco, Roberto Magalhães. Certa vez, no Programa Geraldo Freire, da Rádio Jornal, Magalhães pediu seu testemunho para uma afirmação:

- Meu governo já fez mais de 12 mil quilômetros de eletrificação rural!

José Múcio não deixaria o governador mentindo sozinho:

- É verdade, foram mais de 12 mil quilômetros...

- É mentira! - exclamou Magalhães, desistindo da lorota - Não posso mentir ao povo. Na verdade, foram só 8 mil!


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PERCA TEMPO - O BLOG DO MURILO: País dissolvente - RUY CASTRO

PERCA TEMPO - O BLOG DO MURILO: País dissolvente - RUY CASTRO

País dissolvente - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 04/03

RIO DE JANEIRO - Já não basta o aumento das tarifas. A última conta de luz recebida por uma amiga trazia a ameaça: "Aviso de corte. Até o dia [espaço em branco] não constava em nossos registros o pagamento de conta(s) de energia no total de R$ [espaço em branco], o que implicará no corte de fornecimento, cobrança de multa e inclusão no Serasa e similares. Detalhes ao lado". Mas, no dito ao lado, outro espaço em branco. Só que a conta de minha amiga está há anos no débito automático e em dia, como ela informou à empresa. Esta reexaminou seus arquivos e levou horas, mas concluiu que não constava nenhum débito e mandou desconsiderar o aviso.

Na mesma semana, mãe, filha e genro tiveram seus cartões de crédito clonados. Com o da filha, foi feita uma despesa de R$ 2.000; com o do genro, de R$ 13 mil. Apesar dos valores incompatíveis com o histórico dos cartões, nenhum dos dois foi bloqueado. Já o da mãe, cuja despesa era de quatro dólares, foi.

Eu próprio tenho sido vítima desse samba do cibernauta doido. Uma operadora está me cobrando há meses por duas linhas de telefonia móvel que não pedi para ter, não tenho, não uso e não pretendo usar. Por causa disso, recebo telefonemas vociferantes vindos de sujeitos em cidades como Belo Horizonte e Fortaleza, mas nenhum me assegura que, se eu pagar as contas fantasmas, conseguirei cancelar essas linhas idem.

E há os Correios, batendo seus próprios recordes de ineficiência. Encomendas que recebo de ou envio para EUA, México ou Portugal têm levado até quatro meses para chegar. Junte a isto a falta d'água, os voos cancelados nos aeroportos, as cidades intransitáveis. Os serviços no Brasil estão se dissolvendo.

Bem, eles nunca foram grande coisa, mesmo. O problema será se as instituições –firmes há 30 anos– também estiverem correndo risco de dissolução.


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terça-feira, março 03, 2015

Elite golpista - Rodrigo Constantino Jornal O Globo

Elite golpista - Jornal O Globo

Elite golpista

Li neste fim de semana uma entrevista no jornal com um ex-ministro que dá nome a um bem-sucedido plano de combate à inflação da década de 1980, na qual ele acusa, repetindo o discurso oficial do governo, que as elites não suportam a ascensão dos pobres e nutrem ódio ao PT por isso. Confesso, como presidente da ONG Elite Golpista Opressora (EGO), que o ilustre economista descobriu nossa conspiração.

Desde Cabral o Brasil é dominado pelas elites. Apenas com a chegada do PT ao poder isso mudou. A partir de 2003, são os pobres que estão no comando do país. Os banqueiros e empreiteiros ficaram para trás, catando migalhas, enquanto os garis e as empregadas domésticas chegaram ao topo da hierarquia. E isso nós da EGO não podemos admitir!

Alguns tentam argumentar que não é bem assim, que os petistas são os "novos ricos", frequentadores do hospital particular mais caro do país, usuários de jatinhos e todo o conforto que só o capitalismo pode oferecer. Mas é pura intriga da oposição. Em nome da sinceridade, vamos admitir: aquilo que não digerimos mesmo é a vida fantástica que o PT propiciou aos pobres brasileiros.

Onde já se viu? Onde isso vai parar? No modelo cubano, onde os pobres vivem exatamente como os demais, na fartura completa? Não vamos aceitar isso. Os pobres brasileiros sob o PT estão com uma qualidade de vida de fazer qualquer sueco morrer de inveja. O transporte público está uma maravilha, o SUS é quase perfeito, a segurança nas comunidades é absoluta. Isso é um ultraje para nós, golpistas da elite!

Vimos nesses dias uma grande paralisação de caminhoneiros revoltados com o aumento do combustível. Mas sabemos que os caminhoneiros são parte dessa elite abastada e golpista. Se analisarmos a vida dos mais pobres mesmo, veremos que tudo mudou para melhor. Ninguém sente a inflação de 7,5% no bolso, pois ela só afeta os mimados burgueses consumistas. Pobre pode simplesmente trocar carne por ovo e, pronto: a inflação desaparece.

A EGO não aguenta mais esse paraíso construído para os mais pobres à custa dos ricos. Os banqueiros vão viver de que se o governo resolver reduzir novamente os juros? É verdade que ele está no patamar mais alto dos últimos anos, mas fica sempre a angustiante dúvida no ar. E os empreiteiros? Como poderão comprar o leite das crianças sem o "petrolão", que é obra do FH? Imagina se o PT acabar de vez com os "malfeitos", como promete desde 2003: como a elite vai sobreviver?

Aécio Neves teve 51 milhões de votos na última eleição. Dilma venceu sem mentir, sem estelionato eleitoral. Colocou em prática tudo aquilo que prometeu na campanha. Não importa. As elites que a EGO representa estão furiosas, não com um suposto golpe da presidente, mas com suas medidas populares que tanto ajudam os mais pobres. É isso que nos tira o sono. Somos 51 milhões de ricos da elite nesse Brasil que mais parece uma imensa Suíça. Queremos arrocho salarial já. Queremos aumento de gasolina, de juros, de tarifas de energia. Por que Dilma nos ignora e faz tanto pelos mais pobres?

Por essas e outras temos espalhado por aí a ideia do impeachment. É verdade que Collor, atual aliado do PT, sofreu impeachment e que isso teve muito a ver com a pressão popular liderada pelos petistas. Mas naquela época não era golpismo, pois era o povo contra a elite. Agora é golpismo, pois é a elite contra o povo. Que seja. A EGO vai continuar espalhando a ideia por aí, pois não dá mais para conviver com tantos pobres melhorando de vida. Não vamos permitir que o Brasil seja tão próspero quanto a Venezuela!

Com receio do nosso golpe, o ex-presidente Lula já convocou até o "exército de Stédile", o líder do MST. Isso sim é constitucional. Sobre o MST, trata-se apenas de um "movimento social" legítimo, que invade, quer dizer, ocupa terras produtivas pois precisa fazer a reforma agrária nos moldes do Zimbábue, nem que seja na marra. Apenas nós da elite insensível temos esse apego bobo à propriedade privada.

Lula está fazendo seu papel de defensor da democracia e da Petrobras. Trata-se não de um agitador irresponsável, mas de um grande líder das massas. Por isso odiamos tanto o ex-metalúrgico. Pois só se preocupa com os mais pobres, e não liga para aqueles que possuem triplex no Guarujá ou circulam por aí de jatinho. Os petistas são muito abnegados e altruístas, e isso é revoltante. Está na hora de dar um basta. Está na hora de resgatar o poder novamente. Marchamos sob a liderança do ícone da elite branca, o ex-ministro Joaquim Barbosa. Elite opressora unida jamais será vencida!

Rodrigo Constantino é economista e presidente do Instituto Liberal



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