sábado, janeiro 31, 2009

Investimentos Pé no freio atinge muitos projetos

Não saiu do papel

Retração da economia e seca no crédito mundial fazem
empresas cancelar projetos de investimento no Brasil


Benedito Sverberi e Cíntia Borsato

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Quadro: Faltou dinheiro

O ritmo dos investimentos representa um indicador vital da perspectiva de um país crescer continuamente. É graças ao aumento na capacidade de fabricar mais mercadorias e aos ganhos de produtividade que uma economia consegue avançar, a longo prazo, de maneira sólida e sem inflação. Foi justamente a retomada dos investimentos, com uma expansão superior a 10% nos últimos dois anos, que permitiu a aceleração do crescimento brasileiro. Uma fração expressiva dos recursos aplicados em novos projetos, no entanto, foi financiada com dinheiro externo. Apenas em 2008 o Brasil recebeu 45 bilhões de dólares na forma de investimentos estrangeiros diretos, um recorde. Mas, depois que a crise financeira secou as linhas de crédito internacionais, os empreendedores passaram a ter dificuldades em encontrar os recursos para retirar da gaveta seus projetos. Desde outubro, várias empresas anunciaram o cancelamento de grandes obras, e uma série de outros planos ficará em banho-maria até que a economia mundial recupere seu passo.

Projetos bilionários anunciados com pompa no ano passado, a maior parte deles na área de commodities como minérios e aço, não sairão do papel tão cedo. Em praticamente todas as empresas, a palavra de ordem é cautela. Assim, inevitavelmente, a taxa de expansão dos investimentos recuará em 2009, diminuindo para algo em torno de 3%, preveem os analistas. Mais um sinal de que a economia no Brasil sofrerá uma freada forte neste ano. A Vale, por exemplo, anunciou recentemente o cancelamento da construção da Companhia Siderúrgica Vitória, orçada em 5 bilhões de dólares. A companhia de mineração informou ter acatado uma determinação do sócio majoritário no projeto, o grupo chinês Baosteel. Com a decisão, o país deixará de ganhar uma capacidade anual de 5 milhões de toneladas de placas de aço e 3 000 empregos não serão mais criados. A justificativa é que, como a maior parte da produção seria destinada ao exterior, o projeto deixou de ser atrativo neste momento.

O primeiro entre os grandes projetos suspensos, pelo menos por ora, em razão da virada na conjuntura externa foi o Porto Brasil, em Peruíbe, no Litoral Sul de São Paulo, abortado em outubro do ano passado. Trata-se de um empreendimento grandioso da LLX Logística, do empresário Eike Batista, que englobaria uma ilha artificial de 500.000 metros quadrados. Com a revogação, o país perde (ou ao menos adia) uma obra de infraestrutura que, quando pronta, terá capacidade de movimentar 50 milhões de toneladas por ano – cerca de 60% do volume no Porto de Santos. Outro setor bastante afetado pela crise foi o de produção de etanol e açúcar. Foram canceladas as obras de construção de duas dezenas de usinas, num valor total de 2 bilhões de dólares. Sentiram o impacto da crise também investimentos em celulose, petróleo e produção de carros (veja o quadro). Afirma o economista Edward Amadeo, ex-ministro do Trabalho e sócio da Gávea Investimentos: "O Brasil não está isolado do mundo. É claro que sofrerá consequências, ainda que existam fatores que nos ajudam bastante, como o fato de nosso sistema financeiro estar intacto. Mas haverá uma retração forte tanto no comércio internacional quanto nos fluxos de capitais estrangeiros".

Fotos Marcio Fernandes/AE e Filipe Araujo/AE

O DRAMA DO EMPREGO A americana Caterpillar cortou 20 000 vagas no mundo, sendo 380 postos na unidade do Brasil (à esq.); ao lado, operários aprovam a redução da jornada na ƒábrica de autopeças Valeo

Mas nem todos os grandes projetos de investimentos foram atingidos. Obras importantes não apenas seguem de pé como deverão ficar prontas dentro do cronograma. Esse é o caso da Companhia Siderúrgica do Atlântico, um empreendimento liderado pelo grupo alemão ThyssenKrupp, no bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Estão sendo investidos ali 6 bilhões de dólares. Trabalham atualmente 22 000 pessoas no canteiro de obras do complexo, e a empresa tem contratado 100 pessoas por mês para fazer parte do time de 3 500 funcionários que serão necessários para a operação da usina de aço quando ela estiver pronta, no fim do ano. Já a montadora japonesa Toyota manteve seus planos de erguer uma fábrica em Sorocaba, no interior de São Paulo, apesar de a matriz ter decidido suspender projetos similares em outros países. Orçada em 1,2 bilhão de reais, a unidade produzirá a partir de 2011 cerca de 150 000 veículos ao ano, criando 5 000 empregos. A Petrobras, por sua vez, teve de deixar de lado alguns projetos, como a encomenda das plataformas P-61 e P-63. Mas a companhia decidiu ampliar, como um todo, seus planos de investimentos para os próximos cinco anos, que deverão totalizar 174 bilhões de dólares no período. A incógnita, aqui, é se a empresa conseguirá ter acesso ao financiamento internacional necessário à viabilização de suas metas, porque nem mesmo o previsto aumento de desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) será suficiente para fazer frente a esse plano ambicioso.

De qualquer maneira, o cancelamento de projetos e a desaceleração do aumento no consumo farão com que a economia brasileira cresça numa velocidade mais lenta em 2009. Um dos reflexos dessa realidade começa a ser sentido com mais intensidade no mercado de trabalho. Recentemente, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, informou que 655.000 vagas com carteira assinada foram fechadas em dezembro, o pior número desde 1999, quando o levantamento passou a ser feito. O setor mais afetado foi a indústria, que perdeu mais de 270.000 postos. Em seguida, vieram a agropecuária e a construção civil. "Os resultados negativos revelam uma queda nas contratações e também que poucos empregos temporários, tipicamente criados no fim do ano, foram efetivados", afirma Fábio Romão, da LCA Consultores. Uma pesquisa do economista faz uma análise das perspectivas para o emprego em 2009. Pelas projeções do analista, alguns dos setores que deverão continuar fechando vagas são os de mobiliário, calçados e construção civil. A saída, para certas empresas, tem sido negociar com os funcionários a redução temporária da jornada e dos salários, um mal menor diante da necessidade de ajuste aos novos tempos.

Uma maneira eficiente de o governo atenuar os efeitos internos da tragédia financeira que acontece lá fora seria incentivar os investimentos – não torrando dinheiro público, e sim reduzindo a burocracia e diminuindo o chamado custo Brasil. O país segue como um dos mais fechados do mundo e oferece um dos piores ambientes institucionais para fazer negócios. Até 2008, a despeito desses entraves, a economia brasileira conseguiu atrair níveis inéditos de investimentos internacionais. Mas isso é passado. A bolha financeira estourou, e os capitais tornaram-se escassos. A partir de agora, o jogo entra em uma nova fase, mais difícil e competitiva. Os recursos disponíveis serão disputados acirradamente. Ganharão aqueles países que apresentarem as melhores chances de rentabilidade. Em meio a essa disputa, no entanto, o governo transmitiu uma mensagem extremamente negativa na semana passada ao adotar uma norma protecionista e anacrônica, destinada a restringir as importações. Essa medida acabou suspensa por ordem do presidente Lula (leia a Carta ao Leitor, na pág. 14), mas não sem deixar um clima de insegurança entre as empresas. Não será com medidas retrógradas assim que os projetos de desenvolvimento voltarão a sair do papel.

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