quarta-feira, abril 20, 2011

Merval Pereira- O alvo comum

O GLOBO - 20/04/11

O ex-presidente Lula deu ontem mais uma das inúmeras demonstrações que
tem dado nos últimos anos de que não se preocupa em ser coerente nas
suas opiniões desde que possa tirar algum proveito da palavra dita no
momento político certo. Nisso, no timing político, ele parece
imbatível, desde que não se levem em consideração valores republicanos
como seriedade no debate, nem nos incomode a prática de distorcer as
palavras do adversário para ganhar a discussão no tapetão ideológico.

Depois de tentar ridicularizar a preocupação do ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso com a nova classe média brasileira, transformando-a
em abandono das classes populares, em reunião ontem com prefeitos do
PT no estado de São Paulo o ex-presidente Lula defendeu que o partido
busque alianças para as eleições municipais de 2012, incluindo nas
suas chapas candidatos que atinjam setores da sociedade com os quais o
PT tem dificuldades, como as classes médias e os empresários.

O exemplo de Lula foi seu ex-vice-presidente, José Alencar, a quem
atribuiu importância capital na sua vitória de 2002 para a Presidência
da República.

O diagnóstico de Lula está correto e corrobora a análise de Fernando
Henrique. Os dois indicam o mesmo caminho para os partidos que
lideram: a classe média ampliada deve decidir as próximas eleições
municipais, especialmente diante de um quadro econômico adverso em que
a inflação em alta e restrições de crédito podem afetar o sentimento
de bem-estar que ela vem experimentando.

Na eleição municipal de 2004, o melhor ano em termos econômicos da
administração Lula até aquele momento, isso não foi o suficiente. O
governo perdeu as principais prefeituras do país, especialmente a de
São Paulo, pois perdera o apoio da classe média de todo o país,
atemorizada com o autoritarismo revelado por setores do governo e com
o aparelhamento do Estado.

Além de todos esses problemas, há a questão da corrupção, que surgiu
em meados de 2005 com o escândalo do mensalão.

De lá para cá, o desempenho sofrível do PT nas regiões Sul-Sudeste vem
se mantendo inalterado, mostrando que ele continua a ter dificuldades
na região mais rica e esclarecida do país.

Nada mais natural, portanto, que sua votação majoritária tenha migrado
para o Nordeste.

O cientista político e ex-porta-voz de Lula André Singer, professor da
USP, fez um trabalho acadêmico que se tornou imprescindível na análise
do fenômeno do lulismo, em que o define como um grupo conservador,
composto pelos beneficiários dos programas assistencialistas do
governo e pelo aumento do salário mínimo.

Esse grupo identifica o governo como o fiador da estabilidade
econômica e vê nele a garantia de sua nova situação financeira, que
teme perder se houver alguma mudança inesperada.

Esse conservadorismo pode favorecer o governo, mas pode também
afastá-los do governo se pressentir guinadas para a esquerda, por
exemplo.

Essa análise do eleitorado brasileiro, e a necessidade de buscar uma
conexão com esse grupo de cidadãos que hoje representa a maioria da
população brasileira, é a mesma feita pelo ex-presidente Fernando
Henrique, e fazer a ilação de que os tucanos são elitistas enquanto os
petistas são os defensores do "povão" é apenas mais um embate político
em que, por sinal, os petistas se saíram melhor até o momento porque
os tucanos temem a imagem de elitistas.

Na análise petista, a nova classe média ainda está formando sua
identidade sociocultural e por isso precisa ser acompanhada de perto.
Entre 2003 e 2008, segundo dados do Centro de Pesquisas Sociais do
Ibre, da Fundação Getulio Vargas do Rio, 31,9 milhões de pessoas
ascenderam às classes ABC.

Essa "nova classe média", suas aspirações e, sobretudo, sua capacidade
de ser um "agente fundamental" em uma revisão de valores da sociedade
brasileira são analisadas pelos cientistas políticos Amaury de Souza e
Bolívar Lamounier, no livro "A classe média brasileira: ambições,
valores e projetos de sociedade", da editora Campus com o apoio da
Confederação Nacional da Indústria (CNI), de que já tratei aqui na
coluna. Vale a pena voltar a suas análises.

O fato de a mobilidade social dessas classes ter dependido amplamente
do consumo, e não de novos padrões de organização ou desempenho na
produção, demonstra a fragilidade dessa ascensão e justifica a
incerteza que esses novos eleitores têm diante do quadro político.

Eles valorizam especialmente a educação, e os autores identificaram
"um sentimento surpreendentemente generalizado" de insatisfação com a
qualidade da educação.

A nova classe média, no entanto, considera a violência, a corrupção e
as drogas como problemas mais graves que as carências referentes à
saúde, ao desemprego, à habitação e à qualidade da educação.

Os cientistas políticos Amaury de Souza e Bolívar Lamounier constatam
no livro que a classe média inclina-se pela democracia como a melhor
forma de governo, "mas partilha com os demais segmentos da sociedade
um sentimento de aversão à política".

Em grande parte, esse sentimento deriva da percepção de que a
corrupção campeia no mundo da política, mas as pesquisas mostram que é
também amplamente disseminada a sensação de que "os políticos e os
partidos não se importam com a opinião dos eleitores".

É esse o eleitor do qual PT e PSDB estão atrás, assim como os partidos
que disputam a centro-direita política, como o DEM e o futuro PSD.