quinta-feira, junho 29, 2006

Um BC excessivamente neutro editorial

O Estado de S. Paulo
29/6/2006

Parece haver um acordo tácito entre as autoridades monetárias e o
governo: este respeita a política do Banco Central (BC) e aquelas
procuram não criticar a gestão da economia. Daí a impressão de que o
Relatório da Inflação do BC, que no passado fornecia uma análise
profunda da situação econômica do País e seus problemas, se limita
agora a repetir o que se lê nas atas do Comitê de Política Monetária
(Copom).

A leitura do Sumário, à qual devem se limitar muitos empresários que
não têm tempo de ler a íntegra, de 130 páginas, referente ao segundo
trimestre do ano, oferece uma visão otimista da situação da economia
brasileira. Depois da perturbação ocorrida no mercado financeiro
internacional, esperava-se que o BC centrasse sua análise nas
possíveis repercussões sobre a economia interna. Na realidade, o BC
mostra intrigante tranqüilidade, seguro de que a melhoria dos
fundamentos que sua política favoreceu permite ao Brasil atravessar
ileso essa tempestade.

Os efeitos da crise aparecem unicamente na pequena revisão da
previsão de inflação, medida pelo IPCA: de 3,7% para 3,8% neste ano e
de 3,9% para 4,2% no próximo, mantida a projeção de crescimento de 4%
em 2006 e de um confortável superávit em transações correntes do
balanço de pagamentos.

Depois da publicação do Relatório, Luiz Fernando Cezário, um analista
do banco HSBC, opina que o Copom poderá promover, até o final do ano,
duas reduções da Selic: uma de 0,50 e outra de 0,25 ponto de
porcentagem.

No passado, o presidente do BC, Henrique Meirelles, explicava com
razão que a Selic se mantinha elevada por causa das contas fiscais.
Hoje, o Relatório analisa com grande neutralidade as perspectivas das
contas públicas, sem dar nenhum destaque aos efeitos da elevação do
salário mínimo, nem dos gastos com o funcionalismo, limitando-se a se
mostrar satisfeito com a manutenção de um superávit primário de 4,25%
do PIB, quando seria necessário reduzir o déficit nominal para evitar
um crescimento da dívida mobiliária interna federal, que representa o
ponto fraco da nossa conjuntura econômica, num período em que a
liquidez internacional encolheu.

Não cabe ao BC sugerir medidas para a administração da economia,
ainda mais em período eleitoral. No entanto, se o propósito do
Relatório da Inflação, como diz sua introdução, é “delinear um
cenário prospectivo”, seria desejável que fizesse uma análise mais
crítica para 2007.