domingo, fevereiro 24, 2008

Daniel Piza

Cuba sem causa

sinopse

Algumas frases se tornaram automáticas quando se trata de opinar sobre Cuba e, por incrível que soe, muitas vezes são comuns a ambos os lados do espectro ideológico que sobrevive à Guerra Fria. Depois da renúncia de Fidel Castro, divulgada na terça-feira passada, reapareceram com força em rádios, TVs e jornais. Uma delas, que ouvi do hoje presidente Lula em Havana em novembro de 2000, diz que ''''Cuba tem pouco, mas pelo menos distribui o pouco que tem''''. Mesmo pessoas cientes do fiasco socialista acreditam que isso seja um fato.

Na verdade, Cuba tem muito pouco. Se não fosse pelo dinheiro que sistematicamente recebeu da antiga União Soviética durante décadas, estaria bem pior. Estive lá nove anos depois do fim dessa ajuda, e a pobreza e a decadência não poderiam ser mais visíveis. Faltam remédios e alimentos, as habitações são cortiços, há muita prostituição (''''Cinco dólares, señor'''' era abordagem corriqueira nas ruas), a moeda local é uma fantasia e o país parece viver suspenso no tempo, com seus Buicks da idade da Revolução.

De um tempo para cá, Hugo Chávez tem enviado petrodólares. Fidel Castro, admirador juvenil de beisebol e Lincoln, passou a vida impregnando ódio e medo do inimigo externo - como fazem todos os ditadores -, mas não lamentava depender tanto dos outros. Aqui vem outra frase recorrente: ''''Há o embargo econômico dos EUA.'''' Bem, acho o embargo uma tolice, pois os EUA não deveriam dar tanto peso simbólico a Cuba e a crise dos mísseis já foi há mais de 35 anos; mas, se Cuba é tão desenvolvida, por que reclama tanto do embargo?

O desenvolvimento de Cuba costuma ser argumentado com base em números de saúde (como a baixa mortalidade infantil) e educação (analfabetismo zero) que países como o Brasil ainda não tiveram vergonha na cara para atingir. Mas, além de não serem números confiáveis, pois se trata de uma ditadura (e uma estudante de medicina do MST lá me citou uma ''''doença cardíaca'''' entre crianças), quem disse que é preciso se mirar em Cuba por tais exemplos?

''''Que país pode dizer que ninguém vê crianças de rua? Nem Brasil, nem EUA'''', disse outro dia Fernando Morais na CBN. Bem, eu sei de vários: Finlândia, Austrália, Alemanha, Chile... Além disso, não dá para comparar países com a dimensão e a desigualdade de Brasil e EUA com uma ilha caribenha dependente, com menos habitantes do que a cidade de São Paulo. Acima de tudo, Cuba é um estado policial. Aglomerações são dispersas nas ruas, os discursos de nove horas de Fidel são obrigações escolares e o que mais chama a atenção do visitante é o número enorme de outdoors com frases de efeito dele, Martí e do ícone pop Che, numa lavagem cerebral que George Orwell satirizaria.

Nada disso significa que os tempos de Fulgencio Batista eram melhores ou que a ilha não tenha seus charmes como mojitos, praias, lagostas, charutos, canções e a própria história. Só que nada disso pode ser confundido com justiça social. Raúl Castro, como previsto, falou em seguir o exemplo chinês (China e Venezuela são os países que mais investem lá) de abertura econômica sem abertura política. Esqueceu um ''''detalhe'''', o de que a China é um país maior, mais industrializado e mais naturalmente rico; Cuba vive de exportar açúcar e tabaco e do turismo, essa expressão do consumismo americanizado alienante...

''''Cuba mostrou que outro mundo é possível'''', diziam os participantes do Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Em poesia, tudo cabe. O fato é que Fidel, mais antigo governante do mundo até 19 de fevereiro de 2007 e autor da famosa frase ''''A posteridade vai me absolver'''', tem tanto apego ao poder que tratou de organizar sua própria retirada dele. Mas ninguém controla o futuro, e os românticos já não convencem o mundo de que ''''matar e morrer por uma causa'''' é bonito.

CADERNOS DO CINEMA

Hoje é noite de Oscar e, dos três filmes com mais indicações, só me faltava ver Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson . É um filme muito bom, mas não excelente, o que tem em comum com os outros dois, Desejo e Reparação, de Joe Wright, e Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen, além das grandes atuações. Outra coisa em comum é o tom épico, ou melhor, o diálogo com o épico, cada qual a seu modo. O filme de Wright, embora menos intimista do que o livro de Ian McEwan, nada tem de triunfalista em sua história de conflitos sociais e punições morais. Os Coen revertem o épico, com seu vilão apocalíptico confrontado por vilões inferiores. Por ser o menos convencional e ter as melhores falas, é meu preferido.

Não que Sangue Negro seja convencional, muito menos triunfal. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é uma figura que, apesar de momentos em que parece ser amorosa ou caridosa, é inevitavelmente desagradável, opaca, viscosa como o óleo que extrai do solo seco. A história, de Upton Sinclair, é típica da literatura realista americana dos anos 30, representada em especial por A Tragédia Americana, de Theodore Dreiser. Vê-se o conflito entre ambição econômica e espiritual que moldou a América, o atrito entre materialismo e idealismo que até hoje impulsiona a energia do mais rico dos países. Não à toa que, toda vez que ele e o pastor se encontram, o filme ganha força.

Há outras características muito interessantes. A abertura do filme não tem uma fala; ouvem-se apenas os ruídos do trabalho de Plainview, das picaretadas na rocha até o jorro de petróleo, e depois entra a trilha sonora de Johnny Greenwood, o guitarrista do Radiohead, cheia de dissonâncias (rompendo um dos clichês mais duradouros do cinema, a sincronia entre som e imagem). Há a história do suposto irmão de Daniel, com quem se permite uma abertura à intimidade que até então não conseguira, confessando que sua competitividade só o faz ver o pior nas pessoas. E há a relação com o garoto, tão aflitiva.

O filme poderia ser menos lento e seu final menos caricatural, menos ''''grand guignol''''. De resto, tal gosto pelos efeitos - que poderia ser batizado de ''''efeitismo'''' - parece afetar muitos da atual geração de cineastas, não sei se pela facilidades técnicas e/ou pelos dilemas criativos. Há um maneirismo, uma certa afetação na linguagem dos filmes em voga, como se buscassem a grandeza pelo excesso. Mas o trio que disputa o Oscar hoje tem vigor e qualidade que não podem ser menosprezados.

POR QUE NÃO ME UFANO (1)

Comentei na semana passada que as críticas negativas a Tropa de Elite em jornais europeus e americanos iam na mesma linha das brasileiras, ao contrário do que se dizia. No mesmo dia, o filme de José Padilha ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim. Como a mentalidade local é ainda muito provinciana (eu ia dizer ''''colonizada'''', mas não vivemos em tempos coloniais), houve quem visse na conquista uma espécie de resposta aos críticos, como se fosse necessário um aval do exterior. Mas o júri do prêmio, presidido por Costa Gravas, não passa de outro grupo de críticos, que por sinal não foram unânimes.

O filme tem qualidades: é ágil e eficiente e tem a grande atuação de Wagner Moura. O júri viu nele uma denúncia da violência policial, mais que a exaltação de uma tropa dita incorruptível. Eu continuo achando que lhe falta ambivalência, especialmente a partir das cenas do recrutamento. Ele foi mudado em função de pesquisas de opinião para agradar ao público, para que fosse mais acelerado em alguns trechos - como Cidade de Deus - e tivesse Wagner Moura como protagonista. Central do Brasil também ganhou em Berlim, mas sigo vendo nele os problemas que vi. Brasileiros lidam mal com divergências.

POR QUE NÃO ME UFANO (2)

O mesmo vale para a popularidade de Lula, que agora só perde para os primeiros meses de seu governo em 2003. Muitas pessoas vêem nisso a demonstração de um sucesso acima de qualquer crítica, inclusive aquelas que sabem que o crescimento econômico tem sido garantido pelo bom momento mundial. É curioso, porque velhos aliados de Lula não querem esse tipo de associação, como a professora Marilena Chauí, que disse que ''''competência é um conceito burguês''''. Talvez ela saiba que qualquer outro presidente que mantivesse a política econômica e social, em linhas gerais, seria popular em época de ventos favoráveis? Não, ela realmente não dá valor a esse ''''conceito''''...

E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br


Aforismos sem juízo
De meias-verdades o inferno está cheio.


''''Acima de tudo, Cuba é um estado policial. Aglomerações são dispersas, e discursos obrigações escolares''''

''''Uma coisa em comum entre os três filmes com mais indicações ao Oscar é o diálogo com o épico''''