terça-feira, agosto 29, 2006

Dois na gangorra - D. KRAMER



ESTADO


Reza lenda tucana que o pensamento do PSDB hoje cabe dentro das cabeças de Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Embora haja controvérsias internas - principalmente em domínios mineiros e cearenses - quanto a essa predominância, ambos andam de fato bem afinados.

Seja na dificuldade que observam - mas ainda não explicitam - para uma virada de desempenho eleitoral para Geraldo Alckmin, seja no tocante ao destino da nação tucana na provável condição de oposição a um segundo governo Luiz Inácio da Silva.

Quem conversa com os dois separadamente obtém uma incrível coincidência de avaliações sobre atos passados, ações presentes e necessidades futuras. FH deixa fluir mais livremente suas idéias; Serra, preso às contingências da administração de uma candidatura favorita ao governo de São Paulo, revela bem menos. Com ele é preciso esforço dobrado de leitura das entrelinhas.

Em relação a um ponto, entretanto, ambos concordam sem grandes resguardos: perdida a eleição presidencial, está fora de cogitação qualquer aproximação com o PT, nem mesmo sob a forma de entendimento nacional em prol da governabilidade, conforme o sugerido na semana passada pelo presidente Lula.

Outro ponto de concordância é a urgência na alteração dos meios e modos do partido que, no poder, cultivou a prática de "porteiras abertas" que, na visão das eminências, precisa ser substituída por uma espécie de "depuração química".

Não adianta insistir, não se fala em quem se quer ver pelas costas. No máximo com quem se deseja compartilhar a convivência política. Fernando Gabeira e Miro Teixeira são dois exemplos.

É nítida em José Serra a disposição de, uma vez eleito governador de São Paulo, atuar no cenário nacional como o principal antagonista do governo federal.

Caso Alckmin vença - sim, a variante da vitória é levada em conta -, a afirmação dar-se-á na forma de cobrança administrativa dos interesses do Estado. Mas se ganhar Lula, o peso do cargo terá também significado político.

Afinal, nem de longe saiu da agenda de Serra a hipótese de vir a ocupar a Presidência da República, muito embora essa discussão sobre candidaturas, dada a existência de outros postulantes, não seja assunto bem recebido e ao qual se dê prosseguimento nas conversas. De certo no cenário para 2010 estaria apenas o fim da reeleição.

FH defende com menos veemência, tem um certo constrangimento de abraçar a tese contrária à defendida há dez anos exatamente para lhe dar a oportunidade de um segundo mandato.

Serra fica mais à vontade, invoca a condição de adversário histórico da reeleição, cuja aceitação em 1997, alega, ocorreu por uma questão de disciplina partidária.

No que se refere à atual campanha presidencial, tanto um quanto outro respeitam a opção preferencial de Alckmin pela elegância de procedimentos. Numa primeira fase, bem entendido. Esperam, e defendem, que daqui em diante o candidato e o partido subam o tom das críticas a Lula, a fim de mexer com o eleitorado e tentar chegar ao segundo turno.

Nesta altura, cabe a dúvida que assola mentes Brasil afora: e por que o PSDB não foi mais incisivo quando havia condições objetivas para tal? Em português claro: por que não se questionou a legitimidade constitucional do mandato presidencial à época que o publicitário Duda Mendonça confessou ter recebido o pagamento pela campanha de 2002 de forma ilegal?

A posição de ambos, mais uma vez, é semelhante: a análise dos fatos em retrospectiva não retrata exatamente as condições da época. Não haveria - como de resto comprova a popularidade atual do presidente - respaldo popular e o risco de desorganização política era muito grande.

Além disso, o PSDB tem sérias dúvidas se políticos e partidos que hoje reclamam por posições mais agressivas teriam, naquela ocasião, dado sustentação a uma contestação de mandato ou se deixariam os tucanos isolados, acusados de golpistas e interesseiros eleitorais.

Mesmo assim, por parte de Fernando Henrique há o reconhecimento de que o PSDB cometeu erros de avaliação, sendo o principal deles a suposição de que o apoio a Lula se desfaria no ar, como que por gravidade e apenas por força da decepção provocada pela contradição entre o que o PT dizia ser e aquilo que o partido realmente foi quando chegou ao poder.

Se no dia 1º de outubro ficar mesmo confirmado que a constatação é tardia, que Lula tem energia e capital políticos não apenas para se reeleger como para fazê-lo em primeiro turno, restará aos tucanos refazer as credenciais para se apresentar de novo ao público em 2010, tendo como plataformas de lançamento os governados de São Paulo e Minas Gerais.

Conceição
Não é que estejam morrendo de saudades, mas, por uma questão de curiosidade, os pemedebistas se perguntam ultimamente por onde anda Anthony Garotinho, de quem nunca mais se soube, nunca mais se viu.

Nem a seus mais chegados aliados ele retorna ligações.