segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Vácuo de ideias Denis Lerrer Ronsenfield

O Estado de S. Paulo - 27/02/2012


A política brasileira está mostrando um cenário deprimente, cuja
característica principal é um vácuo total de ideias. Partidos
digladiam-se por tempo de rádio e televisão na campanha eleitoral e
estão dispostos às mais distintas alianças, sempre e quando esse tempo
seja preservado. Alianças que não obedecem a nenhum imperativo de
programas, valores e ideias, mas tão somente a ganhos pragmáticos
imediatos. É como se tais partidos renunciassem a si mesmos. O que
fazer com o poder conquistado, além de preservá-lo, não entra
minimamente em consideração.

As denominações esquerda e direita, se já não tinham muito
significado, perdem o pouco que conservavam, pois partidos "de
esquerda" fazem, sem o menor pudor, alianças com partidos "de
direita", como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Alianças
impensáveis há apenas poucos anos se tornaram corriqueiras, tudo sendo
virtualmente possível. Se não há o menor apego a ideias e valores, não
surpreende que negociações partidárias sejam feitas nas mais variadas
direções. É o terreno do vale-tudo, porque valores nada valem.

Não deveria, portanto, causar tanto impacto que as igrejas evangélicas
estejam progredindo eleitoralmente, agindo à revelia dos partidos,
segundo seus próprios interesses específicos. Partidos, para elas, são
meros instrumentos, o que valeria para praticamente todas as
agremiações, nenhuma delas apresentando uma proposta abrangente que
valha para toda a sociedade. Partidos deveriam mostrar que seus
interesses particulares, por exemplo, têm validade para toda a
sociedade, fazendo, neste sentido, a passagem do particular para o
universal, o coletivo.

Nessa perspectiva, as igrejas evangélicas estão ocupando um espaço
deixado vazio pelos partidos, assumindo valores que são reconhecidos
não só por sua clientela tradicional, mas ganham também amplos setores
do eleitorado. Estão, dessa maneira, redesenhando, na sua ótica
própria, as relações entre política e valores, tanto mais eficazmente
que os partidos têm abdicado da defesa dos valores.

Tomemos o caso da discussão sobre o aborto e a união homossexual.
Independentemente da consideração de se ser contra ou a favor, o mais
relevante é que se tenham posições a respeito, sendo estas discutidas
e defendidas em praça pública. As igrejas evangélicas defendem suas
posições não por serem estas retrógradas ou atrasadas, o que
pressuporia que os defensores do aborto e da união homossexual seriam
tidos por "progressistas", mas porque veiculam ideias da vida (a ser
considerada desde a fecundação) e da família (baseada na união entre
homem e mulher).

Acontece que os partidos estão fugindo dessas questões, pois, sendo
essencialmente controversas, produzem efeitos políticos e eleitorais.
Ninguém, incluindo os partidos, está infenso a assumir consequências
decorrentes da defesa de posições a favor ou contra. Isso é, aliás,
natural. O que não pode - mas é o que está acontecendo - é os partidos
políticos não serem a favor nem contra, muito pelo contrário. Ao
desertarem do campo das ideias, deixaram o campo vazio para que outras
organizações o ocupem.

Questões públicas exigem exposições de princípios. Nessas questões em
pauta há considerações relevantes sobre a liberdade de escolha e seus
limites, sobre o que é considerado como natural, sobre a concepção da
vida, estando esta dotada ou não de uma finalidade própria, sobre o
que é saúde pública, sobre o que é o exercício legítimo da diferença,
e assim por diante. Trata-se de questões públicas que requerem
tratamento eminentemente racional, independente de orientações
religiosas.

O recurso a um texto sagrado não deveria ser, no caso, de nenhuma
valia, pois é de sua natureza ser válido só para quem nele crê. Logo,
se valesse apenas a orientação religiosa, somente os fiéis deveriam
seguir as diretrizes relativas ao aborto e à união homossexual, não
devendo ser elas objeto de uma lei pública.

Os partidos políticos, no entanto, estão fugindo desse debate, atentos
exclusivamente aos seus interesses eleitorais mais imediatos. Na
última eleição presidencial, o espetáculo foi deprimente tanto no que
concerne ao PT quanto ao PSDB, ambos os partidos assumindo posições ao
sabor das oscilações de opinião pública e cujo único pilar era a
conquista do voto. Aliás, as duas legendas já foram - ou são -, por
exemplo, favoráveis ao aborto ou à união homossexual, porém se recusam
a assumir essa posição por medo das consequências eleitorais. E o
espaço não ocupado por eles termina sendo ocupado por outros.

Referi-me, na abordagem dessas questões, principalmente aos
evangélicos por serem eles os mais claros e aguerridos, não se
envergonhando de suas posições. A Igreja Católica, embora sua corrente
hoje principal assuma também tais posições, havia abandonado
parcialmente esse campo em proveito de tomadas de posição mais sociais
e políticas, até mesmo com o marxismo ganhando posições em seu seio,
em detrimento do cristianismo propriamente dito.

Em nome da revolução, tida por bem maior, chegou a fazer concessões a
valores então tidos como menores. A partir do momento em que setores
da Igreja Católica passaram a se comportar como se partidos políticos
fossem, em estreita vinculação com movimentos sociais que propugnam
pela abolição do capitalismo e da propriedade privada, criaram
vínculos ideológicos e abandonaram o terreno que veio a ser ocupado
pelos evangélicos.

Isso faz também os partidos políticos estarem, agora, tentando se
aproximar cada vez mais da classe média ascendente, a dita classe C,
pois esta está abrindo o seu próprio caminho, defendendo os seus
próprios valores, muitos deles sendo considerados "conservadores". Ela
tem uma visão própria da relação entre política e valores, relação
essa que os partidos políticos têm uma nítida dificuldade em abordar.

A natureza, dizia Aristóteles, tem horror ao vácuo.