terça-feira, outubro 27, 2009

O dólar, nos derivativos - Celso Ming


O Estado de S. Paulo - 27/10/2009

Alguns analistas pressentem que a instituição de um IOF de 2% não produziu mais do que uma coceira no câmbio e que é preciso mais para garantir o efeito pretendido de segurar o dólar. Entre as propostas está a de que o Banco Central se antecipe à excessiva entrada de dólares no mercado interno e atue agressivamente na ponta de compra em derivativos de câmbio.

Entre os economistas que já se manifestaram nessa direção, estão o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (governo Sarney) Luiz Gonzaga Belluzzo e o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira.

O que significa isso? Significa que o Banco Central deveria comprar ou vender moeda estrangeira nos mercados futuros, de maneira a inibir a aposta dos bancos em direção à valorização do real. Por que não o faz?

O importante aí é o objetivo da intervenção e não propriamente o segmento do mercado em que ocorre, se o de dólar pronto ou se o de derivativos. Nada haveria de errado se interviesse no mercado de derivativos e continuasse comprando moeda estrangeira apenas para evitar volatilidades ou para formar reservas. Quando negociou contratos de swap cambial antes, durante e depois da crise, o Banco Central operou no mercado de derivativos.

Se atuasse no mercado não mais para simplesmente impedir oscilações excessivas, mas também para impedir a valorização do real, o Banco Central seria obrigado a usar o único instrumento de que dispõe (a política monetária ou política de juros) para defender um piso (ou um teto) para o preço da moeda estrangeira em reais.

Nesse caso, sempre que a cotação do dólar resvalasse ou ameaçasse resvalar para abaixo desse piso, o Banco Central seria obrigado a comprar moeda estrangeira, no mercado à vista ou no futuro.

A partir daí, a política monetária, que hoje está inteiramente voltada para o cumprimento da meta de inflação, passaria a ter uma função diferente. Seria usada para sustentar o câmbio.

Não dá para conciliar esses objetivos. Ou bem o Banco Central controla o câmbio ou controla a inflação. A partir do momento em que passasse sinais de que não admitiria que a cotação da moeda estrangeira em reais escapasse de determinado patamar, o mercado iniciaria uma especulação com juros, que inevitavelmente subiriam.

Além disso, sempre que emite reais para comprar moeda estrangeira, o Banco Central trata de esterilizá-los, ou seja, trata de tirá-los do mercado por meio da emissão de títulos: quem compra os títulos recolhe reais ao Banco Central e o efeito inflacionário fica neutralizado. Nesse caso, a tendência do câmbio, qualquer que seja ela, se perpetua porque a relação entre oferta e procura de moedas se restabelece com a esterilização. E, com o restabelecimento da relação anterior, o preço entre elas também tende a voltar ao nível anterior.

Não há nada de especialmente errado na atuação agressiva do Banco Central no mercado de derivativos, desde que eleja um só objetivo a cumprir e arrume o resto da economia em relação a ele. Mas não dá para pretender segurar o câmbio e, ao mesmo tempo, combater a inflação.





Confira





Esquisitice - A Volkswagen não convence quando afirma que desconhece a causa do defeito do motor do Gol 1.0 (nova geração), que já atingiu 300 veículos. Parece fazer pouco-caso da competência do seu corpo de engenharia. Sugestão: consultar os técnicos da Fiat, da GM e da Ford. Eles têm boas hipóteses sobre o que está acontecendo.



Se os engenheiros da Volkswagen de fato não sabem qual é o defeito, como podem garantir que apenas a troca de motor resolve o problema?



Ou, então, se não sabem, como é que podem garantir que o defeito não produz nenhuma consequência para a segurança?