domingo, agosto 26, 2007

Mailson da Nóbrega

A política monetária funciona abaixo do equador


O Brasil se preparou, como nunca, para enfrentar uma crise externa. Não estamos imunes aos efeitos que a atual turbulência pode gerar na economia mundial, mas devemos nos sair melhor do que em situações semelhantes do passado.

As reservas internacionais superam a dívida externa de médio e longo prazos. Contamos com outras fontes de resistência: câmbio flutuante, metas de inflação cumpridas, superávits primários robustos, relação dívida pública/PIB em declínio e ausência de papéis cambiais na dívida interna.

Lula contribuiu para isso, menos pelo que fez e mais pelo que deixou de fazer, isto é, não cumprir a promessa de mudar a política econômica herdada do antecessor. Com seu apoio, o Banco Central (BC) enfrentou o surto inflacionário de 2003 e pôde, a partir de então, cumprir as metas anuais de inflação.

Lula resistiu às pressões do PT e de gente do governo para mudar a política econômica. Fez ouvidos de mouco às criticas ao BC, vindas de economistas heterodoxos e empresários. Na era Palocci, além de não interferir nas decisões sobre a taxa de juros, Lula elevou o superávit primário, o que também foi condenado por muitas dessas vozes.

No início do 1º mandato, a inflação anual chegou a 17%, conseqüência da crise de confiança nascida do receio de que o presidente adotasse as idéias econômicas do PT. Lula não fez isso e indicou pessoas competentes para o BC, mantendo diretores escolhidos por FHC.

Em setembro de 2005, o BC começou a flexibilizar a política monetária depois que assegurou o declínio da inflação, a qual alcançaria 3,14% em 2003 sem grandes efeitos na atividade econômica. Bafejado também pelos bons ventos da economia mundial, o PIB exibe seu melhor desempenho nos últimos 20 anos.

Nesse período, o BC construiu sólida credibilidade. Os agentes do mercado se convenceram de que Lula é o fiador da política monetária e se acostumaram a menosprezar o esperneio dos críticos, dentro e fora do governo. O BC pôde acumular reservas internacionais, aproveitando o aumento dos fluxos externos propiciado pela liquidez internacional e a confiança no País.

Agora se vê que o custo fiscal da acumulação dessas reservas - que também teve seus críticos - está mais do que justificado. Os respectivos gastos constituíram uma espécie de prêmio de um seguro para enfrentar momentos de dificuldade como este. Não cabia argüir que o rendimento da aplicação das reservas era inferior aos juros pagos internamente, pois o BC não é uma empresa privada. Os benefícios difusos gerados pela acumulação de reservas superam largamente os seus custos.

Os louros da baixa e inédita vulnerabilidade do Brasil à crise externa são do BC e do apoio que recebeu de Lula. Provou-se que a política monetária funciona ao sul do Equador. Quem pensava o contrário adotava interpretação semelhante à dos colonizadores portugueses, que se fartavam das índias sob a alegação de que por estas bandas essas relações não constituíam pecado, pois elas não eram católicas. Como as índias não possuíam alma...

Daí se poderia inferir que os bancos centrais só podem ser órgãos do Estado e independentes do governo ao norte do Equador. Aqui, o BC deveria ser dirigido por políticos eleitos e posto a serviço do desenvolvimento, recebendo ordens para adotar medidas destinadas a proporcionar juros baixos e câmbio alto. A inflação não seria problema para os que ainda pensam assim. Os preços não se alterariam com uma política monetária frouxa.

Lula deve ter chocado companheiros, membros do governo e muita gente do setor privado ao não promover a guinada que esperavam. Descontentou a todos com a indicação de um experiente participante do mercado financeiro para a presidência do Banco Central e a manutenção, na diretoria da instituição, de pessoas escolhidas pelo governo de FHC.

Por sua preservação, a política monetária recompensou Lula com a inflação baixa que contribuiu para sua reeleição e o ajuda a manter seus elevados índices de popularidade. Agora, livra o País das conseqüências adversas do passado, geradas por situações que interromperam o crescimento, elevaram a inflação e lançaram dúvidas sobre a solvência do setor público, amplificando as conseqüências negativas da crise. Somos cada vez mais um país normal.

*Mailson da Nóbrega é ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria Integrada (e-mail: mnobrega@tendencias.com.br)