domingo, fevereiro 24, 2008

AUGUSTO NUNES- SETE DIAS

O general que sempre vence

A Batalha de Tailândia, travada terça-feira numa das frentes paraenses da Guerra da Amazônia, comprovou que no Brasil - e só no Brasil - duas tropas em conflito podem ter o mesmo general. Estimulados pelo que o comandante Lula disse numa reunião no Planalto, o batalhão de fiscais do Ibama e funcionários estaduais marchou sobre o município a 235 quilômetros de Belém para "acabar com o desmatamento ilegal". Excitados pelo que o comandante Lula disse na visita à Guiana Francesa, os devastadores da floresta mobilizaram um exército para enfrentar os invasores.

Como Lula, os madeireiros "não são daqueles que defendem a Amazônia como um santuário da Humanidade". Nunca foram, informam as balsas atulhadas de madeira de lei que param de descer os rios da Amazônia. No Pará, os estupradores da mata são tão numerosos e vorazes que freqüentemente faltam balsas para tanta carga. Centenas de toras esperam o embarque em galpões espalhados por cidades que têm na destruição da floresta a única fonte de renda. É o caso de Tailândia. Fundada há 40 anos, nasceu numa clareira criminosamente aberta e hoje ocupa 4.440 quilômetros quadrados.

Nesse pedaço roubado da selva aglomeram-se 67 mil habitantes, cuja sobrevivência depende da extração de madeira, das serrarias, das carvoarias e das fábricas de móveis. Habituados a pecar sem castigo, surpreenderam-se com a apreensão, há 10 dias, de 13 mil metros cúbicos de toras estocadas numa serraria.

Os donos das madeireiras temeram pelo fim da mina de ouro verde. Convencidos de que o episódio fora a pré-estréia da Operação Arco de Fogo, que a Polícia Federal desencadearia no dia 21, os coronéis do desmatamento deduziram que a grande ofensiva seria para valer. E resolveram atacar primeiro.

Não foi difícil mobilizar os soldados da resistência. Os patrões lembraram que alguns arbustos a mais significam centenas de empregos a menos. E decerto invocaram, no trabalho de recrutamento, os argumentos do comandante Lula. O que a gente da Amazônia quer é emprego, carro, comida, geladeira, televisão e outras urgências. As árvores que esperem - cortadas, de preferência.

Ao aproximar-se da cidade, o pequeno batalhão de funcionários do Ibama e da Secretaria do Meio Ambiente foi emboscado por 10 mil profanadores de santuários, que haviam bloqueado estradas e ruas. Prédios e carros s foram incendiados. Acuada pelos guerrilheiros tailandeses, a tropa escalada para a conquista das toras bateu em retirada. "A madeira apreendida será retirada", garantiu a governadora Ana Júlia Carepa. Quando? "Pode demorar 15, 40, 60 dias", rendeu-se.

A Polícia Federal preferiu adiar o início da ofensiva que a selva espera há quase 100 anos. "Dados da inteligência recomendaram uma readequação dos nossos planos", confundiu Luiz Fernando Corrêa, diretor da PF. Lula reagiu com o silêncio superior do comandante que, fosse qual fosse o desfecho da Batalha de Tailândia, sairia no lucro.

Se os defensores da Amazônia ganhassem, seria vitorioso o Lula que conheceu a importância de um cipó ainda menino, quando viu o primeiro filme do Tarzan. Como os madeireiros venceram, foi vitorioso o Lula que prefere o ronco de uma motosserra a qualquer sinfonia de Beethoven.

Cabôco Perguntadô

Disposto a revidar a afronta sofrida pela Petrobras, o governo ordenou aos arapongas federais que descubram quem furtou de um contêiner computadores e outras peças com informações altamente sigilosas sobre a Bacia de Santos. O Cabôco sugere aos detetives do Planalto que comecem o serviço em casa, repassando aos chefões da Petrobras as perguntas feitas pelo leitor Wilson Gordon Parker. Por que uma carga de tamanha relevância foi enfiada no porão de um navio para a viagem entre Santos e Macaé? Não seria mais sensato confiar o transporte do material a um executivo da empresa, devidamente escoltado por agentes de segurança? E qual é o nome do diretor que decidiu que a pior opção era a melhor?

Livro cura ressaca de samba-enredo

O samba-enredo veio para explicar. Passou a só confundir no momento em que as escolas da Sapucaí resolveram condensar em menos de 30 versos, costurados por um balaio de compositores, o que não caberia sequer numa ópera de cinco horas. Neste carnaval, por exemplo, quem ouviu a cantoria sobre os 200 anos da chegada da corte portuguesa pode estar achando que Rogéria, Maria I e a rainha Louca são a mesma pessoa. Ou que dom João VI era dono de granja.

Não é difícil compreender, num tempo inferior ao consumido em duas noitadas no Sambódromo, como foi esse capítulo histórico que mudou o país. Basta ler 1808, do jornalista Laurentino Gomes. É um grande livro.

Um veterano das guerras do futebol

Rodrigo Pinho, procurador-geral de justiça de São Paulo, qualificou de "fascista" a idéia, concebida e executada pela OAB, de divulgar uma lista com os nomes dos promotores públicos que a sigla considera "inimigos dos advogados". Rubens Approbato Machado, ex-presidente da OAB, foi à réplica no site Consultor jurídico. "Aonde (o certo seria onde, mas o advogado dos bacharéis não tem tempo a perder com livros de regências) estavam o Ministério Público de São Paulo e Rodrigo Pinho quando o Brasil enfrentou dias sombrios patrocinados por verdadeiros governos fascistas?", começa o artigo. As linhas seguintes deixam claro que Approbato quer saber o que fizeram os desafetos para impedir os crimes praticados pela ditadura militar entre 1968 e 1975, no clímax da era do horror.

Rodrigo Pinho não fez nada. Nem poderia: tinha 9 anos quando o pesadelo começou, era adolescente quando as fagulhas da abertura política riscaram a escuridão. No Ministério Público, alguns capitularam, muitos souberam honrar a instituição. O promotor Hélio Bicudo, por exemplo, botou na cadeia o delegado Sérgio Fleury, o mais brutal dos torturadores.

Também na OAB houve os que apoiaram a ditadura e os que se uniram à resistência democrática. Approbato não fez uma coisa nem outra. Quando o AI-5 foi decretado, o advogado de 35 anos estava na direção do Corinthians. Preferiu concentrar-se na guerra do futebol, mostrou muita bravura em combate e virou coronel da cartolagem. Approbato só começou a lutar contra a ditadura quando a ditadura acabou.

Yolhesman Crisbelles

Além de declarações cretinas e textos sem pé na cabeça, o troféu também homenageia congressistas que sabem trocar insultos sem ferir o decoro parlamentar. Os vencedores da semana foram os senadores Mário Souto (1ª e 3ª frases) e Gilvan Borges (2ª e 4ª), pelo seguinte diálogo:

- V. Exa. é um safado!

- Seu vagabundo, amanhã a sua máscara vai cair e essa palhaçada vai acabar!

- Vou fazer você entender que, neste lugar, ninguém cala a boca de ninguém!

- Você não gosta de mim porque eu uso sandálias!

A conversa foi interrompida pela senadora Kátia Abreu. "Apartei porque não vi nenhum homem por perto", explicou.