segunda-feira, janeiro 26, 2009

Um gato chamado ''Prestígio'' Gaudêncio Torquato

O ESTADO DE S PAULO
Alguns olheiros acham que o gato subiu no telhado do Palácio do Planalto. Talvez não, discordam outros, que enxergam apenas um gatinho malhado tentando escalar as majestosas colunas que Niemeyer projetou para serem "leves como penas pousando no chão". Ainda há quem garanta que o bichano subiu ao alto da fachada e está a ponto de escorregar. O gato de Lula se chama "Prestígio" e mia de satisfação todas as vezes que é acolhido com palmas nas ruas. Quem acertará: o gato cairá ou permanecerá no teto? A depender, hoje, da opinião da maioria dos brasileiros, Luiz Inácio continuará com seu gato faceiro, ao lado da cabeceira, e nenhuma ameaça de incêndio ou tempestade será capaz de fazê-lo subir ao telhado. É o que garante pesquisa do Ibope Inteligência em parceria com uma rede internacional de pesquisas, ao mostrar que 79% dos brasileiros apostam no aumento da renda familiar, em 2009, e 34% acreditam que a situação do Brasil vai melhorar nos próximos três meses. O otimismo do brasileiro, que lidera o ranking mundial ao lado dos indianos e dos chineses, indica que o presidente poderá tirar de letra os efeitos da crise e, assim, garantir a "Prestígio" as sete vidas a que todo gato tem direito.

Será? A dúvida se impõe ante a inexorável constatação de que o julgamento do brasileiro é sempre feito na gangorra das circunstâncias. O pensar nacional reflete um caráter indeterminado, intuitivo e flexível, sujeito à pressão dos humores e dos momentos. É capaz de jogar a pessoa simpática de hoje na foto antipática de amanhã, costume que denota uma elasticidade correspondente à folga e ao aperto dos espaços. Sob esta hipótese, a conclusão não deixa margem a dúvidas: a crise terá um custo econômico, social e político. O mundo já sabe e o Brasil começa a descobrir. Pela primeira leitura, crescimento econômico, baixo ou negativo, alta volatilidade dos preços de alimentos e energia baterão na porta de 1,5 bilhão de assalariados em todo o planeta, corroendo salários e causando pânico. Os trabalhadores brasileiros não passarão ilesos. O desemprego abre sua face perversa e o susto já toma conta de Brasília. Em dezembro, o País perdeu 655 mil vagas de trabalho, o pior resultado dos últimos anos. Pífio crescimento em torno de 2% a 2,5%, este ano, não será suficiente para levantar o animus animandi da população. Traduzindo: dinheiro mais caro e bolso dos consumidores mais vazio, desemprego em massa, ajustes produtivos, redução da oferta de produtos e diminuição de investimentos em programas governamentais, entre outros fatores, semearão incerteza, medo, angústia.

A bolha de insegurança social se expandirá, soprada pela cadeia de eventos - que já começam a ocorrer -, ocupando zonas de fratura e tensão, energizando movimentos e promovendo a articulação de forças, que se juntam para reagir aos impactos da crise. Vale frisar que a expressão das margens sociais perdeu ímpeto oposicionista sob o governo Lula, por obra e graça dos programas assistencialistas e da injeção de recursos em movimentos e entidades como MST e centrais sindicais. Mesmo assim, não se pode deixar de considerar a ocorrência de uma pressão centrípeta, que poderá advir de parcela dos 20 milhões de brasileiros que ascenderam à baixa classe média, na esteira do programa de distribuição de renda para famílias incrustadas nas classes D e E. Apesar de o governo prometer manter os recursos para esse estrato populacional, analistas preveem volta da parcela assistida ao patamar antigo por conta de possíveis aumentos da cesta básica e pressões em cadeia. A imagem presidencial poderá ser borrada, exigindo esforço de Lula para conter o grito de marginalizados e de setores médios, que verão corroído seu poder aquisitivo.

Resta saber se Luiz Inácio, usando o gogó e o estoque de carisma, conseguirá enrolar o povo na bandeira do otimismo. A mídia, sob farta locução de economistas, dará vazão aos impactos em série. É nesse instante que o gato aparece no cenário. Aqui, as visões se confundem. A turma que ensaia o hino cívico do otimismo tende a crer que o programa de Lula para blindar a crise evitará a subida do felino no telhado. A blindagem inclui coisas como ampliação do seguro-desemprego, pacote habitacional para baixa renda, redução de juros para casa própria, redução da taxa Selic, desoneração tributária, isenção de impostos na área do agronegócio, liberação de recursos do FAT e do FGTS. Mesmo assim, a banda pessimista ouve barulho nas telhas do Planalto. É provável que a visão mais correta seja a intermediária. Nela se enxerga um clima de turbulência contida.

A contenção do clamor vai depender da eficácia e da destreza com que o governo Lula manejar dois instrumentos: um é o colchão do assistencialismo que faz adormecer as margens sociais; outro é o rolo compressor do PAC, cujos canteiros servirão de espelho para projetar o obreirismo nas faces repaginadas da ministra Dilma. Queiramos ou não, haverá um custo político da crise. Lula poderá saldar débitos e tentar transferir para a candidata parte de seus créditos. O caminho de transferência será, porém, cheio de curvas. O otimista de hoje poderá perder gás e ser o pessimista de amanhã. Se o horizonte está coberto de dúvidas, a estampa da crise exibe algumas certezas. Uma delas: não estaremos imunes à crise. Mesmo que Obama tenha reacendido as esperanças mundiais. Que o "Prestígio" de Lula subirá ao telhado, disso pouco se duvida. É improvável, porém, que despenque. O bicho tem garras para se sustentar no alto. Poderá cair alguns degraus, o necessário para deixá-lo menos autossuficiente e parecido com Ananias Arruda, comendador da Santa Sé, dono de A Verdade, jornal de Baturité (CE). Em tempos idos, essa estrambótica figura puxava a orelha de dignitários mundiais. Condenou a ida de Nixon a Pequim: "Já adverti uma vez os líderes que fazem essas leviandades. A 2ª Guerra Mundial só estourou porque aquele irresponsável do Roosevelt não ouviu minhas ponderações." Lula, na crise, deve ser menos dono da verdade.
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