segunda-feira, janeiro 29, 2007

De novo, Angra 3 LAURA CAPRIGLIONE

MENINOS e meninas de esquerda nos anos 70 nem se perguntavam se podia não ser verdade o que dizia a atriz Jane Fonda. Em 1972, ela foi pessoalmente a Hanói, levar apoio ao povo vietnamita que enfrentava o Exército americano. Posou para fotos ao lado de soldados prontos para matar marines, fez discurso na rádio local, liqüefez o moral das tropas ianques.
Com uma folha de serviços dessas, toda a turma acreditou piamente quando a mesma Jane Fonda apareceu em 1979, no filme "A Síndrome da China", falando de reatores nucleares que podiam aquecer-se descontroladamente, derretendo a estrutura que os contêm e afundando no chão "até atingir a China", daí o nome do filme.
A ficção ficou com cara de profecia porque, 12 dias depois de seu lançamento, aconteceu o acidente com a usina nuclear americana de Three Mile Island, um susto.
No Brasil, 1975 foi o ano do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, que previa, entre outros itens, a construção das usinas de Angra 2 e 3. Ainda sob ditadura militar, censura e repressão, os cientistas conseguiram uma mobilização inédita da opinião pública contra o acordo.
Diziam que o Brasil estava comprando uma caixa-preta que não previa a transferência de tecnologia. Que as unidades nucleares de Angra se assentariam sobre uma falha geológica, com todos os riscos aí embutidos. Que a energia atômica era perigosa, suja. Que era cara.
Agora, como se nada fosse, Lula inclui no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) a retomada de Angra 3, na qual já se consumiram US$ 750 milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão) para a compra de equipamentos, além de US$ 20 milhões (ou R$ 43 milhões) por ano em manutenção. Mais US$ 1,7 bilhão (R$ 3,6 bilhões) ainda são necessários para a conclusão da usina, que começaria a operar em 2013.
A favor, diz-se que a matriz energética brasileira tem de ser diversificada, fala-se em um possível novo apagão e até que a energia nuclear é uma das menos agressivas ao ambiente. Contra, ouvem-se poucas vozes, entre elas a do Ministério do Meio Ambiente e a do Greenpeace, que vêm com seus moinhos de vento defender as energias eólica e solar.
Embora desde o ano passado existam documentos mostrando o empenho do governo em estudos sobre a viabilidade econômica da usina, Lula não quis discutir Angra durante a campanha eleitoral -para que mais marola? Até quinta-feira, a construção da usina constava em página eletrônica do Ministério do Planejamento.
Foi depois retirada da rede, mas não dos planos. Por que o mistério? Quase 30 anos depois, Jane Fonda já fez autocrítica de sua ação no Vietnã, já se tornou propagandista de um método de fitness. Virou lembrança. OK. Apesar disso, bem que eu queria saber o que é que farão com aquele tal lixo radioativo.