| Artigo - Antonio Carlos Lemgruber |
| Jornal do Brasil |
| 21/12/2007 |
Assim como as chamadas "esquerdas" ficavam irritadíssimas com o excepcional crescimento do Brasil durante o período 1968-1973 (mais de 10% ao ano) - por causa da ditadura militar - tudo indica que estamos assistindo agora de certa forma precisamente à situação oposta: os chamados partidos conservadores estão chateados, digamos assim, com a excelente performance da economia brasileira em 2007 e provavelmente 2008/2010. Além da inflação permanecer baixa - herança do Plano Real, sem dúvida alguma - há diversos indícios de que a partir do segundo semestre de 2007 e certamente no triênio 2008/2010 podemos crescer de novo a 7% ou 8% ao ano. É isso mesmo. Claro que existem preocupações com o gasto público, com a carga tributária, com a taxa de câmbio e com as taxas de juros, mas o fato é que parece estar havendo finalmente um "milagre brasileiro" novamente - assim como 1968-1973 - graças ao fim definitivo da memória inflacionária. O crédito se expande a mais de 20% ao ano. Há oferta de crédito de longo prazo a taxas fixas. Assim como o milagre brasileiro de 1968-1973 foi certamente beneficiado pelas reformas do PAEG de Bulhões, Campos e Kafka (que acaba de falecer) em 1964-1966, com certeza o milagre brasileiro de 2007/ 2010 será beneficiado pelo Plano Real e pelas privatizações do governo FH e até mesmo por certas medidas de abertura econômica lá do início da década de 90 (Collor). Curiosamente, há semelhanças também entre 1968-1973 e 2007- 2010 no descompasso entre o crescimento brasileiro e do resto do mundo. O início da década de 70 assinalou a primeira crise do petróleo e o Brasil foi até chamado de "ilha de prosperidade". Agora também tudo indica que os EUA vão entrar em recessão, mas a pujança do mercado interno brasileiro e o baixo coeficiente de exportações de uma economia continental como o Brasil irão mais uma vez minimizar os choques externos negativos. O fato é que o mercado de capitais e o mercado de crédito estão finalmente florescendo no Brasil em 2007-2010 assim como aconteceu de certa forma em 1968-1973. É o segundo grande salto qualitativo do mercado financeiro. Pode-se dizer "lucky Lula" da mesma forma que se podia dizer talvez "lucky Médici". Talvez uma diferença até a favor do momento atual é que (ao contrário do que dizia Médici) a economia vai bem e a distribuição de renda está melhorando. Não se deve esperar 10% de crescimento, mas é perfeitamente razoável esperar 7% a 8% nos próximos anos. |