quinta-feira, dezembro 28, 2006

CLÓVIS ROSSI O champanhe e o sonho


SÃO PAULO - Depois que o presidente Lula tirou da geladeira o champanhe para comemorar o mais baixo índice de risco-país de todos os tempos, tiremos também o vinagre. Vinagre, aliás, proveniente de antigos companheiros de viagem de Lula, hoje desiludidos, esse pessoal que criou o Fórum Social Mundial e mantém a bendita teimosia de achar que um "outro mundo é possível".
O vinagre está contido no relatório 2006 do Observatório da Cidadania. Parte dele é o ICB (Índice de Capacidades Básicas), que não mede o risco que correm os credores de não receber o que lhes é devido, mas o risco que correm as pessoas de não terem condições de vida minimamente satisfatórias. Inclui, por exemplo, o percentual de crianças matriculadas na primeira série que atingem a quinta série, o percentual de desnutrição de menores de cinco anos e o de partos assistidos por pessoal de saúde qualificado.
Pois bem, o Brasil fica no ICB em 82º lugar entre 162 países, embora seja um dos 15 países mais ricos do mundo. Perde até, por incrível que pareça, para a Cisjordânia/Faixa de Gaza (67º posto).
Na América Latina/Caribe, estão à frente do Brasil o Chile (primeiro colocado latino-americano), Cuba, Uruguai, Argentina, Costa Rica, Santa Lúcia, São Vicente/Granadinas e Venezuela. Sei que esse tipo de classificação vexatória não é novidade para o Brasil. Novidade é o fato de que o líder que mais criticava o vexame, antes de chegar ao poder, agora olha para o lado e vê o risco-país muito mais que a dor-país.
Não é à toa que Cândido Grzybowski, diretor do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, a ONG criada pelo Betinho), ponha o seguinte como uma das pré-condições para uma nova agenda brasileira: "O sonho e a esperança precisam renascer".