domingo, abril 02, 2006

DANIEL PIZA Carta ao contestador de meia-idade

ESTADÃO
 

Meu caro Christopher Hitchens,

Achei interessante seu livro 'Cartas a um Jovem Contestador' e imagino que possa ser muito estimulante para jovens que o leiam aqui ou em qualquer país. Mas, como acompanho há tempos seu trabalho de crítico cultural em revistas como Vanity Fair e livros como o que defende George Orwell, posso me dizer decepcionado. Em momentos cruciais de sua argumentação, você deixa a dever. E o que mais precisamos na atualidade é de contestadores que não reduzam suas opiniões a slogans ou temam enfrentar questões contraditórias.

Antes devo dizer que a escolha da palavra "contestador" é feliz. Opções como "radical", "dissidente" ou "agitador" têm um travo ideológico que não convém. Como você diz, é comum o pressuposto de que a esquerda socialista tem a exclusividade da contestação. E sua definição do espírito contestador é muito adequada, "uma disposição à resistência contra a autoridade arbitrária ou a opinião de massa inconsciente". Alguns conselhos, também:

"Não confie na compaixão; prefira a dignidade para você e para os outros. Não tema ser considerado arrogante ou egoísta. Olhe todos os experts como se eles fossem mamíferos. Nunca seja um espectador da injustiça e da estupidez. Procure o debate e a discussão por eles mesmos; o túmulo fornecerá muito tempo para o silêncio. Suspeite de seus próprios motivos e de todas as desculpas."

Essas frases vêm muito a calhar para o meio cultural brasileiro, em que o debate de idéias é sempre posto em segundo plano, ora pela turma do "deixa disso" e do "é melhor não responder", ora por aqueles mais interessados em desancar o oponente, em ridicularizar sua pessoa. Desculpas, então, eis o que não falta: nossos intelectuais têm a bizarra disposição de aceitar até as desconversas mais deslavadas dos políticos, toda vez em que forem, claro, de sua preferência partidária. E são incapazes de organizar um protesto ou manifesto, nem que seja em defesa de seu bem mais precioso, a liberdade de expressão. Como você, e para usar um poeta da sua língua, "I fought many a battle", e garanto que há ambientes piores que o seu.

Também concordo com seu ponto de vista geral sobre a necessidade da crítica, da combatividade, além do alerta de que "os prazeres e recompensas do intelecto são inseparáveis da angústia". A maioria das pessoas ainda se prende emocionalmente às ilusões e aos preconceitos, que muitas vezes estão naquelas mesmas que se dizem livres de ambos. O intelectual, portanto, deve abandonar os eufemismos e as evasões e muitas vezes dizer o que elas não querem ouvir, o que lhe valerá adjetivos como "elitista" e "pessimista" e pedidos de que faça "crítica construtiva" (ou seja, como você bem observa, favorável). Dissidentes não são nem devem ser santos.

E, sim, é preciso ser cético, pois "a própria Utopia era uma tirania", sem ser esnobe ou niilista. O polemista de carteirinha, que fala o contrário de todo mundo só para mostrar que fala o contrário, não nada na contracorrente - se me permite uma citação própria -, mas na corrente do contra. E um estilo espirituoso e cortante não é, por definição, monotemático e panfletário. O atrito e a irritação, no entanto, são inevitáveis e, mais ainda, indispensáveis para a energia e a agudeza; e a solidão é a condição de quem enfrenta a credulidade e o populismo, a facilidade com que as pessoas se deixam levar pela mentira e pelo medo.

É exatamente por tudo isso que não entendo algumas de suas posições. Você apóia, por exemplo, a guerra no Iraque. Mas sabe que ela foi fundamentada numa mentira - a posse de armas nucleares por Saddam Hussein - e alimentada pelo medo instilado na população depois do 11 de setembro de 2001. E como combinar isso com a recomendação de que o jovem viaje muito e seja um internacionalista? Bush II apelou aos mais baixos instintos patrióticos, usando argumentos religiosos e racistas como os que você tanto condena no livro. "Os piores crimes", escreve com perspicácia, "ainda são cometidos em nome das velhas tolices tradicionais: a lealdade à nação, à 'ordem', à liderança, à tribo ou à fé." O que mais pedem os falcões "neocons"?

Logo, se é fácil concordar em que a globalização precisa também internacionalizar a justiça e a ética, é preciso lembrar que ela, ao contrário do que tantos dizem, não é tão-somente a aniquilação das identidades culturais e dos nacionalismos. Quando você escreve que "a concepção materialista da história não foi ultrapassada como meio de analisar as questões", acrescentando apenas a aversão ao capitalismo monopolista e suas "tendências fatais", também soa superficial demais. O problema de Marx era achar que todo capitalismo tende a ser monopolista; e a luta de classes não é o motor único da história. Contestadores devem desconfiar dos especialistas, mas também aprender com eles. Bem que notei que, entre suas infindáveis citações, nem sequer um economista pós-Milton Friedman deu as caras.

Gosto quando você observa que há "conservadores radicais", isto é, contestadores, como Edmund Burke e Thomas Paine, que defenderam direitos humanos e minorias contra as investidas dos fanáticos. Mas você também poderia ter notado que pessoas de espírito liberal, como nós, podem aprender muito com alertas conservadores. Outro dia li uma entrevista sua neste jornal em que você disse que não gosta da produção visual do cristianismo, em oposição à determinação do islamismo (e do judaísmo) de não representar Deus e seus profetas. Bem, a arte de Giotto a Rembrandt é o que mais se aproxima do que você chamaria de "revolução cultural, não violenta"; é a própria criação do mundo mental perspectivista e antidogmático ao qual você pertence. Tradições precisam ser valorizadas para que sejam contestadas e renovadas.

Minha última objeção seria a uma coisa que você não diz integralmente, mas que transparece ao longo de todo o livro. É a super-estima de movimentos como o socialista e o contracultural, que parecem ter sido os únicos responsáveis pelas conquistas civis do século 20. Também me pergunto se o glamour que deposita em pessoas que rodam o mundo (ou rodavam, como Susan Sontag) defendendo causas como a antiglobalização é real; ou se não seria conveniente que elas conhecessem melhor a verdade de cada nação antes de fazer como Bono Vox e declarar apoio a políticos que agem contra a justiça e a liberdade.

Peço desculpas por tratá-lo como "de meia-idade", expressão que detesto para designar quem tem 57 anos como você. Mas não peço desculpas por contestá-lo, ainda que haja tanta coisa admirável em seu livro. Pelo menos você compreende.

UMA LÁGRIMA

Para a atriz Ariclê Perez, que me honrava com sua leitura. Tinha classe e cultura raras em seu meio ou qualquer outro.

ZAPPING

O chatíssimo BBB6 confirmou a tradição rousseauniana e teve como vencedora aquela que pareceu ao público a pessoa mais humilde e necessitada.

POR QUE NÃO ME UFANO (1)

Com a queda de Palocci, Lula fica sozinho como nunca em seu governo e, provavelmente, em sua vida. Perdeu o homem forte da economia, como tinha perdido o da política. Da equipe de ministros com que começou, restaram apenas os que não são do PT, como Márcio Thomaz Bastos, Roberto Rodrigues e Luiz Fernando Furlan. Outros de seus melhores amigos, como Frei Betto, também já haviam deixado o governo. Seu marqueteiro está na berlinda jurídica. No partido, a cúpula não é a sua; Genoino e Delúbio caíram no ostracismo. Só posso imaginar, então, que ser candidato à reeleição é um ato de narcisismo extremo, mesmo porque não haverá ambiente para trazer a turma de volta.

Palocci era tido pela chapa-branca como a "ilha de racionalidade" do governo. Os escândalos e mentiras em que se meteu, no entanto, não só provam que ele não era nada austero com o dinheiro público, mas também que demonstrar tranqüilidade e solicitude numa entrevista coletiva não é sinônimo de inocência. O que deveria ficar mais claro é como a política econômica do governo Lula foi adotada por conveniência, não por amadurecimento. E por isso mesmo ela precisou ser ainda mais "ortodoxa" (tecnocrática, na verdade) e jamais teve instrumento para frear a economia a não ser com solavanco. Daí o crescimento ridículo do PIB em 2005, só superior ao do Haiti na América Latina.

Guido Mantega substituiu Palocci porque Lula não tinha opção, não por uma guinada "desenvolvimentista" (populista, na verdade). Já faz tempo que ninguém sensato aceita convite para integrar o governo. Pode até ser que, se Lula for reeleito, no próximo mandato ele consiga convencer gente mais qualificada. Mas vai ser difícil. A perspectiva de um segundo governo Lula é melancólica.

POR QUE NÃO ME UFANO (2)

De seu ponto de vista pessoal e do partidário, a candidatura de José Serra ao governo pode até fazer sentido. O que não faz é que ele quebre a promessa de não abandonar a prefeitura e a deixe nas mãos de Kassab