segunda-feira, agosto 28, 2006

VEJA Briga de sangue


A PF indicia Delúbio e Humberto Costa
no caso dos vampiros e diz que os dois
até brigavam por propina


Diego Escosteguy

Rose Brasil/ABR
O ex-ministro Humberto Costa: "É um absurdo. Estou sendo vítima de uma armação"

Já se sabia que a quadrilha dos vampiros, assim conhecida por sua especialização em fraudar licitações do Ministério da Saúde, tinha uma conexão financeira com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Conforme as investigações da Polícia Federal, o esquema dos vampiros fora montado ainda sob o governo de Fernando Collor (1990-1992) e se empenhava em arrancar dinheiro de fornecedores do Ministério da Saúde. Estima-se que, em mais de uma década de atividade, os vampiros tenham movimentado até 2 bilhões de reais. Desde 2003, quando o governo do PT tomou posse, o esquema sofreu algumas alterações – e, sobretudo, adesões. Um dos que passaram a atuar com a quadrilha foi o lobista Laerte de Arruda Corrêa, eterno suspeito de ser o homem de Delúbio Soares. Na semana passada, VEJA teve acesso ao relatório da Polícia Federal sobre o caso. São 800 páginas que fazem um histórico detalhado do esquema e apresentam informações ainda mais arrasadoras sobre o envolvimento de petistas. O documento confirma o envolvimento do ex-tesoureiro do PT no esquema, apresenta provas de sua ligação com o lobista e traz uma novidade: acusa o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, atual candidato do PT ao governo de Pernambuco, de envolvimento com a quadrilha.

No relatório final, que já foi enviado ao Ministério Público, a Polícia Federal faz uma descrição da quadrilha – tanto de sua forma de atuar quanto de sua estrutura, apresentando até um organograma. Diz que havia ali uma "organização criminosa", curiosamente o mesmo termo usado pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, para referir-se ao PT no caso do mensalão. Em seguida, afirma que a tal "organização criminosa", com a posse do governo do PT, incorporou uma "nova estrutura", que aproveitou "velhos planos" para "vender facilidades e influências" no Ministério da Saúde. O pedaço que se incorporou se apresentava dividido em dois grupos. Um estava sob o comando do então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e seria integrado pelo lobista Laerte de Arruda Corrêa e por dois servidores do Ministério da Saúde, Reginaldo Muniz Barreto e Ivan Batista Coelho. O outro grupo era ligado ao então ministro da Saúde, Humberto Costa, e seria mais numeroso. Era composto de seis assessores e lobistas – entre eles, Bruno Reis, na época assessor de Carlos Wilson, então presidente da Infraero e hoje candidato a deputado federal pelo PT. Ao final, o relatório da Polícia Federal informa que as investigações resultaram no indiciamento de 42 suspeitos. Delúbio Soares foi indiciado pelos crimes de corrupção ativa, formação de quadrilha e exploração de prestígio. No caso de Humberto Costa, o indiciamento se deu em razão dos crimes de corrupção passiva e formação de quadrilha.

Dida Sampaio/AE
Delúbio, o ex-tesoureiro: briga com o grupo do ex-ministro


Há trechos impressionantes no relatório. Num deles, a Polícia Federal afirma que a turma de Delúbio conseguiu arrecadar pelo menos 15 milhões de reais em propinas cobradas de fornecedores do Ministério da Saúde. No caso do grupo ligado ao ex-ministro Humberto Costa, não há estimativa do dinheiro embolsado, mas as investigações chegaram a identificar uma partilha de dinheiro – no caso, uma propina de 723.800 reais, paga por um laboratório, que acabou dividida entre o grupo do tesoureiro e o do ministro. O relatório diz ainda que os dois grupos não tinham uma convivência pacífica. "Há um enredo de conversas que revelam a existência de contenda entre os grupos vinculados ao ministro da Saúde, Humberto Costa, e ao tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, Delúbio Soares, pela prerrogativa de arranjar a venda de facilidades e influência e a captação de recursos financeiros junto a lobistas e empresas", diz o documento. Como que a comprovar que havia briga de quadrilhas, existia um terceiro grupo no esquema, que acabava fazendo a interlocução entre a turma de Delúbio e a de Humberto Costa. Quem liderava esse terceiro grupo, conforme o relatório da polícia, era o também já indiciado Frederico Ferreira Coelho Neto, o Lilico, que vem a ser irmão do deputado Luiz Antonio Fleury Filho (PTB-SP).

Em seu depoimento, o lobista Laerte de Arruda Corrêa negou ter participado do esquema, mas disse que o ex-ministro Humberto Costa tinha envolvimento com a quadrilha. "É um absurdo, estou sendo vítima de uma verdadeira armação", afirma Humberto Costa. Na sexta-feira passada, depois de ser entrevistado e informado por VEJA sobre seu indiciamento, o ex-ministro deu uma coletiva no Recife na qual divulgou seu próprio indiciamento, reafirmou que é inocente e ofereceu a quebra de seu sigilo telefônico, bancário e fiscal. Também há indiciados de outras colorações partidárias. O médico Platão Fischer, que já estava no ministério quando o tucano José Serra assumiu a pasta, foi indiciado por corrupção ativa, corrupção passiva, formação de quadrilha e exploração de prestígio. Ele é acusado de ter repassado informações privilegiadas das licitações do ministério à quadrilha. Fischer nega qualquer envolvimento com a máfia. "Não tenho nada a ver com essas figuras", garante. Agora, o Ministério Público tem um mês para oferecer uma denúncia à Justiça contra os indiciados ou então pedir novas diligências à Polícia Federal.

TRECHOS COMPROMETEDORES

Ao fim das investigações, a PF produziu um relatório com 800 páginas. Abaixo, trechos que comprometem Delúbio Soares e Humberto Costa

Trecho em que a PF descreve o grupo de Delúbio rachando propina