sexta-feira, março 25, 2005

Jornal O Globo -Luiz Garcia: Imagem doente

Entre admiradores e detestadores nunca houve divergência: desde mais ou menos a segunda metade de seu primeiro mandato como prefeito do Rio, Cesar Maia mostrou ser hábil estrategista político, mesmo quando seu comportamento era decididamente excêntrico.


Usar jaqueta num calorão de fevereiro e pedir sorvete em açougue nunca fizeram mal à sua carreira municipal.

Uma vez, participei de um almoço no seu gabinete de prefeito. Estranhíssimo sistema. Os pratos estavam servidos no meio da mesa e cada convidado escolhia o seu, que um garçom então levava a esquentar num microondas.

Não recordo o que comi, apenas que para Cesar não fazia a menor diferença: falou o tempo todo, seu prato foi trocado duas vezes e nunca ele levou garfo à boca. Seus argumentos e idéias eram bem melhores que o prato feito oferecido aos visitantes.

A imagem de bom administrador de sua personalidade, extravagâncias incluídas, acompanhou o prefeito até a recente reeleição. Estranhamente, ela o está abandonando, a galope, na atual crise com Brasília.

Em outros estados pode ser difícil acreditar que o governo Lula seja capaz de ganhar uma briga política com quem quer que seja. Pois aqui no Rio não está sobrando para severino algum: a prefeitura está levando uma surra da turma federal comandada pelo ministro da Saúde — que até outro dia era um garantido futuro ex-ministro.

Cesar Maia provavelmente está coberto de razão ao acusar Brasília de não cumprir compromissos financeiros com hospitais federais municipalizados há alguns anos. Pode-se mesmo aceitar como inevitável, e igualmente com raízes em problemas criados alhures, uma crise no sistema de saúde do município.

Mas, numa situação dessas, a opinião pública espera da autoridade que lhe é mais próxima tentativas visíveis e concretas de abrandar o impacto trágico da situação. E não um esforço, metade cínico, metade patético, de — antes de mais nada e acima de tudo — ganhar a disputa sobre culpa e inocência na falta de atendimento aos cariocas doentes.

Antes da intervenção, nas filas que não andavam, na espera de remédios desaparecidos dos estoques e profissionais inexistentes nos quadros, ninguém pedia ao prefeito que tivesse razão: implorava-se, desde os primeiros sinais de dificuldades, que mostrasse imaginação construtiva e criatividade. Não é o que existe, por exemplo, quando o prefeito usa seu tempo na atitude dúplice de aplaudir a intervenção federal num momento, para logo depois passar a enfrentá-la, nas entrevistas e nos discursos, como invasão, merecedora de todas as formas de sabotagem.

O carioca desassistido não quer saber quem tem razão, e sim quem lhe oferece a mão. No momento, a ajuda vem da intervenção federal. Está presente, por exemplo, nos hospitais de campanha — o que tornou patético o esforço do prefeito para impedir a montagem de um deles no Campo de Santana, convenientemente perto do Souza Aguiar.

É possível que o jardim não fosse o melhor lugar para um atendimento destinado a diminuir a demanda no grande hospital municipal. Mas a localização é adequada — e qualquer prejuízo para a vegetação ou a tranqüilidade das cutias pode ser reparado em pouco tempo. Já os danos para a imagem do prefeito podem ser incuráveis.

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