sábado, outubro 24, 2009

Câmbio chinês ameaça economia mundial PAUL KRUGMAN


DO "NEW YORK TIMES"

AS AUTORIDADES de política monetária importantes em geral falam em código. Assim, quando Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (BC dos EUA), falou recentemente sobre a Ásia, desequilíbrios internacionais e a crise financeira, ele não fez críticas específicas à absurda política cambial chinesa.
Mas nem precisava: todo mundo compreendeu o subtexto. O mau comportamento da China é uma ameaça para o restante da economia mundial. A questão agora é o que o mundo -e especialmente os EUA- pretende fazer a respeito.
Alguns dados: o valor da moeda chinesa, diferentemente do que ocorre com, digamos, a libra esterlina, não é determinado por oferta e procura. Em lugar disso, as autoridades chinesas o impõem como meta, por meio da venda ou da compra de sua moeda no mercado internacional de câmbio.
Não há nada de necessariamente errado com essa política, especialmente em um país ainda pobre cujo sistema financeiro poderia ser desestabilizado por fluxos voláteis de "hot money". O sistema serviu bem à China durante a crise financeira asiática do fim dos anos 90. A questão, porém, é determinar se o valor do yuan é razoável.
Até cerca de 2001, seria possível argumentar que sim. A posição geral da China no comércio externo não estava muito distante do equilíbrio. Dali por diante, no entanto, a política de manter uma paridade fixa entre o dólar e o yuan passou a parecer cada vez mais bizarra. Acima de tudo, o dólar caiu de valor, especialmente diante do euro, e, por isso, ao manter fixa a taxa de câmbio entre yuan e dólar, as autoridades monetárias chinesas estavam, na prática, desvalorizando sua moeda ante todas as demais. Enquanto isso, a produtividade nos setores chineses de exportação disparava; combinado à efetiva desvalorização da moeda, isso tornou os bens chineses baratos nos mercados mundiais.
O resultado foi um imenso superavit comercial chinês. Se a lei de oferta e procura tivesse sido autorizada a funcionar, o valor da moeda chinesa teria subido. Mas as autoridades chinesas não permitiram uma alta. Mantiveram o yuan em baixa cotação por meio da venda de vastos volumes da moeda e adquiriram em troca um enorme acúmulo de reservas cambiais.
Muitos economistas, entre os quais me incluo, acreditam que a onda de compra de ativos pela China ajudou a inflar a bolha da habitação e a preparar o terreno para a crise financeira mundial. Mas a insistência chinesa em manter a paridade fixa entre dólar e yuan pode causar ainda mais estragos agora.

Dólar fraco
Ainda que existam muitas previsões pessimistas sobre a queda do dólar, ela é tanto natural quanto desejável. Os EUA precisam de um dólar mais fraco para ajudar a reduzir seu deficit e estão obtendo esse dólar mais fraco, à medida que os investidores, depois de correr para os ativos americanos em busca de suposta segurança no pico da crise, passam a pôr seu dinheiro em outros mercados.
Mas a China continua mantendo sua moeda atrelada ao dólar, o que significa que um país com imenso superavit comercial e economia em rápida recuperação, ou seja, um país cuja moeda deveria estar subindo de valor, na prática promove grande desvalorização.
E isso é uma atitude especialmente negativa em um momento no qual a economia mundial continua deprimida. Ao manter uma política de moeda fraca, a China suga parte dessa demanda inadequada, em detrimento de outros países, e isso prejudica o crescimento em quase toda parte.
O que deveríamos fazer?
As autoridades norte-americanas vêm demonstrando extrema cautela quanto a confrontar o problema chinês, a ponto de, na semana passada, o Departamento do Tesouro, a despeito de expressar "preocupações", ter atestado que a China não está -repito: não está- manipulando sua moeda. Eles devem estar brincando, certo?
E o fato é que esse tipo de cautela faz pouco sentido em um momento como o atual. Suponham que os chineses façam o que Wall Street e Washington parecem temer e comecem a vender parte de suas reservas em dólar. Sob as condições atuais, isso ajudaria a economia dos EUA, ao tornar suas exportações mais competitivas.
Com a economia mundial em estado ainda precário, políticas prejudiciais aos parceiros não deveriam ser toleradas, da parte dos grandes agentes econômicos. É preciso fazer alguma coisa quanto à moeda chinesa.


PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do "New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de PAULO MIGLIACCI