sexta-feira, dezembro 28, 2007

Paquistão O assassinato de Benazir Bhutto

O caos chamado Paquistão


Duda Teixeira e Fábio Portela

Despedida: Benazir Bhutto em comício, minutos antes de ser assassinada

Às portas da II Guerra Mundial, o estadista inglês Winston Churchill descreveu a União Soviética como "uma charada envolta em um mistério dentro de um enigma". Com suas lutas intestinas violentas, uma ditadura militar infiltrada por extremistas islâmicos e ogivas nucleares prontas para ser disparadas, o Paquistão oferece o mesmo grau de dificuldade para ser decifrado – com a agravante de que o pavio está aceso. O retorno da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto ao país, em outubro, para concorrer às próximas eleições parlamentares, sinalizava a possibilidade de o país vir a ter um respiro democrático, capaz de se contrapor ao crescente fanatismo religioso. A esperança acabou abruptamente no fim da tarde da última quinta-feira, dia 27. Depois de participar de um comício em um parque da cidade de Rawalpindi, vizinha à capital Islamabad, Benazir, de 54 anos, deixava o local quando um desconhecido se aproximou. Ele sacou um revólver e disparou dois tiros contra a ex-primeira-ministra, que acenava para a multidão do alto do teto solar do carro. Segundo um segurança, uma bala atingiu o pescoço e outra o peito de Benazir. Em seguida, o atirador detonou uma bomba que trazia junto ao corpo, matando a si e a outras vinte pessoas. Benazir foi levada ao hospital da cidade, onde médicos tentaram reanimá-la por 35 minutos, sem sucesso. Às 18h16 do horário local, os médicos declararam sua morte. O Paquistão foi parar mais uma vez à beira do caos.

"Testemunhas contam que os extremistas usaram uma criança-bomba vestida com as cores do meu partido. Eles a jogaram sobre nosso caminhão. A explosão matou 158 pessoas."
Benazir Bhutto, à CNN, sobre o primeiro atentado contra ela no dia de sua volta ao Paquistão

O atentado à personalidade mais popular do país, líder do único partido de alcance nacional do Paquistão, já havia sido anunciado por grupos islâmicos radicais ligados ao Talibã. São eles os principais suspeitos de sua morte. Quando Benazir comunicou sua volta após oito anos de exílio em Dubai e em Londres, muitos de seus partidários a desaconselharam a fazê-lo, alegando absoluta falta de segurança, mas ela não cedeu da decisão. Logo no dia de sua chegada, quando se preparava para fazer uma carreata pelas ruas de Karachi, a maior cidade paquistanesa, foi impedida por um ataque terrorista. Uma explosão matou cerca de 150 pessoas. Benazir, que estava em um caminhão blindado, saiu ilesa. A ambição de tornar-se pela terceira vez primeira-ministra também não agradava ao presidente Pervez Musharraf, a quem dirigia críticas constantes. O general, que tomou o poder em um golpe de estado em 1999, comanda o país com mão-de-ferro. Em outubro, tornou-se presidente em eleições fraudulentas e, por causa das pressões americanas, permitiu que Benazir voltasse do exterior. Um mês depois, porém, Musharraf decretou estado de emergência. Tirou canais de televisão do ar e manteve a candidata presa em sua própria casa por uma semana. Só recuou após receber novas pressões dos Estados Unidos.

Fotos Aamir Qureshi/AFP
Partidário da ex-primeira-ministra chora em meio aos corpos: atentado à democracia

A vida de Benazir está intimamente atrelada à história de seu país. Seu pai, Zulfikar Ali Bhutto, foi um dos políticos mais populares de sua geração. Na década de 70, chegou a ser presidente e primeiro-ministro. Muito ligado ao Ocidente, representou o Paquistão nas Nações Unidas e também ocupou o cargo de ministro das Relações Exteriores. Educado e entusiasta da democracia, fundou o Partido Popular do Paquistão, o PPP. Organizou um governo nacionalista, em que os militares não exerciam influência. Nesse período, Benazir estudou nas universidades Harvard e Oxford, onde aprendeu filosofia, ciências políticas e economia. Em 1977, ano em que obteve sua segunda graduação, o Exército rebelou-se e depôs seu pai. Zulfikar foi preso, acusado de encomendar o assassinato de um adversário político. Acabou condenado à morte dois anos mais tarde. Herdeira do legado político do pai, em 1979, Benazir tornou-se líder do PPP, atualmente o maior grupo de oposição. Anos depois, em 1988, ela passou a ser a primeira mulher na história moderna a comandar uma nação islâmica.

Warrick Page/Getty Images
Faisal Mahmood/Reuters
Uma multidão leva o caixão com o corpo de Benazir. À direita, o presidente Musharraf: um novo Afeganistão?

Apesar de se identificar com valores seculares e ocidentais, Benazir casou-se com Asif Ali Zardari, numa união arranjada pela mãe dela. Benazir dizia que isso era absolutamente normal para uma paquistanesa, ainda que moderna e bem instruída como ela. Sua carreira política exibia manchas. Nas duas vezes em que foi eleita primeira-ministra, Benazir teve de sair do poder, acusada de corrupção e desvio de dinheiro. A figura mais controversa de sua equipe ministerial era seu próprio marido. Amante do pólo, ele é um bon vivant que mantém casas em Londres, Nova York e Dubai, onde passa a maior parte do tempo. No segundo governo de Benazir, Zardari foi ministro dos investimentos. Credita-se a ele o desvio de 1,5 bilhão de dólares dos cofres públicos, com a cumplicidade de sua mulher. A acusação rendeu dezoito processos judiciais ao casal. Zardari passou oito anos preso.

Com a morte de Benazir, abre-se um vácuo em um país carente de lideranças. Dois de cada três paquistaneses desejam a renúncia imediata do presidente Musharraf. Entre os fatores que contribuem para sua impopularidade, estão o aumento no preço dos alimentos e a impotência em conter o fanatismo islâmico. Desde os atentados em Nova York, em 2001, Musharraf atua de forma dúbia. Ao mesmo tempo que colabora com os Estados Unidos na identificação de terroristas, é negligente no controle do território paquistanês. Nas áreas próximas ao Afeganistão, grupos muçulmanos radicais ligados à Al Qaeda e ao Talibã agem livremente e planejam ataques em outros países.

"Com a morte de Benazir, o Paquistão torna-se ainda mais perigoso que o Irã", disse a VEJA o israelense Ely Karmon, do Instituto de Contraterrorismo de Herzlia, em Israel. "É um país fora de controle e, pior, com um arsenal atômico." Os Estados Unidos, que apoiavam um acordo entre Benazir e Musharraf na esperança de contar com um aliado menos fragmentado na região, serão obrigados a refazer sua estratégia. As eleições que estavam agendadas para o próximo dia 8 correm o risco de ser adiadas. O outro candidato de oposição, Nawaz Sharif, já disse que seu partido vai boicotar o pleito caso Musharraf não renuncie. Em diversos pontos de Karachi, uma centena de carros foi incendiada e catorze pessoas morreram nos conflitos. O atentado da última quinta-feira tornou explosiva uma situação instável. O que vai ocorrer agora? Essa é uma charada atômica envolta em um mistério dentro de um enigma.

B.K. Bangash/AP