domingo, maio 20, 2007

Além da Navalha

É todo o sistema político brasileiro que, mais uma vez, desagradavelmente, expõe as suas entranhas com essa operação da PF

UM EX-GOVERNADOR, filiado ao PSB do Maranhão; um prefeito do PSDB em Mato Grosso; um prefeito do PT na Bahia; sobrinhos do atual governador maranhense, pedetista; filhos de um ex-governador sergipano, do DEM; um deputado do Distrito Federal, do PMDB. Todos, e muitos mais, foram presos quinta-feira na Operação Navalha da Polícia Federal.
Não poderia ser mais eclética a composição partidária dos acusados em mais este escândalo. Amigos e inimigos, apadrinhados e desafetos, nos mais variados níveis da estrutura administrativa, vêem-se flagrados no que tinham em comum: as relações, ao que tudo indica bastante heterodoxas, mantidas com a empreiteira baiana Gautama.
O esquema, pelo que se noticiou até agora, perpassava vários ministérios, quatro Estados e duas prefeituras. É todo o sistema político brasileiro, entretanto, que mais uma vez parece desagradavelmente expor suas entranhas com essa operação.
Nos últimos anos, nenhuma organização partidária relevante deixou de protagonizar episódios que vão do revoltante ao ridículo, compondo um painel que desafiaria os pincéis do mais enfático adepto do surrealismo.
Cuecas, maletas, carros de luxo, máquinas de bingo, em meio a curupiras, navalhas e sanguessugas -para lembrar os nomes, sempre sugestivos, das operações da PF-, acumulam-se diante dos olhos do espectador, que entretanto já não se surpreende.
Passou o tempo, com efeito, em que o eleitorado podia ter confiança nos instrumentos típicos da vida política, como a denúncia parlamentar, as CPIs e o próprio voto, para afastar da vida pública os envolvidos em corrupção. O problema se revela endêmico, e não terá sido necessária a Operação Navalha para que, diante da cena de um político acusando seu adversário de desonestidade, venha à mente de qualquer brasileiro o velho refrão segundo o qual se trata do roto rindo do rasgado.
Quando vigora um sistema intransparente de financiamento das campanhas, quando o processo de elaboração orçamentária se dá pela barganha de emendas individuais, quando é precário o acesso do eleitor à informação e reduzida a sua capacidade de organização política, nada mais previsível do que a multiplicação dos casos de corrupção.
Não escapam do fenômeno, é claro, nações mais desenvolvidas. Num país pobre, todavia, o assalto aos cofres públicos é crime ainda mais revoltante -tanto quanto o clima de impunidade generalizada que o cerca.
O componente espetacular das operações da PF atende com eficácia, sem dúvida, às demandas da opinião pública no sentido de que esse clima se dissipe. Para além da atuação policial, entretanto, haveria muito mais a ser feito contra a corrupção, no plano da reforma política e do aperfeiçoamento institucional do Estado. Eis uma esfera, infelizmente, em que não parece existir operação de impacto à vista.