domingo, agosto 26, 2007

AUGUSTO NUNES SETE DIAS

Mentiras podem matar

Augusto Nunes

Durou menos de 15 minutos a sabatina no Senado, previsivelmente amistosa na forma e rasa no conteúdo, que aprovou a indicação daquela afilhada do ex-ministro José Dirceu para uma das diretorias da Agência Nacional de Aviação Civil. Num parecer bem mais magro que o redator, Delcídio Amaral declarou a advogada Denise Maria Ayres de Abreu plenamente apta para assumir o novo emprego. Bastava conferir o currículo da indicada, sublinhou o senador.

Um dos itens informava que o pai de Denise, Olten Ayres de Abreu, foi juiz de futebol nos anos 60. Filha de juiz aprende a decidir desde criancinha, deve ter deduzido Delcídio. Talvez apitasse o impedimento de Denise se tivesse visto em ação o velho Olten.

O currículo também registrava que a protegida de Dirceu se formou em direito pela PUC de São Paulo. Advogados conhecem leis, deve ter deduzido Delcídio. Ansioso pelo descanso de fim de semana, não ouviu a alma murmurando que leis são dribladas mais facilmente por quem as conhece. Assim começou a tragédia consumada em 17 de julho.

Há poucos dias, muitos meses depois da sabatina, Denise voltou ao Senado para depor na CPI do Apagão. "Essa mulher mente o tempo todo", espantou-se o relator Demóstenes Torres no fim da sessão. A única verdade que contou acabou escancarando a mais terrível entre tantas mentiras.

Durante o depoimento, a advogada revelou que não tinha valor legal um texto, incorporado com cara de norma ao site da Anac, segundo o qual aviões de grande porte só poderiam pousar na pista molhada com o reverso em pleno funcionamento. Era só uma medida em estudo, informou.

Por que incluir a esperteza na documentação, entregue pela própria Denise no dia 22 de fevereiro, que induziu a desembargadora Cecília Marcondes a revogar a interdição da pista assassina? A diretora da Anac fez de conta que nem havia notado. "Eram dezenas de papéis", desconversou.

"Ela tinha ciência absoluta da existência daquele documento que estava sendo apresentado a mim", replicou a desembargadora enganada. "Aliás, todos falavam a respeito dele". Todos os diretores e técnicos da Anac. Todos os principais executivos das empresas aéreas. Sobretudo os da TAM, a companhia favorita da família Abreu.

Um irmão de Denise, contratado pela empresa, cobra caro pelos serviços prestados. A diretora da Anac, paga pelo Estado, cuida com muita dedicação dos interesses da empresa que deveria fiscalizar.

Não recebeu um só centavo pelo balaio de favores. "Nunca fiz nada de errado e não vou pedir demissão", reiterou ao saber do inquérito instaurado para investigar o que fez e o que deixou de fazer. Por amor à aviação civil, queria continuar na Anac. Agora vai descobrir que estará no lucro se continuar em liberdade.

O país ainda não sabe por que o Airbus da TAM ultrapassou a pista, explodiu ao bater num prédio e matou 199 inocentes. Mas já sabe que só houve o pouso porque existiu uma Denise Abreu na Anac.

Cabôco Perguntadô

O Cabôco ficou intrigado ao localizar o presidente da OAB paulista, Luiz Flávio Borges D'Urso, entre os integrantes da comissão de frente do Cansei. Advogado de Estevam e Sônia Hernandez, casal que pastoreia a seita evangélica Renascer, D'Urso continua a defender valentemente o apóstolo e a bispa engaiolados em Miami. O Cabôco quer saber quanto cobra o doutor para não se cansar de gente que junta fortunas assombrosas com a venda de terrenos nos campos do Senhor.

Raposa no galinheiro

Por decisão do Planalto, prontamente endossada pelo bloco governista, o deputado federal Antonio Palocci será o relator do projeto que eterniza a cobrança da CPMF. Faz sentido. Ministro da Fazenda no primeiro mandato do presidente Lula, Palocci dirigiu com esmero o espetáculo do crescimento da carga tributária. E tem tanto apreço por movimentações financeiras que faz qualquer negócio para destrinchá-las.

Palocci topa até estuprar o sigilo de contas bancárias, como fez no caso do caseiro Francenildo Costa.

O elogio da ignorância

O Brasil constatou que Lula não sabia ler nem escrever quando o presidente ainda era dirigente sindical. A partir de 1980, ficou claro que tampouco queria saber: apesar de sobrar-lhe tempo, o político subsidiado pelo PT não comprou nem pediu emprestado um único livro. E nunca teve caneta própria.

A declaração de guerra às bolsas concedidas a brasileiros que fazem cursos de doutorado no exterior avisou que Lula, além de não saber nem querer saber, tem raiva de quem sabe. E completou o elogio da ignorância.

A má qualidade está garantida

Alguns espancam o português com a crueldade de um Silvinho Pereira. Outros conseguem ser mais enfadonhos que um Delúbio Soares. Os veteranos assassinam verdades com a desenvoltura de um serial killer americano. Os noviços aprendem com os mestres como se contam mentiras sem gaguejar.

As estrelas do elenco estão fora dos capítulos recentes da novela do mensalão, exibidos desde quarta-feira pela TV Justiça. Mas o desempenho dos advogados mantém intocada a má qualidade do espetáculo.

Yolhesman Crisbelles

A taça da semana vai para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pela entrevista publicada na Gazeta Mercantilde quinta-feira em que anuncia, entre outras novidades, a completa erradicação da miséria no Brasil. Trecho:

Ontem mesmo, alguém me disse que um instituto foi fazer uma pesquisa com a classe E e não encontrou a classe E. A classe E se extinguiu.

No Brasil de Mantega, os pobres de antigamente comem três vezes por dia. E vivem viajando de avião.