sábado, agosto 25, 2007

Roberto Pompeu de Toledo


A nudez que solapa
e desorganiza

O poder de se exibir em pêlo, dos primitivos índios brasileiros à revista Playboy

Na semana passada esta coluna foi dedicada ao fim do Brasil. Falemos agora do começo. O começo, como se sabe, é a nudez. Nada impressionou tanto os primeiros europeus que por aqui aportaram quanto a nudez dos nativos. Mais do que o pau-brasil, mais do que os papagaios e as araras, o grande sucesso da temporada das descobertas foram os índios e índias pelados, tão livres e soltos, e à vontade com seus corpos, que os recém-chegados de terras subjugadas pelo frio e pelo pecado se tomaram de estupefação. Pero Vaz de Caminha é o insuperável cronista do histórico encontro entre o europeu sufocado pelos culotes, gibões, agasalhos e atavios e o nativo que o máximo que aplicava sobre o corpo era um osso no beiço ou um colar no pescoço. "Andam nus, sem cobertura alguma", escreve. "Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas do que mostrar a cara."

No final, este artigo – seja logo anunciado, para acalmar a impaciência do leitor viciado na atualidade jornalística – desembocará na nudez de Mônica Veloso, a ex-amante do presidente do Senado, Renan Calheiros, anunciada para uma das próximas edições da revista Playboy. Até lá, é o passado que se impõe. O Brasil, junto com aquela espécie de prolongamento ao norte, que é o Caribe, configurava um caso único. Na América do Norte os índios se vestiam, em certas regiões por causa das baixas temperaturas, em outras por imposição de civilizações já seduzidas pela propriedade que têm as roupas de definir diferenças e hierarquias entre as pessoas. Idem nos Andes e idem na Patagônia. O Brasil estava gloriosamente só, em sua nudez. E, nessa condição, que atestava um estado de inocência equivalente ao de Adão e Eva antes da queda, acabaria por exercer uma influência profunda, que sacudiu, encantou, assustou e revolucionou a velha Europa.

Exemplares de índios brasileiros eram levados ao Velho Continente para ser exibidos em feiras e festas. Na França fizeram grande sucesso. Ficou famosa a festa que, em 1550, em Rouen, para celebrar a visita do rei Henrique II, teve como principal atração a apresentação de índios do Brasil. Sobre eles escreviam-se livros e artigos. Autores importantes como Montaigne detiveram-se sobre esses seres miraculosos, que consolavam o europeu já carregado de história e de culpa com uma visão do paraíso. Fortalecia-se e consolidava-se o mito do bom selvagem. No século XVIII, Rousseau, ele próprio um leitor dos antigos livros sobre as miraculosas terras onde os homens e mulheres andavam nus, baseia-se no bom selvagem para criar a tese da bondade natural: o homem é naturalmente bom; a sociedade é que o corrompe. Conseqüência: mudando-se a sociedade, pode-se mudar o homem. Crie-se uma sociedade mais justa e eqüitativa e os seres humanos reverterão à primitiva natureza da bondade.

Estava criada uma poderosa alavanca ideológica para a mobilização que levaria à Revolução Francesa. E quem estava na base disso? O índio brasileiro! Aquele nosso ancestral peladão e nossa avó peladona iniciaram um processo que levou à ruína as velhas estruturas da civilização européia. Não pense o leitor que tal conclusão se deve à mente delirante do colunista. Muito bem defendida, ela é o fio condutor de um livro de 1937, injustamente pouco lido – O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa, de Afonso Arinos de Melo Franco. No prefácio da mais recente edição, escreveu Sérgio Paulo Rouanet: "Em 1789, eles (os índios brasileiros) saíram das tapeçarias que adornavam Versalhes e ajudaram a derrubar a Bastilha".

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A revista Playboy especializou-se em fisgar no noticiário as estrelas de suas capas. A penúltima foi uma bandeirinha de futebol, Ana Paula. A última é Mônica Veloso. Por coincidência, as duas vinham de situações embaraçosas. Ana Paula, acusada de más atuações, tinha sido punida com o afastamento dos jogos da primeira divisão. Mônica vem do escândalo Renan. A nudez delas, como a de qualquer outra que saia na Playboy, não tem mais a inocência da nudez das índias. Não pode ser mais símbolo do bom selvagem, nem base da teoria da bondade natural. Mas um certo caráter revolucionário ainda conserva. É uma nudez de mulheres que gritam: "Ah, é??!! Queriam nos mandar para a segunda divisão? Cá estamos nós, inteiras como muitos de vocês nunca estiveram, e não só de corpo. E ainda faturamos com isso!".

Não se pode esperar que, assim como os índios brasileiros saíram das tapeçarias de Versalhes, Mônica Veloso venha a sair das páginas da Playboy para derrubar as bastilhas que escondem as vergonhas da República. Mas ela tem uma mensagem que, assim como a das índias, em sua inocência, também solapa e desorganiza: "Estou nua só nas páginas da revista. Mais nus estão vocês, com suas tramóias, suas negociatas, suas mentiras".

(E o colunista não sabe mais se fala do começo ou do fim do Brasil.)