terça-feira, maio 24, 2005

LUÍS NASSIF:O know-how político de FHC

 Os problemas enfrentados pelo governo Lula decorrem de uma sucessão de erros. Copiou-se Fernando Henrique Cardoso no que tinha de pior -a política econômica- e não se aprendeu o que tinha de melhor -a tecnologia de governabilidade.
O primeiro problema foi não ter contido a soldadesca quando a cidadela inimiga caiu. Qualquer general prudente trataria de impedir o porre da vitória, porque a ressaca vem em dobro.
Embora o caso Waldomiro tenha se tornado emblemático, o maior problema do PT foi a desenvoltura com que se comportou seu tesoureiro Delúbio Soares, na fase de fausto e deslumbramento com o poder. Visitas a setores que, em seguida, eram contemplados com decisões favoráveis de política industrial -como o caso dos estaleiros- foram episódios fatais, agravados pelas explicações de Delúbio em diversas entrevistas. Foi como se houvesse uma autorização para matar. Daí à multiplicação de escândalos foi um pulo.
O segundo ponto foi a maneira como se montaram as alianças partidárias. FHC tinha dois grandes aliados -o PFL e o PMDB- e uma constelação de partidos menores. O PT tratou de inchar partidos menores, para esvaziar seus adversários. Em vez de migalhas, eles passaram a disputar lugar no banquete. No governo FHC, o PTB de Roberto Jefferson não tinha a menor relevância -nem a menor capacidade de gerar uma crise política. Em lugar de um tostão, os partidos pequenos passaram a cobrar 1 milhão.
Aí entra o terceiro ponto, que foi a falta de monitoramento das ações dos indicados. No governo FHC, o porto de Santos foi loteado. Mas havia um olheiro -o atual secretário dos Transportes da Prefeitura de São Paulo, Frederico Bussinger- alertando para abusos maiores.
O quarto ponto foi essa ação continuada de montagem de caixinha política -aliás, justificada por Delúbio nas entrevistas que concedeu no início do governo e que hoje se transformaram em clássicos do amadorismo político. A lógica de FHC é a de que tesoureiro de partido é invisível e só deve atuar em período de eleição. Havendo possibilidade de vitória, não faltará dinheiro.
Agora, está-se em uma sinuca de bico. Sendo aprovada, a CPI dos Correios não derrubará governos. Mas, com a crise se avizinhando, reduzirá ainda mais qualquer disposição de Lula de efetuar as mudanças necessárias nas políticas monetária e cambial.

Besteirol
O último refrão dos cabeças de planilha é essa história de que a inflação é conseqüência da "gastança" do governo. É evidente a necessidade de aprimorar os gastos do governo. Só que inflação é variação de preços. E não houve nenhum aumento notável no volume ou na qualidade dos gastos públicos. Utilizar a "gastança" para justificar os juros altos é tentar curar um porre com outro.

IEA-USP
Agradeço ao reitor da USP (Universidade de São Paulo), Adolpho José Melfi, pelo convite para ocupar vaga no Conselho do Instituto de Estudos Avançados da USP, aberta com a saída de d. Paulo Evaristo Arns. Na verdade, trata-se de nova vaga, porque d. Paulo é insubstituível.
folha de s paulo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.