Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 02, 2006

AUGUSTO NUNES Enquadre o garotão, Dona Toninha

JB
Enquadre o garotão, Dona Toninha

Os corações dos Altos Companheiros bateram em descompasso na cerimônia do adeus de Antonio Palocci. ''A mesa das pessoas pobres hoje é mais farta do que antes'', elogiou-se o ex-ministro da Fazenda. ''Saio feliz pelo dever cumprido''. Saiu por quê? ''Pela perseguição política movida pela oposição feroz'', viajou a vítima, que diz guardar ''profundo respeito às pessoas e às leis''.

Sobre o estupro do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, nenhuma palavra.

O presidente Lula engatou uma segunda e partiu para o improviso. Não houve nem haverá ninguém mais hábil que Palocci no comando da economia, decretou, antes de premiar o ex-ministro com honrarias retóricas. Além de conceder-lhe a Medalha do Bom Companheiro, incluiu o amigo numa categoria especial. ''É um grande irmão'', informou. Faz sentido: a ofensiva contra Francenildo lembra o Grande Irmão de George Orwell.

Sobre esse ataque infame, Lula nem piou. Como se sabe, ele nunca sabe o que acontece ao seu redor. De vez em quando até ouve alguns rumores. Mas já avisou mais de uma vez que não é homem de prejulgar ninguém.

Como no episódio do ''amigo Zé'', o discurso de Lula tornou incompreensível a expulsão do craque. Se brilhou tão intensamente em campo, se não fez nenhuma falta, por que Palocci levou cartão vermelho no meio do jogo?

Porque cometeu pecados mortais, responde em coro o Brasil com mais de três neurônios. Porque mente mais que adúltero priápico, acrescentaria quem o conhece desde os tempos de prefeito de Ribeirão Preto.

Palocci mentiu ao garantir que nunca se meteu em negócios suspeitos com a empresa Leão e Leão, contratada pela prefeitura para cuidar da coleta de lixo. Mentiu ao jurar que praticamente deixara de conversar com Rogério Buratti, ex-assessor e amigo de fé, depois de instalado no ministério. Mentiu ao afirmar que nem conhecia a mansão alugada em Brasília pela turma de Ribeirão. Não só freqüentava o lugar como era chamado de ''Chefe'' pelos sócios do clube.

Mentiu ao dizer que nada tinha a ver com a violação da conta do caseiro na Caixa Econômica Federal. Mentiu ao avisar que não participara das manobras forjadas para assustar a testemunha das mentiras que contara. Dona Toninha Palocci precisa lembrar ao filhão que mentir é muito feio. E pode dar cadeia.

Lula é outra coisa. Embora Palocci passasse a despachar no Planalto depois das revelações do caseiro, o presidente de nada desconfiou. É um caso patológico. Um problema para médicos.

Veterano perdedor de loterias, o Cabôco está rubro de inveja do campeão Egton Pajaro, sócio do bicheiro Carlinhos Cachoeira (aquele do videobandido estrelado por Valdomiro Diniz, assessor da Casa Civil então chefiada por José Dirceu). A CPI dos Bingos está interessada em descobrir que tipo de sorte levou Egton e o irmão a acertarem mais de 100 vezes a quina ou a quadra da Mega-Sena. O Cabôco também quer saber.

O Brasil povoa o espaço

O leitor David Palatnik escreveu à coluna para discordar do vôo do tenentecoronel Marcos Pontes a bordo da nave russa Soyuz . Palatnik reconhece que Pontes é o primeiro astronauta nativo a circular pela estratosfera. Mas ressalva que, antes de um ser humano, o Brasil mandou para o espaço muita coisa importante. Nosso colaborador relaciona alguns itens que o tenente-coronel poderá encontrar nas lonjuras siderais.

"O decoro parlamentar, a ética na política, investimentos em educação e saúde, a dívida interna, a eficiência do Judiciário", exemplifica. A coluna engrossa a lista: um bom pedaço da Amazônia, a rede ferroviária e milhares de quilômetros de rodovias.

...o deputado federal baiano Jutahy Magalhães, líder do PSDB na Câmara, pela frase declamada para justificar o apoio de tucanos e pefelistas à absolvição do mineiro Roberto Brant:

''Caixa dois é crime eleitoral sujeito a multa, e não a cassação do mandato''.

Para o júri do Yolhesman, a frase equivale à "dança da pizza" inventada pela petista Ângela Guadagnin.

Um dos dois precisa sair

O ministro da Cultura, Gilberto Gil, usou a boa voz para a leitura de um documento que trata da questão da TV digital. No texto, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, é qualificado de ''empresário boçal'' e acusado de defender interesses monopolistas. O ofendido recorreu à voz igualmente boa para a réplica: ''É por isso que o Gilberto Gil é chamado por tanta gente de Gilberto vil'', contra-atacou.

Pelo menos dessa briga o presidente certamente soube. Mas ficou em silêncio. A nação sugere a Lula que faça algo. Ou convoca a dupla de brigões e exige a imediata reconciliação ou decide quem está certo e demite o outro. O que não pode é manter no Ministério um exemplo de vileza ou um boçal de carteirinha.

Faltou água no chuveiro

Candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin ainda governava São Paulo quando prometeu ao Brasil "um banho de ética". Declarações precipitadas produzem conjunções astrais desfavorávei s . Prestes a deixar o Palácio dos Bandeirantes, a habitual serenidade de Alckmin foi perturbada pela Folha de S.Paulo.

Uma reportagem do jornal atestou que verbas publicitárias da Nossa Caixa – versão estadual daquela – andaram percorrendo trilhas suspeitas, desmatadas por Roger Ferreira, responsável pela área de comunicações da administração estadual. Não foi pouca coisa.

Documentos divulgados pelo jornal atestaram que boladas consideráveis haviam favorecido empresas ligadas a deputados amigos. Confrontado com a história, Alckmin reagiu com irritação.

Informou que a história era velha. Fora devidamente investigada, e por iniciativa do governo. Nada havia a ser apurado. A demissão de Roger Ferreira mostrou que havia gente à espera de castigo.

Se o banho de ética já tivesse começado, o candidato a presidente teria afastado de imediato o assessor. Só o fez depois de alguns dias. Em temporadas eleitorais, os dias são muito mais longos.

Primeiro fala; depois, pensa

Enquanto festejava a descoberta dos R$ 25 mil na conta do caseiro, a catarinense Ideli Salvatti, líder do PT no Senado, foi convidada por jornalistas a explicar como se dera o achado. Teria ocorrido a quebra ilegal do sigilo bancário de Francelino Costa? Ideli poderia alegar que não dispunha de informações para responder à pergunta. Mas ela é da tribo dos que primeiro falam e só pensam depois.

''Qualquer pessoa pode esquecer um extrato em algum lugar e alguém ler'', improvisou. E se Paulo Okamotto for dado a tais distrações?, animaram-se integrantes da CPI dos Bingos. Exaustos de pedir ao STF a quebra do sigilo do homem, senadores agora vigiam curvas onde apita o trenzinho pagador do Planalto.

augusto@jb.com.br

[02/ABR/2006]


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