sábado, outubro 31, 2009

Argentina De volta ao sistema bancário internacional

A Argentina bate à porta dos bancos

O governo Kirchner quer renegociar as dívidas do calote
e já se acertou com o FMI. O objetivo é limpar o nome na praça
e obter empréstimos no mercado internacional


Thomaz Favaro

Ali Burafi/AFP

Buenos Aires, 2001
Manifestantes depredam sede de banco depois do "corralito"


As fotos de cidadãos depredando agências bancárias no centro de Buenos Aires são as mais emblemáticas da crise que levou a Argentina a decretar a moratória de sua dívida externa em 2001. Após o bloqueio das contas pelo governo – o corralito –, milhares de argentinos foram às ruas para exigir seu dinheiro de volta e pedir a renúncia do presidente Fernando de la Rúa. Desde então, o país cresceu a taxas altas, apesar de permanecer fora do mercado internacional de capitais, que não costuma emprestar a quem tem fama de caloteiro. Os problemas vieram quando as vacas magras da crise financeira se fizeram sentir nos pampas argentinos. A fim de reforçar o caixa, o governo tentou emplacar em 2008 o aumento do imposto sobre as exportações de grãos, que respondem por 36% do comércio exterior do país. O plano foi barrado no Congresso. Seis meses depois, a presidente Cristina Kirchner assaltou as aposentadorias privadas, estatizando todos os fundos de previdência, para tapar um rombo de 10 bilhões de dólares nos cofres do estado. A medida paliativa não livrou o governo de seus principais problemas: poucas reservas (meros 46 bilhões de dólares), a maior dívida pública da América do Sul (47% do PIB) e nenhum dinheiro em caixa. Agora, Cristina Kirchner sinaliza que os argentinos querem voltar a bater às portas dos bancos – desta vez, gentilmente, para pedir empréstimos.

O primeiro sinal enviado pela Casa Rosada foi o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), firmado no começo do mês, que permite que o organismo faça uma auditoria nas contas do país. A medida abre caminho para o pagamento da dívida de 6,7 bilhões de dólares que a Argentina possui com o Clube de Paris, grupo de dezenove países que financiam nações em desenvolvimento, e que a presidente já prometeu liquidar. O segundo veio na semana passada: o governo anunciou que pretende revogar a lei que proíbe a renegociação da dívida pendente da moratória de 2001. Em 2005, o então presidente Néstor Kirchner, marido da atual governante, renegociou parte da dívida de 95 bilhões de dólares. Três em cada quatro credores concordaram em receber do governo argentino o equivalente a 35 centavos para cada dólar devido. Agora, Cristina Kirchner quer saldar a dívida com os 25% dos credores que rejeitaram o acordo e foram para a Justiça reclamar seu dinheiro. O montante devido é estimado em 20 bilhões de dólares, mais juros de 9 bilhões.

Desde o início da crise mundial, as nações emergentes têm atraído a maior parte dos investimentos estrangeiros. Só neste ano, o Brasil já recebeu mais de 11 bilhões de dólares, segundo estudo do Instituto de Finanças Internacionais. Em comparação, a má reputação da Argentina e as políticas populistas dos Kirchner provocaram uma fuga de 13 bilhões de dólares no mesmo período. Se houver um acordo com pelo menos 60% dos credores, a dívida da Argentina será considerada virtualmente quitada e o país poderá voltar a captar recursos no mercado internacional. As principais agências classificadoras de investimentos já divulgaram que vão melhorar a classificação da Argentina caso a negociação se concretize. Nos últimos anos, a única fonte de financiamento do casal Kirchner no exterior foi a Venezuela. O presidente Hugo Chávez comprou mais de 6 bilhões de dólares em títulos da dívida pública argentina. A generosidade bolivariana tinha seu preço: na última compra, o governo venezuelano cobrou juros anuais de 15%. "Nos mercados internacionais, o governo poderia conseguir financiamentos com uma taxa entre 10% e 12%", disse a VEJA a economista Carolina Schuff, da consultoria argentina Abeceb. Em comparação, o Brasil, que sempre pagou religiosamente seus compromissos, capta dinheiro a juros de 5%.