segunda-feira, agosto 28, 2006

FLEURY:A alucinação de Botucatu

A alucinação de Botucatu

A história do extraordinário fenômeno
psicossocial que afeta a cidade paulista


Victor Martino


Antonio Milena
Foto aérea da fazenda Chalet: em destaque, a quadra de basquete, esporte favorito de Fleury

Vez por outra, cidades brasileiras são acometidas por alucinações coletivas. Em 1996, parte da população de Varginha, no sul de Minas Gerais, afirmou ter visto um ET. Pouco depois, os habitantes de São Roque, próxima a São Paulo, apelidaram de chupa-cabra uma estranha criatura acusada de sugar o sangue de animais. Assim como vieram, tais ilusões sumiram rapidamente. Mas há uma alucinação que persiste há mais de dez anos em Botucatu, no interior paulista. Grande parte dos seus cidadãos atribui ao deputado Luiz Antonio Fleury Filho, ex-governador do estado pelo PMDB e hoje no PTB, a posse de sete fazendas no município. A alucinação se estende a detalhes incríveis: todas as propriedades teriam sido adquiridas por testas-de-ferro enquanto o atual deputado ocupava o Palácio dos Bandeirantes. Um dos responsáveis pela disseminação da história é o presidente da Câmara de Vereadores da cidade, Luiz Rubio, do PT. "Além dessas fazendas, já disseram que sou dono de um hotel em Miami, de uma propriedade em Avaré e outras coisas mais. É tudo mentira", diz Fleury, que teme que a ilusão coletiva de Botucatu prejudique sua reeleição.



Celso Junior/AE
Fleury: "É difícil convencer as pessoas de que a história não tem fundamento"


O deputado está tão habituado a responder a perguntas sobre esse fenômeno psicossocial que passou a levar consigo certidões de cartório para provar que não tem imóveis em Botucatu. Até agora, porém, o papelório não foi capaz de convencer a população local de que ele nada tem a ver com as propriedades registradas em nome do empresário Luiz Eduardo Batalha. Batalha, um dos principais criadores de gado do país, participou da campanha de Fleury ao governo de São Paulo, em 1990. Sua função era apresentar o candidato ao empresariado. Até a vitória de Fleury naquela eleição, Batalha morava num apartamento de classe média no Paraíso. Imediatamente depois que o amigão triunfou nas urnas, ele comprou um belo dúplex no bairro dos Jardins, para onde se mudou. Coincidências da vida, claro.

De acordo com os relatos das pessoas afetadas pela alucinação, logo após ser eleito governador, Fleury teria enviado Batalha à cidade para comprar-lhe terras. Três ex-funcionários da Fazenda Chalet, uma das propriedades adquiridas por Batalha, contam que Fleury visitava o local com freqüência. Por isso, o empresário teria mandado construir perto da casa-grande uma quadra de basquete, o esporte predileto de Fleury (a quadra não é alucinação, está no destaque da foto) Segundo esses ex-funcionários, Fleury parou de ir à Chalet ao deixar o governo estadual. Ele diz que foi à fazenda uma só vez, e antes de assumir o governo. Batalha confirma sua versão. "Estou na agropecuária há trinta anos. Meu sucesso se deve ao trabalho, não à amizade dele", desabafa.

Ayrton Vignola/Folha Imagem
Batalha: "Apenas bons amigos"


Fleury está cansado de ser vítima de um delírio psicossocial tão extraordinário. Ele diz que adoraria ser sócio de Batalha, pois, se isso fosse verdade, seu patrimônio teria crescido espetacularmente nos últimos anos. Em vez disso, encolheu. Em 1990, Fleury declarou à Justiça ter 2,3 milhões de reais, em valores atualizados. Hoje, seus bens somariam apenas 1 milhão de reais – um exemplo raro de político brasileiro que perdeu dinheiro servindo ao bem público. Botucatu, no entanto, não acredita nas suas provas. "Quando um grupo de pessoas adota firmemente uma crença, ninguém consegue persuadi-las do contrário", explica o psicanalista José Renato Avzaradel. Fleury concorda e lamenta: "Realmente, não há nada mais difícil do que convencer as pessoas de que uma história dessas não tem fundamento".