quinta-feira, setembro 29, 2005

EDITORIAL DE O GLOBO Desafios




A escolha do novo presidente da Câmara encerra uma fase conturbada, em que por sete meses, por incompetência de uns e esperteza oportunista de outros, o tom dos trabalhos na Mesa da Casa foi dado pelo baixo clero. Poucas vezes ficaram tão expostos a fisiologia e o nepotismo de parte da classe política brasileira do que na felizmente curta gestão de Severino Cavalcanti, obrigado a renunciar na vergonhosa e clássica manobra de políticos em batida de retirada para livrar-se da cassação inevitável. Sob José Thomaz Nonô ou Aldo Rebelo a Câmara estaria em mãos melhores do que nesse passado recente. Mas se é fato que se encerra um capítulo dos menos abonadores na história do Congresso, também é verdade que o novo presidente Aldo Rebelo assume para cumprir uma espécie de mandato-tampão cercado de desafios.

Um deles é contornar o efeito negativo do rolo compressor posto em marcha nos últimos dias pelo Palácio do Planalto a favor da sua candidatura. Nessa empreitada, o governo foi pródigo em exercitar deploráveis práticas fisiológicas, em que o dinheiro do contribuinte terminou usado com o objetivo de comprar votos onde se sabe que ele é vendido sem pudor. O Planalto ganhou a disputa com a oposição, mas reforçou a veracidade das evidências das ações pouco ortodoxas executadas na montagem da base parlamentar na fase do mensalão e do valerioduto.

O novo presidente terá de apaziguar a Casa e estabelecer a ordem para que a tramitação dos trabalhos nas CPIs e dos processos de cassação não impeça o cumprimento da pauta de votações em plenário. Rebelo tem ainda um desafio adicional, particular. O político do PCdoB constrói uma carreira respeitável, com fácil trânsito no Congresso. Disciplinado, essa virtude de Rebelo ficou evidente ao aceitar ser testemunha de defesa de José Dirceu, no processo de cassação do ex-ministro, embora tenha sido sabotado pelo colega de ministério quando tentou coordenar a base política do governo. Mas por ter defendido Dirceu, o novo presidente da Casa atrai naturais suspeições. Mais motivo ainda tem o deputado para exercer uma presidência isenta, principalmente nos tempos que se aproximam de definição das novas cassações. Mesmo que quem moveu a máquina pública para elegê-lo pense diferente.