terça-feira, setembro 27, 2005

Oportunidade perdida Rubens Barbosa

Oportunidade perdida

O ESP

Em mais de 180 anos de relações diplomáticas, políticas, econômicas, comerciais e financeiras, o Brasil e os EUA mantiveram um intenso intercâmbio marcado por encontros e desencontros expressivos.

Tive o privilégio de acompanhar intimamente, por cinco anos, o desenvolvimento recente do relacionamento bilateral, como chefe da missão diplomática brasileira em Washington, até abril de 2004.

A política norte-americana em relação ao Brasil ainda se baseia em percepções pouco claras, mitos, estereótipos e distorções da realidade, derivados da falta de melhor conhecimento da nossa realidade política, econômica, social e cultural. O resultado é uma combinação de baixa prioridade, cálculo político por vezes superficial e imediatista, interesses econômicos e comerciais concretos, mas aquém de desenvolvimento potencial da relação. Não mencionando o paternalismo conservador e o evangelismo, marcas da atual administração Bush, a recíproca também é verdadeira - inclusive no que se refere à baixa prioridade.

Nos últimos cinco anos, de modo geral, as relações foram boas. Em alguns momentos, excelentes. Hoje são apenas corretas. Nunca, porém, foram livres de alguma tensão, geralmente motivada por conflitos comerciais ou preocupações com a segurança.

Durante o governo FHC e até a primeira visita do presidente Lula (junho de 2003), as relações estavam em expansão, como ficou demonstrado no curso da visita presidencial com histórica reunião entre dez ministros de cada país, com a criação de três grupos de trabalho nas áreas de macroeconomia, energia e agricultura e com a definição de uma agenda positiva. Nos dois últimos anos, poucos avanços efetivos foram registrados, refletindo a perda de prioridade dos EUA na política externa brasileira, segundo se infere de declarações oficiais.

Longe de ser nostalgia da subserviência, essas iniciativas representaram uma atitude pragmática e objetiva, visando a melhor aproveitar o que o país mais importante e o maior mercado do mundo têm a oferecer.

Visões diferentes deste enfoque, ideologicamente motivadas, pertencem ao universo da retórica e - mais uma oportunidade perdida - deixam de maximizar os benefícios que o Brasil pode extrair desse relacionamento.

As relações bilaterais experimentaram uma gradual transformação qualitativa, positiva para o Brasil, se forem entendidos os sinais que estão sendo dados. O Brasil começou a ser tratado de maneira diferenciada pelos EUA em diversas frentes, tais como a financeira, a do intercâmbio político-diplomático, sobretudo nos temas regionais. Nota-se clara disposição de Washington de minimizar e evitar diferenças e atritos.

Se os EUA estendessem tal tratamento à esfera mais ampla das relações internacionais, seria distinta a atitude americana, por exemplo, na consideração da incorporação do Brasil ao atual G-8 e ao Conselho de Segurança da ONU, na condição de membro permanente.

É sintomático que a Doutrina de Segurança Nacional dos EUA, publicada em 2002, não inclua o Brasil nem entre as "grandes potências", categoria em que figuram Rússia, Índia e China, nem entre os "aliados".

Exemplo da gradual mudança de percepção é o trabalho elaborado pelo National Intelligence Council, instituto de pesquisa da CIA, sobre o Panorama Mundial em 2020, no qual o Brasil é projetado como uma das potências econômicas globais, como comentei em artigo de 8 de fevereiro.

Do lado americano, o Brasil foi incluído em 2002 pelo Departamento do Comércio como um dos seis principais parceiros, ao lado de China, Índia, México, Canadá e Turquia. Por outro lado, o Brasil é o único dos grandes países sem uma estratégia coerente junto à comunidade decisória em Washington.

Embora não se observe uma clara política de promoção comercial que dê prioridade ao maior mercado importador do mundo, os EUA continuam sendo nosso maior parceiro comercial e o mercado mais importante para os produtos brasileiros. Dado o dinamismo das duas economias e dos respectivos setores privados, arrisco-me a prever que, nos próximos dez anos, o comércio bilateral deverá pelo menos dobrar, com ou sem a Alca.

O foco principal continuará a ser, no futuro previsível, a área comercial - ressalvada, é claro, a possibilidade de eventuais crises de maior gravidade, que nos envolvam nos planos bilateral, regional ou mundial.

No contexto hemisférico, somente o Brasil pôde criar para si mesmo um espaço diplomático capaz de assegurar-lhe algum grau de autonomia como potência regional.

Apesar de reconhecer o papel efetivo e potencial de liderança que o Brasil pode desempenhar na América do Sul, começa a ganhar corpo em certos setores da administração norte-americana a percepção dos que enxergam, do nosso lado, o projeto de "desafiar" a projeção dos EUA no continente, em razão do sentimento antiamericano por parte de setores do governo.

Trata-se, de longe, da mais importante relação bilateral do e para o Brasil. Por isso penso que deveríamos buscar, pragmaticamente, ampliar os campos de cooperação e os vínculos comerciais, ao mesmo tempo que devemos resguardar, de forma intransigente, o interesse nacional.

Ocorrem-me essas reflexões no momento em que está sendo publicado um livro, do qual sou co-organizador, no qual os diferentes ângulos do relacionamento bilateral, diplomático, econômico, comercial e de segurança são examinados por acadêmicos, políticos e diplomatas dos dois países.

O livro Relações Brasil-Estados Unidos: Assimetrias e Convergências (Editora Saraiva), que analisa, histórica e tematicamente, o conjunto das relações do Brasil com os EUA, incluindo a agenda de negociações em torno de uma área hemisférica de livre comércio, está sendo lançado hoje, com debate sobre as relações bilaterais, no Instituto Fernando Henrique Cardoso.

Rubens Barbosa, consultor,

presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp,

foi embaixador do Brasil

nos EUA e na Grã-Bretanha