sexta-feira, fevereiro 24, 2006

A hierarquia dos desastres

VEJA

Ranking de presidentes americanos
indica o que de fato é levado em conta
pela história


Diogo Schelp


Todo mundo gosta destas listas que estabelecem hierarquias entre fatos, coisas ou pessoas – mas os americanos levam isso à obsessão. Algumas, como o ranking das 500 maiores empresas, das cinqüenta personalidades mais bonitas ou das melhores universidades, são levadas tão a sério que definem padrões de comportamento e influenciam decisões de negócios. Outras listas parecem ter pouca ou nenhuma utilidade prática. Na semana passada, um grupo de pesquisadores da Universidade de Louisville, no estado de Kentucky, divulgou o ranking dos dez piores erros cometidos por presidentes americanos. Para elaborar a lista, 37 historiadores identificaram quais foram, na sua opinião, os mandatários responsáveis pelos maiores desastres. A primeira colocação ficou com James Buchanan, 15º presidente dos Estados Unidos. Não chega a ser surpresa, visto que Buchanan foi ridicularizado em vida e seu retrato chegou a ser retirado da parede do Congresso americano. Seu erro foi a inepta administração da crise entre o norte e o sul, armando o cenário para a guerra civil que explodiu nas mãos de seu sucessor, Abraham Lincoln. Também foi o único presidente solteiro da história americana. Seus contemporâneos achavam estranho, mas não um defeito.

Há dois motivos para a paixão por listas de melhores e piores. O primeiro está relacionado à tradicional competitividade americana. O psicólogo Howard Gardner, da Universidade Harvard, definiu assim: "A obsessão por rankings é um sinal do mito urbano da classe média de que a vida é uma competição e que, se você não conseguir chegar a Harvard ou a Stanford, não terá nenhuma chance nela". O segundo motivo é a enorme quantidade de informação e opções de produtos disponíveis no mundo moderno. Os rankings ajudam a afunilar as opções, apresentando o que há de melhor segundo determinados critérios. Com uma lista de Top 10 na mão, a pessoa sente-se mais segura para escolher o livro que vai comprar, o novo grupo musical que vale a pena conhecer e a universidade a freqüentar.

Como método de estudo da história, os rankings são falhos. Há uma grande diferença entre listar as dez músicas mais tocadas nas rádios ou os homens mais ricos do planeta – com base em números concretos – e estabelecer julgamentos com critérios subjetivos sobre eventos históricos. Nem por isso a elaboração dessas listas deixa de ser um exercício intelectual instigador. O estudo dos acontecimentos passados, de qualquer forma, nunca é totalmente objetivo. "A história é um caroço duro de interpretação cercado por uma polpa de fatos discutíveis", escreveu o historiador inglês George Clark (1890-1979). Como medir o desastre de uma Presidência? "O objetivo da nossa pesquisa era identificar as falhas que tiveram conseqüências negativas mais profundas e de longo prazo na sociedade americana", disse a VEJA o cientista político Gary Gregg, da Universidade de Louisville, coordenador do ranking dos erros presidenciais.

O critério não foi levado ao pé da letra na avaliação de Bill Clinton. O simpático presidente que antecedeu George W. Bush aparece em décimo lugar. A justificativa é o caso extraconjugal com Monica Lewinsky, estagiária na Casa Branca. Os americanos tomaram conhecimento dos detalhes mais íntimos do relacionamento, motivo de uma minuciosa apuração judicial – no entanto, as conseqüências para a sociedade americana foram de curtíssimo prazo. Clinton parece ter entrado na lista sobretudo por ainda estar bem presente na memória coletiva. Apesar desse deslize, o ranking permite tirar lições sobre o que realmente conta para a história. A primeira é que um presidente é responsável pelos deslizes de seus subordinados – e que não vale a desculpa de que desconhecia o que se passava na sala ao lado. Ronald Reagan está na lista pelo escândalo Irã-Contras. Ao que tudo indica, ele realmente não sabia que o Pentágono financiava a guerra civil na Nicarágua com a venda clandestina de armas ao Irã. A história o condena pela ignorância. Outra lição diz respeito ao risco de aventuras militares. Oito dos dez piores erros estão relacionados a conflitos armados. Bush, que ficou de fora do ranking dos grandes erros por ainda estar na Casa Branca, não escapa do próximo.