terça-feira, setembro 27, 2005

AUGUSTO NUNES Os bandidos é que não passarão

JB

Uma conjunção de truques e acasos concedeu a criaturas do pântano a trégua que pediram ao demônio no tenebroso inverno de 2005. Graças a um truque jurídico, por exemplo, corruptos recolhidos ao corredor da morte política puderam suspender o desfile na avenida do cadafalso. Recuperaram parte da energia, sugere a desconcertante nota oficial divulgada pela executiva do PT. No documento, o bandido quer prender o mocinho. Só no Brasil.

No faroeste brasileiro, a cavalaria avança não para socorrer famílias decentes entrincheiradas no círculo de carroções, mas para ajudar os índios dispostos a tirar-lhes o escalpo. Neste país pelo avesso, soou recentemente o clarim do deputado Ricardo Izar, presidente da Comissão de Ética da Câmara. Contra todas as provas e evidências, essa flor do PTB paulista declarou que alguns dos 18 do Cofre merecem a absolvição por falta de provas. Ricardo Izar: guardem o nome.

A drenagem do lamaçal mal começou. Ainda é desconhecida a extensão da roubalheira, ainda se ignora a procedência do dinheiro, ainda não se sabe como foi consumido. A montanha de documentos juntados pelo Congresso abriga esplêndidas jazidas de informação, que sepultarão a falácia segundo a qual só ocorreram crimes eleitorais. É só devassar a papelada.

O problema é que os integrantes da CPI, além de avessos a tarefas que a TV não transmite, tiveram de interromper o trabalho depois da excomunhão do cardeal Severino, pastor do baixo clero. Forçado a renunciar à presidência da Câmara por ter recebido propinas de um dono de restaurante, Severino Cavalcanti deixou vago um cargo cujo ocupante se transforma no nº2 da fila da sucessão presidencial.

A disputa, iniciada antes ainda da queda do velho voraz, virou briga de foice no momento em que Lula voltou da Lua para outro pouso desastrado no Brasil real. A sensatez recomendava que Lula deixasse a escolha confinada ao Legislativo. Como nunca perde a chance de errar, decidiu lançar a candidatura de Aldo Rebelo, do PCdoB.

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, deveria incorporar um manicômio político à fieira de presídios que promete construir. Nesse hospício, o candidato e seu grande eleitor seriam trancafiados na ala dos reincidentes patológicos.

Rebelo era ministro da Articulação Política de Lula quando o Planalto julgou ter descoberto a fórmula para garantir a vitória, sem sobressaltos, do petista Luiz Eduardo Greenhalgh: distribuir verbas reivindicadas por esquivos parceiros da "base aliada". O triunfo de Severino comprovou que a idéia não funcionara. Pois acaba de ser ressuscitada pelo Ministério do Planejamento, que autorizou a vergonhosa distribuição de mensalões por atacado.

É cedo para dizer quem será o próximo presidente da Câmara. Só se sabe que Rebelo não será. Lula somará mais um fiasco à coleção acumulada desde a posse. Melhor assim. À frente do Legislativo, Rebelo nada faria para neutralizar tentativas de livrar do castigo os patifes de estimação.

Eles ainda controlam o PT e influenciam o governo. É essencial negar-lhes o acesso, pessoalmente ou por intermediários, a cargos com poderes para atrapalhar investigações ainda incipientes. O país quer ver desvendado o desmoralizante assalto à Polícia Federal no Rio. Quer cadeia para a máfia do futebol, denunciada pela revista Veja em brilhante reportagem de Thaís Oyama e André Rizek. Mas não vai baixar a guarda no Congresso. Em liberdade, ladrões de carteirinha gastam os milhões roubados, examinam rotas de fuga e sonham com a impunidade. Lula discursa e viaja. O povo espera o fim das investigações e a punição de todos os culpados. Todos.

Desta vez, os corruptos não passarão.