quinta-feira, março 24, 2005

Folha de S.Paulo - JANIO DE FREITAS:O vazio - 24/03/2005





Jornais e TV dizem que foi o dá-ou-desce dirigido por Severino Cavalcanti a Lula, com as 24 horas para fazer determinado ministro ou perder o apoio do PP malufiano, a causa do abandono da reforma ministerial que já era discutida havia seis para sete meses. E que, a menos de 72 horas da desistência, fora enfim marcada pelo próprio Lula para a última terça-feira, porque "as decisões fundamentais já estavam resolvidas".
Seja ou não outra desculpa mal produzida pelos palacianos, como se depreende ao observar a maioria dos seus propagadores na mídia, os motivos de Lula não têm importância diante de uma questão preliminar: a exigência de Severino decorre menos das suas características do que de Lula. Alguém viria a público com tamanha e tão crua exigência a um presidente da República se o sentisse investido e praticante da autoridade de seu cargo?
Feita a exigência, para não ceder bastaria apenas continuar os procedimentos da pretensa reforma sem a considerar. O abandono da reforma significou a vitória da exigência: Lula não nomeou o indicado por Severino, mas também não foi capaz de pôr-se como a autoridade com condições de se sobrepor ao desafio e nomear outro.
À margem da querela, a desistência de Lula deu, em definitivo, a medida da seriedade posta na tão falada reforma: nenhuma. Em momento algum passou disso, jamais Lula pôde oferecer uma razão convincente para a reforma. Desmoraliza-a até quando exibe bons propósitos, como se deu, ontem, ao declarar exemplo de boa gestão administrativa a intervenção feita pelo ministro da Saúde em hospitais do Rio. Compreende-se que Lula considere Humberto Costa exemplo de êxito, mas por que, então, incluiu-o entre os carimbados para sucumbir, já com o nome do substituto há meses nos jornais? Que seriedade teria a substituição do "exemplo de boa gestão" por alguém que nem do ramo da Saúde é?
Dos dois afinal nomeados, é suficiente dizer o mínimo. Nomear Paulo Bernardo para o Planejamento tem a peculiaridade, do ponto de vista administrativo, de ser o mesmo que não o nomear. A entrega da Previdência a Romero Jucá vale como sugestão aos autores de pautas nas redações jornalísticas: é só acompanhar as nomeações, contratações e outros atos nos meses vindouros.
Há uma reforma necessária, sim. É na consciência dos que ocupam a Presidência da República sem parecer, sequer isso, que sabem onde estão e o que são.

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