segunda-feira, janeiro 25, 2010

A anistia de Lula Daniel Piza

 O Estado de S. Paulo, 17/01/10

Há uma cena no filme Lula, o Filho do Brasil, de Fabio Barreto, em que Lula está preso com outros sindicalistas, por causa da greve dos metalúrgicos do ABC em 1979, e diz contar com a opinião pública. Um colega de cela diz: "Que opinião pública, Lula? Vivemos numa ditadura." Resposta, que cito de memória: "Opinião pública, sim. Você não viu que estão aprovando uma lei de anistia?" Curiosamente, 30 anos depois, na calada do réveillon, o presidente Lula assinou um Plano Nacional de Direitos Humanos que, além de ser um frankenstein de temas e incoerências, pior ainda que o costurado antes pelo governo FHC, confunde apurar os fatos e paradeiros sobre tortura e exílio no regime militar com revogar a anistia e punir os criminosos então no poder. Mais curiosamente ainda, a tal opinião pública reage à medida e obriga Lula à "recueta", usando sua velha tática do "não li" e "não sabia".

O caríssimo filme, que está indo bem abaixo das expectativas de seus produtores e patrocinadores - que incluem Eike Batista e boa parte dos empresários e banqueiros nacionais, mais felizes com o governo Lula do que qualquer beneficiado do Bolsa-Família -, mal merece duas estrelas. Cinematograficamente, é uma espécie de mistura de Central do Brasil e 2 Filhos de Francisco, só que ainda mais linear e maniqueísta, razão pela qual não funciona nem quando recorre ao apelo melodramático. O enredo para em 1979, antes de Lula ajudar a fundar o PT e de se candidatar quatro vezes à Presidência da República, mas o engajamento da obra é óbvio.

O Lula do cinema é exemplar em tudo: filho exemplar (que chega a ensinar ao pai que não se bate em mulher), marido exemplar (que se encanta com a visão da mulher ao tanque de lavar na laje), profissional exemplar (que até perde o dedo no torno de tanto trabalhar, e logo depois do golpe de 1964) e sindicalista exemplar (que faz a transição para a nova geração sem afastar o pelego que o promoveu). Toda adversidade que enfrenta não depende de suas escolhas, pois vem de fora: da natureza e pobreza do agreste, da maldade alcoólatra do pai, do destino e do médico do hospital onde perde sua primeira mulher e filho, da repressão militar. Ele não erra e nem sequer tem dúvidas. Em termos estéticos, o filme constrói um herói pré-homérico, sereno e predestinado como Ulisses jamais consegue ser.

Sim, ele chega a ser chamado de traíra pelos sindicalistas, quando cede à pressão para encerrar a greve, mas apenas porque tem um instinto conciliador; e logo depois é redimido, na igreja, debaixo de uma Madonna. Aparece bebendo só cerveja, empregando os plurais corretamente antes de ficar famoso, sendo cordial como "um de nós", fazendo metáforas futebolísticas o tempo inteiro. Não fala nunca em dinheiro, muito menos usa termos como socialismo, imperialismo, estatização; apenas nega ser comunista três vezes (...) e diz se preocupar exclusivamente com o que o trabalhador vai comer. Em nenhum momento se põe como um comissário da verdade, ao contrário da postura de seus principais parceiros futuros, como Tarso Genro e José Dirceu. Sua virtude maior é o otimismo e, no letreiro final, há a menção ao fato de que ele continuou "tentando" até que conseguiu, seguida das imagens de sua posse como presidente em 2003 - o que projeta tudo para este ano eleitoral.

Desse modo, o filme realiza aquilo que seus oito anos de governo terão realizado na visão de muitos: uma operação de despolitização de Lula; uma anistia de sua figura de líder de "esquerda" e sua troca para a de mito histórico acima de rótulos partidários; uma conversão dele em símbolo da redenção social brasileira depois de 500 anos. Não por acaso, ele disse que o fruto do filme foi afetivo: os carinhos de dona Marisa. Há antigos simpatizantes que só agora descobriram que o lulismo suplantou o petismo, apesar de alertas bem anteriores. Mas a hagiografia de Fabio Barreto, involuntariamente, serve também para ver as angústias da consagração: se seus méritos são pessoais, são também em grande parte intransferíveis (se Dilma vencer Serra, será por transmitir sensação de mais estabilidade e operosidade, não por ser Lula de saias); e, se as velhas bandeiras já não o vestem, cabe a Lula atender à opinião pública quando for inevitável, o que ainda continua raro e parcial. Às favas os escrúpulos e os sonhos.