sexta-feira, setembro 30, 2005

MIRIAM LEITÃO Políticas do BC

O GLOBO

O relatório de inflação divulgado ontem trouxe uma longa lista de notícias boas: a inflação caiu, o país está crescendo, crescem as importações de bens de capital, a renda do trabalhador está em recuperação, o país vai aumentar as reservas cambiais pelo terceiro ano, mesmo pagando antes ao FMI. Vinda da área política, uma dúvida se dirige para o Banco Central: será que Henrique Meirelles vai se filiar hoje? No governo, a notícia é negada.
A um interlocutor que perguntou a ele ontem se, de fato, está pensando em se filiar a um partido político no prazo que termina hoje, Henrique Meirelles respondeu: "Há baixa probabilidade de eu me filiar a algum partido." Baixa probabilidade é alguma probabilidade. A outro interlocutor, mais para o fim da tarde, Meirelles disse que tinha recebido convites de vários partidos, mas que as possibilidades eram "remotas". Ainda assim, fica a dúvida: possibilidade remota é alguma possibilidade. Hoje é o dia decisivo. Se ele assinar um documento, tem que assinar dois: a ficha partidária e a demissão do Banco Central; não necessariamente nessa ordem. Filiando-se a qualquer partido, está, na prática, revelando ambições políticas para a próxima eleição e, neste caso, tem que deixar o cargo imediatamente. Política e Banco Central são incompatíveis.


No relatório de inflação do terceiro trimestre divulgado ontem, o BC projeta uma inflação abaixo da meta para este ano e para o ano que vem, no cenário de referência, ou seja, se não houvesse qualquer mudança nos juros, nem no câmbio. Portanto, não é que o Banco Central esteja projetando uma inflação abaixo da meta, está apenas dizendo que, se tudo permanecesse constante, ela ficaria abaixo. Mas ficaria bem abaixo da meta no ano que vem. O que é o mesmo que dizer que, sim, os juros vão continuar caindo. E é bom lembrar que os cálculos foram feitos com um dólar a R$ 2,35 e ele está em R$ 2,21.

No cenário que traça usando os juros e o câmbio projetados pelo mercado, a inflação no ano que vem fica na meta durante os três primeiros trimestres e no último fica um pouco acima, em 4,8% (a meta é 4,5%). O problema é que, neste cenário, o Banco Central projeta como inflação de preços administrados 6,7%. Ninguém está prevendo preços administrados tão altos, porque os IGPs estão beirando zero no acumulado do ano. Claro que nem só de IGPs vivem os preços administrados, mas, em grande parte, sim. O IGP-M divulgado ontem foi a quinta deflação seguida. No ano, está em 0,21%. O IPA-M, também no ano, está com uma deflação de quase dois pontos percentuais.

A dúvida no mercado é: tanta desinflação está sendo feita com o sacrifício do nível de atividade? O Banco Central garante que não no relatório, mas são muitos os economistas hoje convencidos de que os juros estão muito mais altos do que deveriam estar e que isso está reduzindo o ritmo de atividade.

— Este é um ponto hoje sem consenso no mercado. Na minha visão, é um meio-termo. O país está crescendo, sim, mas poderia crescer mais. Nossa previsão é de um crescimento de 3,5% este ano e neste mesmo nível no próximo. Mas o mundo está tendo um crescimento fantástico. A gente está fazendo parte de um movimento ou sendo puxado por ele? — diz o economista Luís Fernando Lopes, do Banco Pátria.

Guilherme da Nóbrega, da Itaú Corretora, diz que o relatório veio meio atrasado, porque só confirma o que, de certa forma, já estava posto pelo próprio Banco Central: que haverá novos cortes de juros. Ele acredita que será de 0,5% no próximo mês. O economista discorda da crítica sempre feita de que o BC é conservador. Acha que ele apenas segue o manual.

Há muita divergência a esse respeito. Economistas experientes acham que, na verdade, o BC foi muito além da conta na elevação dos juros.

— Ele parece tentar derrubar a inflação abaixo da meta e, se for isso, é um erro, porque o BC tem que mirar o centro da meta, mas lembrando que ela pode ser mais dois ou menos dois. Não é razoável arriscar ficar abaixo da meta no ano que vem a esse custo. Não podemos nos dar ao luxo deste juro real pelo preço pago em produto, em dívida/PIB e em risco percebido — comenta um economista.

É isto: juros tão altos reduzem o crescimento do PIB; o fato de estar crescendo este ano não é prova de que os juros foram inofensivos. Eles diminuíram o crescimento possível. Juros altos aumentam a relação dívida/PIB porque impactam negativamente os dois lados dessa relação, e isso tudo aumenta o risco percebido pelo investidor. Bancos Centrais perseguem a meta, mas não perseguem o objetivo de levar a inflação abaixo da meta. Pode acontecer, mas não pode ser o objetivo.

No texto do relatório de inflação, o BC defende como acertada a sua política. Logo no início, diz que "contrariando algumas análises prevalecentes, que antecipavam perda de dinamismo". De fato, o PIB do primeiro trimestre foi ruim, mas, no segundo, teve recuperação. O relatório contou uma boa história: o Banco Central inverteu a curva da inflação e levou-a para a meta. Mas parece claro, em alguns dados como o câmbio, que os juros já deveriam ter caído mais fortemente e há mais tempo.