sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Tucanos perdem tempo enquanto Lula avança

VEJA
Os dois estranhos no ninho

A briga entre Serra e Alckmin enfraquece
o PSDB na disputa pela sucessão de Lula


Fábio Portela

Sebastião Moreira/AE
Almoço indigesto: a cúpula do partido (FHC, Tasso e Aécio) colocou a decisão nas mãos de Serra e pediu a Alckmin que não atacasse o prefeito
Vania Delpoio/Diário de S. Paulo/O Globo

Há dois meses, o PSDB aparecia nas pesquisas de opinião como favorito à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas os levantamentos eleitorais feitos nas últimas semanas mostram que as intenções de voto nos candidatos tucanos estão evaporando. Uma das principais causas é a guerra fratricida travada pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, contra o prefeito paulistano, José Serra. O primeiro tenta, desde janeiro, fazer com que a cúpula do partido engula a sua candidatura. Emparedou os cardeais da agremiação amealhando apoios nos diretórios estaduais e permitiu que seus aliados atacassem Serra em entrevistas na TV. Preferido pela cúpula e pelos aliados do partido, o prefeito, por sua vez, espera ser aclamado candidato. Enquanto isso não ocorre, Serra não abre espaço para que seu companheiro tente crescer. Os partidários de cada um acusam a outra facção de tentar alçar vôo-solo. Na semana passada, chegou-se a ouvir, num partido tradicionalmente avesso a confusões internas, a palavra "racha".

O desastre provocado por essa disputa está expresso em uma pesquisa divulgada pelo Datafolha na semana passada. Ela mostra que Serra agora pode perder de Lula no primeiro e no segundo turno. É a primeira vez que isso acontece desde que começou a crise do mensalão. A situação do governador paulista é ainda pior. Ele garantiu a seus correligionários que os 22 pontos que as pesquisas lhe davam há alguns meses eram apenas um piso sobre o qual as intenções de voto em seu nome cresceriam quando ele se tornasse mais conhecido nacionalmente. Aconteceu o contrário, e o PSDB descobriu que o piso de Alckmin é mais embaixo, embora seu índice de rejeição seja menor do que o de Serra, segundo o mesmo Datafolha. Hoje o governador paulista teria, no primeiro turno, menos da metade das intenções de voto de Lula. Com Alckmin no páreo, o petista poderia ganhar a eleição já no primeiro turno ou mesmo enfrentar Anthony Garotinho, do PMDB, em um segundo turno. Lula – o verdadeiro rival de Serra e Alckmin – foi o único que cresceu nas pesquisas. Em apenas dois meses, o presidente ganhou 12 pontos. Panorama semelhante ao revelado pelo Datafolha havia sido detectado pela CNT/Sensus duas semanas atrás e por uma pesquisa encomendada pelo PSDB ao Ibope, mantida sob sigilo pelo partido.

Joedson Alves/AE
Nos braços do povo: enquanto os tucanos se depenam, Lula se joga na campanha

O levantamento do Ibope vem embasando as discussões da cúpula tucana sobre quem é o melhor candidato para enfrentar Lula. O Ibope formulou uma pergunta que também aparece no questionário do Datafolha: quem é o preferido dos eleitores tradicionais do PSDB e do PFL, agremiação que deve indicar o vice da chapa dos tucanos? Há três meses, Serra era apontado como o predileto por 63% desses eleitores. Hoje, é o favorito de 70%. Esse quesito é considerado importante porque, teoricamente, funcionaria como uma versão abrasileirada das primárias, que são votações promovidas pelos partidos americanos junto ao eleitorado para escolher os candidatos a presidente. Serra também leva vantagem em relação a Alckmin no eleitorado que não se declara tucano e que se identifica com ideologias de esquerda. Alckmin espanta esses eleitores: uma parte dos votos desse pessoal migra para Lula e Garotinho quando o governador substitui o prefeito nas pesquisas.

Há dez dias, o presidente do partido, Tasso Jereissati, o secretário-geral, Eduardo Paes, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ouviram uma análise dos dados do Ibope feita pelo sociólogo Antônio Lavareda. Concluíram que, como Alckmin aparece pior nas pesquisas, sua chance de negociar palanques estaduais com outros partidos é menor. Acreditam ainda que ele não será capaz de fazer frente a Lula até 30 de junho, quando o presidente será obrigado a se declarar candidato e passará a dividir a cobertura de TV em tempo igual com seus adversários. Eles temem que, até lá, o petista cresça tanto que se torne impossível derrotá-lo. Há outro componente político relevante: o PFL, o principal aliado, quer Serra, e não Alckmin, na cabeça da chapa. O prefeito também tem a preferência da executiva do PSDB, da maior parte dos senadores e dos diretórios estaduais. Alckmin leva vantagem com os governadores. A bancada federal de deputados está dividida.

No panorama atual, Serra só não será o candidato tucano se avaliar que os riscos são maiores do que se imaginava. A cúpula partidária o pressiona para que ele se defina quanto antes. Na semana passada, o alto tucanato recebeu os resultados de uma outra pesquisa que reforça a candidatura Serra. Segundo esse levantamento, que não foi registrado, o prefeito está empatado com Lula no segundo turno. Alckmin, por sua vez, perde do presidente pela mesma diferença auferida pelo Datafolha. O prefeito só lançará sua candidatura, no entanto, se houver uma conclamação pública e unânime do PSDB – o que inclui Alckmin. Durante a campanha para a prefeitura, Serra assinou um papel afirmando que não deixaria o cargo para disputar com Lula. Na TV, chegou a dizer que seus eleitores poderiam abandoná-lo se ele descumprisse a promessa. O prefeito acha que uma convocação partidária poderia justificar sua saída. Um ato de vontade pessoal, não, porque o custo político disso seria muito alto. É nesse medo que Alckmin aposta. Sua estratégia é potencializar os riscos de uma eventual renúncia de Serra, evitando que o partido declare apoio ao prefeito. Para isso, avisou que não aceita que o triunvirato Tasso-Aécio-FHC lhe imponha sua decisão, passou a trabalhar para conquistar os diretórios estaduais do partido que estão com Serra e ameaçou o partido com prévias – um instrumento que, entre os tucanos, só existe no papel.

Com esses movimentos, o governador inverteu a lógica do PSDB, que sempre foi dirigido pelos seus cardeais. Se for escolhido candidato, Alckmin terá derrotado a geração dos fundadores do partido e poderá tomar o controle da agremiação. Apesar de todos os sinais contrários, o governador tenta suavizar a gravidade do confronto: "A escolha do candidato será por acordo". Por enquanto, o único acordo entre eles é que o nome do PSDB será escolhido até o próximo dia 10, na semana seguinte ao Carnaval. Enquanto os tucanos se depenam, Lula segue a vida de candidato. No início da semana passada, inaugurou pela segunda vez a reforma do aeroporto do Recife. No dia seguinte, participou da colocação da pedra fundamental de uma extensão da Universidade Federal no Maranhão, e ainda deu uma esticadinha ao Pará. No Piauí, soltou uma pérola: "Um homem público não precisa de época de eleição para fazer campanha. Ele faz campanha da hora em que acorda à hora em que vai dormir, 365 dias por ano". É só isso que o presidente tem feito, embora seja proibido pela legislação eleitoral.

O que diz a pesquisa que o PSDB encomendou ao Ibope

• Há três meses, Serra era o preferido de 63% dos eleitores do PSDB e do PFL. Alckmin, de 34%. A diferença cresceu 7 pontos a favor de Serra

• Serra está 2 pontos atrás de Lula em um eventual segundo turno. Ou seja, dentro da margem de erro. Por isso, teria mais chance de vencer

• Como Serra pontua melhor nas pesquisas do que Alckmin, tem mais chance de conseguir obter apoios que dêem palanque ao PSDB nos estados

• Quando se substitui Serra por Alckmin, uma parte dos votos tucanos migra para Lula e outra para Anthony Garotinho, do PMDB

• Com Alckmin, o PSDB corre risco de ficar de fora do segundo turno da eleição