quarta-feira, junho 28, 2006

Os maomés vão à montanha Dora Kramer ESTADO

Os maomés vão à montanha

Lula manda dois ministros ao TSE para tentar quebrar o gelo e posar
de bom-moço

A visita que os ministros das Relações Institucionais e da Justiça
farão hoje ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral é
objetivamente desnecessária, dado que o cumprimento da lei independe
de trocas de mesuras nem é questão de entendimento entre Poderes.

A reunião, marcada por iniciativa do Palácio do Planalto a propósito
de "discutir" com o TSE as normas que regem a campanha eleitoral, em
especial a situação do candidato-presidente, atende a dois objetivos:
um político e outro publicitário.

Politicamente, Tarso Genro e Márcio Thomaz Bastos tentam, em nome do
presidente da República, "quebrar o gelo" por enquanto intransponível
do rigor anunciado pelo ministro Marco Aurélio Mello no tocante à
observância das normas eleitorais.

O governo teme que o presidente do TSE, além de dar duro na aplicação
da lei, pretenda também assumir o lugar de protagonista desta
eleição. Oficialmente, no governo todos manifestam muito respeito por
Marco Aurélio, cuidando mesmo de negar qualquer conotação política em
suas decisões e declarações.

No paralelo, porém, fala-se com bastante desenvoltura da "vaidade" do
ministro Marco Aurélio e de sua opinião não exatamente carinhosa a
respeito do presidente Lula e de seu, digamos, entorno.

O objetivo publicitário da visita de hoje ao tribunal é acintoso: dar
a impressão de que ao governo antes de mais nada interessa andar
dentro dos limites da lei e, mais que depressa, neutralizar a imagem
de transgressor que o presidente da República cultivou nos últimos
meses.

Vista à luz fria da realidade, a reunião soa até absurda, pois jamais
se viu representantes do Poder Executivo dirigirem-se oficialmente ao
Poder Judiciário para manifestar total disposição de cumprir a lei.

Agora, se der para no meio da conversa ainda "discutir" os meandros
da aplicação dessa mesma lei e se, além disso, ainda for possível
sair da reunião sabendo o que pensa o presidente da Corte de modo a,
com isso, balizar o comportamento do candidato, tanto melhor.

A rigor, não haveria necessidade de balizamento externo, pois o
presidente e seus ministros sabem perfeitamente bem o que quer dizer
proibição do uso da máquina pública em favor da candidatura.

Usa-se o argumento de que o "governo não pode parar" só porque o
presidente quer continuar andando para lá e para cá falando sobre
seus feitos fora do horário eleitoral. Governos não param quando
presidentes estão sob restrição de propaganda, a menos que a
administração seja sustentada em atos meramente publicitários.

Lula quando quis e se interessou, manteve-se recolhido. Foi no auge
do escândalo do mensalão. Era preciso muita cobrança para que se
visse a imagem ou se ouvisse a voz do presidente naqueles dias.

E o governo por acaso foi diferente, ficou objetivamente melhor ou pior?

Não, enquanto Luiz Inácio da Silva aguardava em seu silêncio
obsequioso a passagem do furacão, a vida seguiu igual. A única
diferença era a ausência dele no centro do palco, aonde agora está
proibido de ficar, mas de onde não quer nem ouvir falar em sair.

Ao vivo

Semanas atrás, passando por município do interior de Pernambuco, o
presidente do TSE, Marco Aurélio Mello, pôde conferir pessoalmente a
ineficácia da proibição de distribuição de brindes como forma de
baratear e moralizar a eleição.

Pasmo, testemunhou a arregimentação a poder de dinheiro vivo, sem a
intermediação dos bonés entre o cacique e o eleitor.

Desdém

PT e PSDB vão firmando maneiras reciprocamente desdenhosas de se
referirem um ao outro.

Os tucanos adotaram o "essa gente" difundido em princípio pelo PFL.

Na convenção de sábado passado, Lula não se referiu uma única vez ao
adversário pelo nome; falou o tempo todo "neles", "deles" e "eles".

Se todos fossem

José Sarney foi mais bem tratado na convenção do PT do que nas
reuniões do PMDB, onde até vaia já levou por causa da briga entre as
alas governista e oposicionista do partido.

Para Lula, Sarney revelou-se um "grande companheiro", cuja melhor
qualidade é a discrição. Quando há algum problema, "não fala com a
imprensa, fala com a gente".

Fosse Roberto Jefferson tão discreto e leal quanto Sarney, até hoje
não se saberia da missa a metade.

Modo de expressão

Brasil "desarranjado"?

Deus nos proteja desse palavreado, cujo estilo plebe rude só tende a
se acentuar com a proximidade das eleições.