sábado, outubro 24, 2009

Miriam Leitão Fim da era dólar?

O Globo



O dólar está derretendo. Aqui e no mundo inteiro.

O IOF sobre capital estrangeiro provocou polêmica, mas o problema é qual o destino do dólar, que, como lembra Affonso Celso Pastore, é a segunda moeda de todos os países, o ativo no qual as economias constituem suas reservas. Fatos que dão aos Estados Unidos o privilégio de ter metade da sua base monetária carregada pelos outros países.

Mais do que as aflições locais de exportadores, a grande dúvida é se estamos no fim da era dólar. Pastore lembra que a libra esterlina deixou de ser a moeda hegemônica no final da Segunda Guerra Mundial, pelo fortalecimento econômico americano, o grande vencedor da guerra. Mas ele mesmo não acha que seja o começo do fim da era dólar. Conversei com Pastore e o economista José Alfredo Lamy, na Globonews, sobre isso.

Lamy acha que há dúvidas até mais urgentes. Ele acredita que o ano de 2010 será determinado pelo Fed (banco central americano). Inclusive o que acontecerá com o dólar aqui no Brasil. A taxa de câmbio tem menos a ver com medidas como o IOF — que ele define como um ruído de curto prazo —, e mais com o que o presidente do Fed, Ben Bernanke, pretende fazer.

— Nós vivemos ainda um período de exceção; estamos no meio da crise e não vimos ainda o final da história. O Fed jogou os juros para baixo e aumentou muito a quantidade de dólar em circulação com os programas de estímulos e a compra de ativos podres. Isso foi feito num momento de desespero, uma medida de emergência para enfrentar a crise bancária. A estratégia de saída dessa situação determinará o que acontecerá no mercado de câmbio mundial em 2010.

Hoje, pelo excesso de liquidez, existe uma correlação perfeita com 2007, quando estavam em alta as bolsas, commodities e moedas — afirmou Lamy.

Pastore acha que o Brasil continuará atraindo muito capital porque agora ele não vem apenas pelo diferencial de juros, mas pelo diferencial de crescimento.

— Os juros brasileiros, apesar da forte queda recente, ainda são mais altos que os do mundo, mas na crise, quando o investimento direto estrangeiro se encolheu no mundo, aumentou de US$ 20 bilhões para US$ 30 bilhões no Brasil. E por quê? Porque no governo Fernando Henrique e no governo Lula, o país fez uma série de ajustes macroeconômicos em sua economia: reduziu a dívida, desdolarizou a dívida, estabeleceu metas fiscais, se graduou com o grau de investimento.

Foi reduzida a vulnerabilidade brasileira aos choques externos. O Brasil vai crescer de 5% a 5,5% no ano que vem e vai continuar recebendo capital estrangeiro.

Não será o IOF que vai reverter essa tendência — disse ele.

Lamy concorda que o país vai crescer — prevê um pouco menos que Pastore —, mas pensa que não é o sucesso do Brasil que determina a entrada de dólar, porque países que não fizeram as mesmas reformas e ajustes também estão recebendo muitos dólares e tendo alta nas suas moedas e bolsas, como a África do Sul. O que há de comum entre Brasil e África do Sul é que ambos são países exportadores de commodities.

Pastore disse que o dólar só continuará a ser a moeda do mundo se estiver forte, sobrevalorizada: — Os Estados Unidos têm um privilégio exorbitante de que o dólar seja a reserva de moeda do mundo.

Se eles quiserem manter sua posição hegemônica, têm que ter estabilidade de preços e consertar sua crise.

Por enquanto, não pode tirar os estímulos econômicos porque a economia ainda está em depressão. Lá na frente, quando estiver se recuperando, o risco será de inflação. Se ela subir, e os Estados Unidos deixarem, há o risco de o dólar deixar de ser a segunda moeda de todos os países.

Há outros pensadores acreditando que o risco pode ser mais imediato. A própria queda do dólar, frente a quase todas as moedas, não seria um fator que detonaria o seu abandono como a moeda das reservas internacionais dos países? O historiador Niall Ferguson, autor do livro sobre a história do dinheiro, em entrevista recente, considerou que os economistas erram quando consideram que a China não vai reduzir o volume de dólares em reserva (US$ 1,7 trilhão) porque isso seria atirar no próprio pé. Ele argumenta que a China tem a ganhar se outros ativos e moedas que ela também dispõe se valorizarem em relação ao dólar.

Ferguson considera histórica a decisão do Brasil e da China de adotarem suas próprias moedas nas transações comerciais bilaterais.

A medida, na verdade, ainda não está operacional, mas quando estiver será grande. Em 2008, o comércio bilateral foi de US$ 36,4 bilhões. Este ano, até setembro, US$ 27,2 bilhões. A China já representa 14% do comércio brasileiro.

Parece meio inevitável que uma economia com desequilíbrios fiscais e monetários tão grandes como a dos Estados Unidos acabe perdendo a confiança como emissor de uma moeda mais importante do mundo. Mas a história recente provou a força do dólar. Quando a crise se abateu sobre o mundo no final do ano passado, houve corrida para comprar dólares e isso elevou a cotação da moeda. Agora, é o reverso da medalha, ela cai em relação a todas. Pode não ser ainda o fim da era dólar, mas isso nunca pareceu tão próximo.

oglobo.com.br/miriamleitao • e-mail: miriamleitao@oglobo.com.br

COM ALVARO GRIBEL