Entrevista:O Estado inteligente

sábado, novembro 04, 2006

Incretinas: hormônios que combatem o diabetes

Ela se chama incretina

Não se engane com o nome de anedota:
essa família de hormônios é uma
arma potente contra o diabetes


Paula Neiva


O arsenal para o controle do diabetes tipo 2 ganhou recentemente reforços de peso. São os medicamentos que atuam sobre as incretinas, uma família de hormônios produzida pelo intestino, capaz de potencializar a secreção da insulina. Com cerca de 180 milhões de doentes em todo o mundo, 10 milhões deles no Brasil, o diabetes se caracteriza por uma deficiência na produção ou na ação do hormônio insulina, o que leva a um aumento exagerado da glicemia. As incretinas ajudam a baixar as taxas de glicose no sangue, sobretudo depois das refeições, quando esses níveis tendem a explodir. "O uso das incretinas abre uma frente ainda inexplorada e com perspectivas excelentes para o tratamento da doença", diz o endocrinologista Marcos Antonio Tambascia, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes. A grande vantagem dos novos tratamentos é promover a secreção de insulina, de forma muito parecida à natural, em sintonia com a demanda do organismo. Os antidiabéticos tradicionais não têm esse "termômetro". Eles estimulam a produção de insulina mesmo quando a glicemia está normal. Além de exaurirem as células produtoras do hormônio, aumentam o risco de hipoglicemia.

Dentre os novos medicamentos destaca-se a sitagliptina, a ser vendida sob o nome comercial de Januvia. A substância acaba de receber o sinal verde da agência regulatória americana, a FDA. A aprovação para a venda no Brasil deve sair nas próximas semanas. O Januvia é o primeiro representante de um grupo de remédios que inibem a ação da enzima DPP-4, cuja função é destruir as incretinas. Num organismo saudável, as incretinas são sintetizadas e logo depois degradadas por essa enzima – num ciclo de produção e eliminação que dura o tempo necessário para normalizar a glicemia. Nos diabéticos, a produção de incretinas é baixa, mas o ritmo de destruição delas mantém-se inalterado. Ao inibir a DPP-4, o medicamento aumenta o tempo de ação das incretinas – e, conseqüentemente, da liberação de insulina.

A descoberta da importância das incretinas para o controle do diabetes tipo 2 é recente. Apenas em meados da década de 90 se constatou que os diabéticos apresentam deficiência na produção ou na ação desses hormônios, o que serviu de ponto de partida para a criação dos novos tratamentos. A ciência descreveu até agora menos de uma dezena de incretinas. Uma das mais importantes é o GLP-1, encontrado em quantidades ínfimas nos diabéticos. Uma das estratégias para contornar o problema foi a criação em laboratório de uma molécula similar ao GLP-1, a exenatida (veja o quadro). O primeiro remédio dessa classe foi sintetizado a partir da saliva venenosa do monstro-de-gila, um lagarto que mata suas presas ao provocar nelas uma crise de hipoglicemia. Por enquanto, os remédios que agem sobre as incretinas são indicados sobretudo para pacientes nas fases iniciais da doença, quando suas células produtoras de insulina ainda funcionam. Seus principais efeitos colaterais são náuseas e vômitos.

Uma das mais arrojadas linhas de pesquisa em torno das incretinas é a que lança mão da cirurgia bariátrica. Há cerca de dois anos, o cirurgião italiano Francesco Rubino percebeu que a cirurgia para a redução do estômago de diabéticos obesos resultava não apenas na perda de peso, mas também no aumento da produção de incretinas. Com um estômago menor, a comida chega mais rápido ao intestino, o que estimula a produção de incretinas. A técnica, com algumas alterações, é testada agora em diabéticos não obesos. Do grupo de seis pacientes submetidos experimentalmente ao procedimento na Universidade Estadual de Campinas, desde março deste ano, cinco já se livraram das injeções de insulina. Apesar de o método ser promissor, ainda é cedo para decretar sua validade terapêutica.

A aposta da medicina nas incretinas é enorme. Supõe-se que, além de potencializarem a produção de insulina, elas aumentem a sensação de saciedade e, com isso, promovam a perda de peso. Manter-se no peso ideal é imprescindível para o controle da doença, porque o excesso de células adiposas aumenta a resistência do organismo à insulina. Há fortes indícios, ainda, de que as incretinas também promovam a regeneração das células produtoras de insulina. Conforme o diabetes avança, essas células são progressivamente destruídas. "A expectativa é que esses novos remédios possam diminuir o ritmo de progressão da doença ou mesmo evitar que ela se instale em pacientes pré-diabéticos", diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, de São Paulo.




Montagem sobre fotos Tom Schielitz-Getty Images/AFP, Omar Paixão e Antonio Milena
Mais sobre diabetes

Arquivo do blog