terça-feira, setembro 26, 2006

O petróleo ameaça Chávez


EDITAL OESP


O petróleo ameaça Chávez

Não se pode negar que o presidente Hugo Chávez tenha senso de humor. Suas referências ao presidente George W. Bush – que jamais cita pelo nome – como o "diabo" que deixou "cheiro de enxofre" na tribuna da ONU provocaram risos entre os chefes de governo e diplomatas reunidos para a abertura da sessão anual da Assembléia-Geral. Mas a graça acaba aí. Fosse Chávez o presidente de uma típica república de banana, seu comportamento abusado e desrespeitoso em relação aos países vizinhos, aos Estados Unidos e ao regime democrático não teria maior alcance do que o comportamento de um bufão alçado pelas circunstâncias da política à presidência de seu país. Mas o coronel golpista está sentado sobre uma das maiores reservas de petróleo do mundo e não hesita em usar a riqueza proporcionada pelo óleo não para preparar a infra-estrutura física e o parque industrial da Venezuela para o dia – que ele próprio diz que será inevitável – em que os poços secarão, mas sim para financiar uma campanha de fustigação dos Estados Unidos e de desmoralização das instituições democráticas. E tudo isso com o objetivo de se perpetuar no poder.

Desde que assumiu o poder e até o início do mês, o preço do barril de petróleo foi multiplicado por quatro, passando dos US$ 70. Foi por isso que, em pouco tempo, ele pôde tirar a Venezuela de uma grave crise fiscal e cambial e financiar a exportação da "revolução bolivariana". Mas, agora, a onda especulativa parece estar chegando ao final e o preço do petróleo tende a se acomodar na faixa dos US$ 50. Isso acontecendo, em breve Chávez não terá dinheiro para sustentar suas extravagâncias ideológicas e sua ambição de poder. Afinal, é só porque dispôs até agora dos fartos recursos proporcionados pela venda diária de 3,1 milhões de barris de petróleo a mais de US$ 70 o barril que ele pode remeter a Cuba uma ajuda anual que se estima em US$ 4 bilhões, na esperança de se tornar o legítimo sucessor de Fidel Castro. Também pode financiar 40% do petróleo comprado pelos países do Caribe a 1%, com prazo de 25 anos. Também não lhe fazem falta os US$ 3 bilhões para comprar títulos da dívida argentina, que de outra forma ficariam encalhados.

Enquanto isso, os investimentos estrangeiros na Venezuela vão se tornando ralos. As empresas petrolíferas tiveram de aceitar revisões de contratos – afinal, não podem se ausentar de um país onde estão localizadas algumas das maiores bacias petrolíferas do mundo. Mas, no ano passado, os investimentos estrangeiros diretos – aqueles que geram negócios, empregos e renda – foram de apenas US$ 915 milhões, o que demonstra grande desconfiança no futuro imediato do país.

E não é para menos. Em 40 dias, entre julho e agosto, Chávez visitou dez países. Seu objetivo era não apenas conseguir apoio para a candidatura da Venezuela a um lugar no Conselho de Segurança da ONU, mas também se apresentar como o líder de um eixo de oposição aos Estados Unidos. Daí ter apoiado incondicionalmente os programas nucleares do Irã e da Coréia do Norte e prometido mundos e fundos para a Síria, que sustenta o grupo terrorista Hezbollah. Nesses países, fez sucesso. Já na Rússia e na China – que há muito abandonaram veleidades ideológicas – encontrou apenas platéias polidas e dispostas a fazer negócios.

A meta da política externa chavista é criar uma frente de países hostis não só aos Estados Unidos, mas às democracias capitalistas. Quer reviver o antagonismo Norte-Sul – e não foi à toa que, em seu discurso na ONU, proclamou que falava em nome dos "povos do Sul", uma grosseira mentira. Para proteger a Venezuela de ameaças inexistentes, está comprando armas por atacado – o que pode motivar uma corrida armamentista na região.

Internamente, seu objetivo é tornar-se ditador vitalício. Já declarou que, se ganhar as eleições de dezembro – o que tudo indica que acontecerá, porque se 71% dos venezuelanos desaprovam o seu governo, apenas 22% acreditam que ele é o responsável pela má administração –, promoverá uma reforma constitucional para permitir a reeleição, indefinidamente. Seu projeto, como se vê, depende das receitas do petróleo, que podem começar a ficar curtas.

Mas, enquanto as receitas do petróleo permitirem, esse atentado à democracia e à estabilidade regional continuará sendo feito nas fronteiras do Brasil. E o governo Lula, que corteja Chávez, não vê que a tempestade que se forma no Caribe pode desabar sobre o Brasil.