domingo, março 27, 2005

Alberto Tamer:O suplício do cresce-para


O Banco Central anunciou, com grande júbilo, que os investimentos diretos no Brasil deverão chegar a US$ 16 bilhões, acima, portanto, da previsão oficial de US$ 14 bilhões. Na verdade, não há nada para comemorar. Simplesmente porque US$ 16 bilhões são muito pouco diante do potencial brasileiro, que já atraiu US$ 32,8 bilhões, em 2000, e US$ 22,5 bilhões, no ano seguinte.

Pode-se argumentar que naquela época havia os recursos das privatizações. Certo? Não, errado. A principal privatização foi a do sistema telefônico, em 1998, quando entraram US$ 28,6 bilhões de investimentos diretos do exterior. No ano seguinte, sem telefonia, ainda alcançamos US$ 28,7 bilhões, mas a partir daí esses recursos minguaram e, no ano passado, ficaram em minguados US$ 12,5 bilhões. Se deduzirmos, como já fizemos em outra coluna, as operações de troca de ações...

Poderíamos dar mais números mostrando que as privatizações, há muito abandonadas, pesaram muito, sim, mas houve grandes oportunidades rejeitadas para se chegar pelo menos a US$ 20 bilhões por ano. O objetivo desta coluna não é ficar repetindo números que o nosso leitor já conhece, mas mostrar que não só eles são insuficientes, mas os investimentos internos também. Sem ambos, é completamente inviável manter um crescimento sustentável. É isso. Sem investimento externo e interno, vamos ficar no suplício do “cresce-pára”, do “cresce e recua”. É o famoso “stop and go” que tem marcado, há décadas, a história econômica do Brasil.

Investimos muito pouco - Para esclarecer todos esses pontos, o colunista ouviu um economista reconhecidamente de alto nível, o prof. Antônio Corrêa de Lacerda, doutor em economia e coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura do Departamento de Economia da PUC de São Paulo.

“Os investimentos externos estrangeiros são importantes pois trazem divisas quando entram e, mais ainda, quando exportam parte da produção que geraram, após terem criado empregos. Como abordei no meu livro ’Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil’ (Editora Saraiva), hoje 60% das exportações brasileiras são realizadas por empresas transnacionais instaladas no País. O Brasil tem potencial para atrair muito mais. Talvez US$ 20 ou 30 bilhões ao ano, ampliando sua fatia no fluxo de investimento global de 2,5% para até 5%”.

Mas, isso é suficiente? - Lacerda diz que não. “É fundamental para o Brasil recuperar a taxa de investimento, a Formação Bruta de Capital Fixo, que representa o total dos investimentos públicos, privados, nacionais e estrangeiros. Ela está hoje em 20% do PIB. É melhor do que os 18% de 2003, e pode chegar a 22% até o final deste ano. No entanto, está ainda aquém dos 25% necessários para sustentar um crescimento anual de 5% ao ano. Só para comparar: os países asiáticos investem em média mais de 30% do seu PIB. É o resumo de um estudo, ainda inédito, que estou coordenando na PUC de São Paulo”.

Enquanto isso, nós... - Essa taxa de 22% do PIB brasileiro, esclarece Lacerda, inclui o total dos investimentos públicos, privados, nacionais e estrangeiros, e também ampliações na produção e em infraestrutura.

Ou seja, para um PIB brasileiro hoje estimado em US$ 600 bilhões, precisamos anualmente investir US$ 150 bilhões. Os prováveis US$ 16 bilhões que ingressarão com IDE representam pouco mais de 10% disso. Além do mais, como a maior parte do investimento estrangeiro que entra no país não é greenfield (novas plantas produtivas) e sim transferências patrimoniais por operações de fusões e aquisições internacionais de empresas já existentes, esse efeito é ainda menor.

Os investimentos externos são importantes, mas não são tudo. Urge articular uma estratégia para definir mais claramente o que se espera dele, afirma Lacerda.

China investe mais do que recebe! - Como sempre, a grande “estrela” é a China? “Sim, a China lidera de longe os fluxos de investimentos diretos. Mas, é preciso destacar que também na economia chinesa eles têm um papel complementar. Ela recebe de US$ 50 a 60 bilhões ao ano, mas investe no total de 500 a 600 bilhões (cerca de 40% do seu PIB). Ou seja, o IDE é importante, mas representa apenas cerca de 10% do total investido!”

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