domingo, agosto 26, 2007

SONIA RACY

Loyola: na eventualidade de uma crise, o ajuste será inevitável


Mais cedo ou mais tarde, o Brasil terá que enfrentar a questão do exagerado tamanho do gasto público. E, se a crise externa piorar de modo significativo, esse dia será antecipado. "O governo atual não enfrenta a questão, apenas se aproveita de um bom momento de aumento de receitas tributárias e de queda dos juros domésticos para expandir as despesas sem prejudicar o cumprimento de metas de superávit primário", pondera o ex-presidente do BC Gustavo Loyola, para quem, ao contrário do que afirmou o presidente Lula, não houve trabalho de "formiguinha" e sim de aproveitar a bonança. Portanto, na eventualidade de uma crise, o ajuste será inevitável. "E, mais uma vez, o corte recairá sobre os investimentos, numa evidente subversão de prioridades", diz Loyola.

Aqui vão trechos da sua entrevista:


Esta crise já era prevista por gregos, troianos, mexicanos, europeus, americanos e brasileiros. Havia como passar por isso de maneira mais tranqüila por meio de "hedge"? A dinâmica desta crise não difere muito de vários episódios históricos anteriores. O comportamento dos investidores nos mercados contemporâneos em nada difere dos padrões observados nos séculos 17, 18 e 19. O substrato psicológico continua o mesmo. O que mudou foi a infra-estrutura tecnológica do mercado e os instrumentos financeiros, hoje muito mais sofisticados. Se todos os investidores se "hedgeassem" o mercado seria um enorme empate de 0x0. Frustrante para todos. A alma do mercado financeiro é o comportamento especulativo que, aliás, tem sido o grande motor da humanidade desde sempre.



Os BCs estão fazendo seu papel? Sem dúvida. Os bancos centrais são os provedores últimos de liquidez aos mercados financeiros. Seu papel é o de acalmar o mercado, assegurando que não faltará liquidez para o seu funcionamento normal. Atuam como "pronto-socorro", para evitar a disseminação descontrolada da crise. Porém, de forma quase paradoxal, a cura da crise exige que os preços dos ativos possam se ajustar em novos patamares, o que significa que perdas são inevitáveis e até, em certo sentido, desejáveis. Por isso é que muitas vezes é mais importante a "arte" dos bancos centrais do que a sua "técnica".



Qual a importância de se ter um BC independente? A autonomia, entre outras vantagens, permite que o BC aja sem interferências políticas que levam em conta mais propósitos de curto prazo do que objetivos de longo prazo. No campo da política monetária, a construção da estabilidade exige um tipo de atuação dos BCs com visão prospectiva, muitas vezes conflitante com propósitos de curto prazo. É bem conhecido o fato de que não há dilema (trade-off) entre inflação e crescimento no longo prazo. Mais inflação não trará maior crescimento. Mas, no curto prazo, é sempre possível inflacionar para expandir a economia. E isso porque é sempre um efeito efêmero que, cedo ou tarde, acabará cobrando uma conta muito salgada da sociedade em termos de crescimento futuro. Por isso é bom contar com bancos centrais autônomos.



O Brasil terá um, algum dia? Creio que sim. Faz parte do processo de evolução institucional do País. A sociedade brasileira já se mostra intolerante à inflação, compreendendo bem que seus efeitos negativos recaem sobre os segmentos de menor renda. A partir dessa compreensão, é apenas um passo até a consagração da autonomia formal do BC. Compreensivelmente, a maior oposição à autonomia do BC se encontra em setores da sociedade viciados por anos e anos de vantagens auferidas diretamente da inflação crônica que afligiu o Brasil durante décadas.

Ajudar investidores que não tiveram cuidado na escolha de ativos não é prejudicial à saúde dos mercados? Não incentiva a criação de futuras "bolhas"? Para não incentivar os investidores temerários, os bancos centrais devem procurar solucionar as crises sem que isso implique salvamento de investidores diretamente.

Os EUA têm uma estrutura responsável na concessão de crédito? É cedo para dizer que os mecanismos de concessão de crédito falharam. Perdas são inerentes ao mercado e seria ingênuo achar que a expansão do crédito possa ocorrer sem que simultaneamente haja um aumento do risco para os credores e investidores em geral. A geração de uma "bolha" tem muitas vezes raízes mais macroeconômicas do que microeconômicas. No caso em questão, foram os anos de baixa taxa de juros e elevada liquidez, aliados às rápidas mudanças no mercado financeiro, que favoreceram o surgimento da atual crise.

O senhor defende algum tipo de controle para os hedge funds? O controle direto dos hedge funds pode ser contraproducente, tendo em vista, inclusive, as rápidas transformações inerentes aos mercados financeiros atuais. Defendo, isto sim, que os reguladores busquem assegurar que as instituições bancárias se utilizem de técnicas de gestão de risco adequadas nas suas decisões de emprestar recursos aos hedge funds. Os reguladores devem também buscar a redução das assimetrias de informação nos mercados financeiros, para permitir uma melhor análise de risco por parte dos investidores, bancos e não bancos.

Dá para fazer projeções de crescimento para 2007 e 2008? Para a economia mundial, acredito em algo um pouco acima de 5% este ano e, para 2008, uma desaceleração deve baixar o crescimento para cerca de 4,8%. Tudo vai depender dos efeitos da turbulência sobre o desempenho da economia dos EUA e suas repercussões sobre as demais economias. Para o Brasil, mantemos projeção de crescimento próximo aos 4,8% e, para 2008, 4,4%. Agora, se houver uma queda muito forte do crescimento mundial, seremos afetados, via balança comercial. Mas, ainda assim, podemos ficar acima da média do crescimento dos últimos anos. Depende também da capacidade da gestão do governo Lula que, infelizmente, tem falhado no enfrentamento de questões essenciais para o crescimento do País.