sexta-feira, julho 29, 2005

Luiz Garcia A CPI e os bons modos

O Globo


Primeiro de alguns cenários malucos: depois de sete dias de discussões atrás de portas trancadas, a CPI dos Correios (título mantido por razões sentimentais) informa ter chegado à conclusão de que caixa é substantivo feminino. Por maioria de votos, decide-se que o gênero do substantivo não modifica o numeral. Portanto, o certo será dizer "a caixa duas". Pode ser detalhe mas tem o valor histórico de ser a primeira decisão da CPI aprovada por todos os partidos.


Segundo cenário: É decidido que testemunhas suspeitas de relutância serão enquadradas numa de duas situações jurídicas: numa, já tradicional, estarão os proibidos de silenciar, mas autorizados a mentir; na outra, os proibidos de mentir mas com licença para dormir durante a formulação das perguntas. Apenas muxoxos são autorizados, e unicamente a depoentes de idade avançada.

Têm graça essas brincadeiras ridículas com assunto tão sério?

Claro que não. Mas o besteirol talvez chame a atenção para a necessidade de a CPI parar de servir de palco para o exibicionismo agressivo e a retórica vazia de alguns, como visto na apresentação integral pela TV e percebido no detalhado destaque dado pela imprensa aos depoimentos públicos.

O problema não está no palco, mas nos atores. Alguns deixam no eleitor-espectador a impressão de que CPIs servem mesmo como vitrine para parlamentares, e pouco ajudam na busca da verdade.

É conclusão falsa, como prova a história das comissões, e pelo que já se levantou nesta dos Correios. Só acontece que ninguém agüentaria passar horas na frente da televisão vendo a CPI trabalhando de verdade; ou seja, um grupo de senhores exaustos conferindo montanhas de folhas cobertas de cifras e nomes.

O resultado é que se passa para o cidadão a impressão de que os depoimentos são a essência da investigação parlamentar. Não é verdade: D. Renilda, mulher do candidato a vilão Marcos Valério, passou oito horas na CPI — e de todo esse tempo extraiu-se apenas a informação de que o hoje deputado José Dirceu sabia dos empréstimos articulados pelo marido da depoente para subsidiar a caixa-preta das despesas petistas. E tempo é bem precioso para toda CPI: inquéritos que se arrastam por meses a fio inevitavelmente perdem espaço na mídia, abrigo na memória da opinião pública e, com desagradável freqüência, a possibilidade de produzirem resultados práticos.

Há outro efeito: a seqüência de intermináveis depoimentos transmitidos ao vivo não ajuda a imagem dos interrogadores — e, por extensão, a do próprio Congresso. A que título e com que direito, pergunta o espectador, a discurseira interminável e auto-referente a que tantos se entregam? A repetição incansável de perguntas já diversas vezes respondidas? E as manifestações de agressiva falta de educação? Nem todos agem assim — mas são os excessos que ficam na memória da opinião pública e mancham a imagem do Congresso. Sem falar no risco de criar simpatia para depoentes que não a mereçam.

No essencial — o visível empenho na busca da verdade e no trabalho interno — a CPI e seu comando não parecem merecer nota baixa. Pelo menos até agora.

Será pena se a turma do picadeiro acabar conseguindo mais visibilidade do que o pessoal que trabalha de verdade.

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