domingo, dezembro 30, 2007

DANIEL PISA

O Estado de S. Paulo,

Depois do checápi

sinopse


Estes tempos de virada de ano são supostamente mortos, tempos de ócio e não de ação, de balanço e não de batalha, e há a conhecida e irônica frase de Drummond sobre a genialidade de cortar o tempo em fatias de 12 meses para que se renovem as esperanças. Não dá para conter a contabilidade das metas atingidas, a sensação de fazer uma pausa na correria, o inevitável convite para retrospectivas e veraneios. Mas, pelo mesmo motivo, embora em outro ciclo, há também um gosto de rotina em tudo isso; todo ano é a mesma patacoada sobre fé e futuro e a mesma ilusão de que a vida possa ser menos corrida. Em vez de conviver com a velocidade, prefere-se sonhar que ela seja abolida.

Neste ano, por sinal, fiz no Fleury meu primeiro check-up e soube que os poucos problemas não eram sérios. Me disseram que o simples ato de fazê-lo levaria a uma revisão do que vivi e não vivi até aqui, mas isso não aconteceu. Os triglicérides estavam altos e o risco de doenças cardiovasculares era 2%, o que o alarmismo dos tempos trata sempre de ampliar. Cortei doces, perdi meia dúzia de quilos em três meses e as taxas se normalizaram. Também fiquei sabendo que tenho um coração diferente, com um padrão chamado Wolff-Parkinson-White, presente em menos de 0,5% da população. (Posso ouvir meus detratores, que tanto me acusam de ser frio e crítico demais, dizendo: "Tá explicado"...) Não passa de um desvio no circuito elétrico do coração, em meu caso sem arritmia. Descomplicar a existência é melhor para a saúde do que qualquer feriado.

Tive, afinal, um ano muito bom em vários aspectos, cheio de desejos realizados e descobertas prazerosas, nesse equilíbrio frágil - todo equilíbrio é frágil - entre o que se pode e o que não se pode programar. É claro que tenho meus planos, para 2008 e para depois, mas procuro não fazer como a maioria que nunca está no momento em que está, que nunca vive o agora e só o antes e o depois, que não se abre aos acasos felizes da vida. Eu, por exemplo, acabo de ser premiado com a releitura dos textos de Jorge Luis Borges, de contos como os de Ficções e ensaios como os de Outras Inquisições. A contingência fez um laço de presente entre passado e futuro.

Borges, que peregrinei até o Masp para ver em 1984, foi enorme admiração de juventude, depois passei um período cansado dele e, de alguns anos para cá, penso nele cada vez mais. Ele é breve e denso e, muito influenciado pela literatura de língua inglesa (Chesterton, Shaw, Poe, Stevenson), desdenha o barroquismo e o croniquismo dos latinos. É antinacionalista por definição. Seu interesse é a filosofia, em especial a metafísica, e sua obra não se reduz à imagem que se tem dele como um pós-moderno dedicado a jogos de linguagem, colagens de citações, charadas eruditas - como se a biblioteca fosse o mundo e não sua metáfora. Faz sérias restrições a alegorias e a exercícios combinatórios. É um cético e seu alvo é a pretensão idealista de tudo nomear e classificar, de se sentir "senhor da percepção abstrata do mundo" e "senhor de um tesouro intacto e secreto", como seus personagens se sentem.

O máximo de ordem, como em Kafka, significa a imobilidade, a paralisia, pois o tempo é uma sucessão irreversível, da qual as idéias participam sem jamais poder dar conta; indivíduos pertencem a uma espécie e, como tal, trazem inscritos seus instintos e sua história, num eterno e insolúvel conflito entre arquétipos e circunstâncias. Pode ver como em seus relatos - não só em O Jardim das Veredas Que se Bifurcam, mas também em O Sul, que considerava seu melhor conto porque pode ser lido como narração direta e também ensaio filosófico - há sempre uma tomada de decisão pressionada pela mortalidade. Não é possível não fazer opções - eis seu recado maior. Borges serve, como poucos, para lembrar que tempos mortos não existem.

RODAPÉ

É comum a confusão entre perfil e biografia no Brasil. Perfil não é uma biografia compacta, embora possa conter todas as informações principais a respeito da vida que narra; perfil é um recorte dessa vida, a opção por um ângulo de abordagem. Em Joaquim Nabuco (Companhia das Letras, coleção Perfis Brasileiros), a socióloga Angela Alonso parece querer contar tudo sobre seu personagem no menor espaço possível, mas precisou de 379 páginas. O texto apressado, indefinido entre o formal e o informal, termina sem dar o devido peso relativo aos atos e fatos, o que se exigiria também de qualquer biografia. Há episódios importantes como o debate com Alencar e a amizade com Machado que mereceram apenas alguns parágrafos. As poucas tônicas dominantes não fazem justiça a Nabuco, rara figura pública na história política do Brasil, além de prosador admirável, autor de obras-primas como Minha Formação, O Abolicionismo e Um Estadista do Império.

As tônicas se referem a seus modos e gostos aristocráticos, elitistas, que seriam a explicação para sua eminência na campanha pela abolição. É como se Quincas, o Belo, que passou metade da vida viajando e tendo diversos casos amorosos, só tivesse se destacado por sua aparência, eloqüência e "senso de oportunidade". Não; o que fez de Nabuco o representante maior do movimento foi o fato de ser o mais preparado, agudo e ético de todos. Ele lutou pelo fim da escravidão mesmo ciente de que a monarquia - a qual defendia com argumentos que, numa perspectiva de época, são plausíveis, ainda que discordemos - poderia ruir junto. A "dignidade humana", escreveu, está acima de ideologias. E ele captou pioneiramente que a cultura escravista sobreviveria na forma oligárquica como se comporta o poder à moda da casa - observação que, às vésperas de 2008, não poderia ser mais atual.

CADERNOS DO CINEMA

Os fantasmas de Goya, título original de Sombras de Goya, pouco aparecem no filme de Milos Amadeus Forman. Há desde o princípio um problema de elenco, porque Stellan Skarsgard não convence no papel do mordaz pintor espanhol e a bela Natalie Portman menos ainda como Inés, modelo sua que é presa pela Inquisição. Javier Bardem faz o padre, Lorenzo, que se envolve com ela; a grande cena é dele, quando pressionado pela família da moça. Mas a história é folhetinesca demais, um rocambole cheio de "acasos" hollywoodianos, e, por sinal, é mais um caso de trailer melhor do que o filme.

DE LA MUSIQUE

Escutar de novo as canções de Clube da Esquina, de Milton Nascimento, dá prazer e pensar. Relançados agora em caixa com três CDs, os dois discos - de 1972 e 78 - reivindicam, como diz o próprio Milton, um lugar melhor na tal "linha evolutiva" da MPB, na qual sempre ficaram em segundo plano em relação a movimentos como a Tropicália. Há neles um cultivo da harmonia raro na música nacional, digno de Caymmi, Tom Jobim, Edu Lobo e poucos mais. O primeiro disco tem orquestrações de Wagner Tiso e Eumir Deodato, o que já diz muito.

Apesar de não ter passado por remasterização como Tom & Elis (pois a matriz não foi encontrada), a remixagem deu clareza a alguns instrumentos, como teclados e violões, e acentua a influência dos Beatles sobre Lô Borges. Mas o melhor são as faixas de Milton como a lindíssima Cais e San Vicente (ambas com letra de Ronaldo Bastos), que realmente não se deixam classificar: bebem no samba, na bossa, no jazz, na África, nos Andes... No segundo e terceiro CDs há parcerias memoráveis com Chico, Elis e Ruy Guerra. A Tropicália foi mais ousada e fértil, mas essa esquina também precisava ser dobrada.

POR QUE NÃO ME UFANO

A economia foi bastante bem em 2007, confirmando o aumento de produtividade, investimento e crédito - como se viu nos resultados do Natal - e se aproximando do patamar de 5% de crescimento. Há sinais de que este ritmo não é sustentável a médio prazo, pelos gargalos de infra-estrutura e qualificação, e até de que em 2008 já começaria a sofrer por causa da inflação, da conjuntura, etc. Mas, independentemente de futurologias, é certo que a política, para variar, só atrapalhou. Foi um ano perdido.

Era o momento, neste primeiro ano de segundo mandato, para o governo Lula fazer reformas como a tributária e a política, mas tudo que se viu foi o Congresso enrolado no caso Renan e na barganha da CPMF. O caos aéreo e a mortandade nas estradas só aumentaram a sensação de que o Executivo é incompetente. E os escândalos de insegurança e impunidade continuaram banalizando o mal, assim como a Polícia Federal banaliza suas ações. É uma ilusão pensar que "enquanto Brasília dorme, o Brasil cresce". O pesadelo está sempre por perto.



''''Descomplicar a existência é melhor para a saúde do que qualquer feriado''''

''''A obra de Borges não se reduz à imagem de um pós-moderno dedicado a jogos de linguagem''''



Aforismos sem juízo

Prudência, s.f. - Sacrificar o começo pelo final, como se o final sempre se conhecesse.